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‘Para o Brasil voltar a ser colônia’: o que o plano de governo de Flávio Bolsonaro esconde?

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Neste domingo (25), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) disputam o segundo turno das eleições presidenciais mais apertadas da história recente do país. O candidato da extrema-direita, em várias ocasiões, mudou de posição sobre diversos temas econômicos. Para a economista e professora da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Marisela García Hernández, o plano de governo de Flávio é falacioso.

Com o nome “Para o Brasil vencer o atraso”, o plano apresenta medidas neoliberais de corte orçamentário. Flávio afirmou que cortaria R$ 250 bilhões do orçamento, mas não explicou onde faria os cortes. Também disse que retiraria dez ministérios, mas não especificou quais.

Segundo Hernández, há uma parte do projeto que é anunciada e outra que está nas entrelinhas. Se, por um lado, Flávio anuncia que não congelará o salário mínimo e a aposentadoria, nem acabará com o Bolsa Família, seu plano revela outro caminho.

No Paraná, são mais de 600 mil famílias beneficiárias do Bolsa Família que podem ser afetadas, caso o candidato da extrema direita vença as eleições. No Brasil, cerca de 70% dos trabalhadores recebem até dois salários mínimos, conforme os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No Paraná, a proporção de pessoas que recebem nessa faixa acompanha a média nacional.

De acordo com os dados do Censo de 2022, cerca de 31% da população ocupada de Curitiba (PR)  ganha entre um e dois salários mínimos – a maior parcela da população, no Paraná e no Brasil, se enquadra nessa categoria.

Hernández, que leciona economia na UFFS no campus de Laranjeiras do Sul (PR), no centro do estado, explica que o projeto de Flávio se ajusta às necessidades dos Estados Unidos. Segundo ela, é interesse dos EUA que o Brasil, cada vez mais, se especialize na produção de commodities, se desindustrialize, passe a ser mais dependente de importações e se ancore na superexploração da força de trabalho.�

“Está vinculado, obviamente, à política de salário mínimo que foi apresentada por Daniella Marques [coordenadora econômica da campanha de Flávio]”, afirma. Em entrevista ao podcast Market Makers, Marques chegou a admitir que o corte do salário mínimo e das aposentadorias é uma das medidas cogitadas no pacote de cortes apresentado a Flávio Bolsonaro.

“Eu falaria que é para o Brasil voltar a ser colônia. Esse deveria ser o nome verdadeiro desse programa de governo”, analisa.

Daniella Marques e Flávio Bolsonaro têm mudado de posição várias vezes quanto a temas sensíveis da economia | Crédito: Reprodução/Facebook

O que pode acontecer com o salário mínimo?

O salário mínimo no Brasil é de R$ 1.621,00 por mês (R$ 54,04 por dia ou R$ 7,37 por hora), em vigor desde 1º de janeiro de 2026. A política de aumento real do salário mínimo, ou seja, um crescimento além do reajuste da inflação, existe desde 2003, no primeiro mandato de Lula, e seguiu por todos os governos petistas.

Embora a campanha oficial do PL negue intenções de congelar o mínimo ou cortar benefícios, interlocutores e assessores econômicos de Flávio Bolsonaro apresentaram previamente ao mercado financeiro planos de ajuste fiscal (apelidados de “tesouraço“). As propostas incluíam a desindexação de aposentadorias e do BPC em relação ao salário mínimo e o corte de dez ministérios.

O salário mínimo, hoje, seria de R$ 852 se tivesse sido corrigido apenas pela inflação oficial desde janeiro de 2004, sem o aumento real promovido pelo governo Lula e Dilma Rousseff (PT). Os governos de Michel Temer (2016-2018) e Jair Bolsonaro (2019-2022) aumentaram o valor nominal do salário mínimo, mas não concederam ganho real acima da inflação durante seus mandatos. O último aumento real do salário mínimo antes do período de estagnação ocorreu no governo Dilma, em janeiro de 2016.

O salário mínimo necessário (o chamado “salário mínimo verdadeiro” ou ideal), calculado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), é de R$ 7.687,01 (referente a julho de 2026).

Hernández aponta para o poder político que a extrema direita pode concentrar caso Flávio vença as eleições. O PL conseguiu maioria absoluta na Câmara dos Deputados e no Senado – com a presidência, teria o poder de aprovar projetos sem resistência institucional.

O candidato declarou, no começo de outubro, que pretende usar uma eventual maioria de direita no Congresso Nacional para propor alterações na Constituição Federal de 1988.

“Ele quer retirar do texto constitucional a obrigatoriedade de o salário mínimo ser corrigido pela variação da inflação. Ele teria toda a possibilidade de fazer isso, porque estaria com todo o Congresso na sua mão. E, ao mesmo tempo, acabar com o projeto que foi implantado desde 2003, com o governo Lula, sobre a valorização real do salário”, explica.

A economista aponta que a volta de um congelamento do salário mínimo levaria a um efeito em cascata. “O salário mínimo é referência para todos os salários. É referência para o salário, desde o ponto de vista do trabalho formal, mas é também referência para qualquer outro tipo de remuneração, inclusive a informal”, afirma.

A medida pode impactar não só empregos formais: “Vai puxar também para baixo tudo o que diz respeito aos benefícios dos aposentados, dos pensionistas e daqueles que têm um benefício de prestação continuada, que é o pagamento mensal de um salário mínimo para idosos e pessoas com deficiência em situação de vulnerabilidade.”

Aposentadorias e benefícios

O Paraná possui cerca de 1,4 milhão de aposentados, considerando a população geral pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e dados estaduais. Também no estado, 275 mil pessoas recebem o Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS), conforme dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome de agosto de 2026. Tanto a aposentadoria quanto o BPC têm o salário mínimo como base de cálculo.

Essa parcela da população — que quase representa o todo — vai ser afetada na capacidade de compra em um eventual congelamento do salário. “Ao longo dos anos, significa uma plena pauperização, empobrecimento dessa população”, alerta Hernández.�

No Brasil, são cerca de 70 milhões de pessoas que dependem direta ou indiretamente do piso nacional do salário mínimo. “Isso vai afetar, em primeiro lugar, a alimentação, a saúde, a moradia, os transportes, porque as famílias dedicam praticamente todo o seu salário para isso. Então, não estamos falando de luxo, muito pelo contrário, estamos falando de enxugar o mínimo do mínimo, estamos falando da precarização, de um capitalismo selvagem, de um hiperneoliberalismo”, explica.

Como consequência, a economista aponta que a arrecadação do Estado e o consumo da sociedade também diminuem. Ela afirma que vai haver uma desaceleração do “pouco crescimento que já temos”, para entrar em uma depressão econômica em seguida, sobretudo nas pequenas cidades.

A economia local e os pequenos municípios serão os mais afetados, porque dependem da aposentadoria e de benefícios como o Bolsa Família para aquecer o consumo. Além da redução do poder de compra com a estagnação de salários, que afetaria o país como um todo.

“Se trata da desconstrução de conquistas que, por menores que sejam, são importantes para o dia a dia da classe trabalhadora”, destaca.

Paraná possui cerca de 1,4 milhão de aposentados | Crédito: Antonio Cruz/Agência Brasil

Ataque à condição de vida dos trabalhadores

Nos debates do segundo turno da campanha presidencial, Flávio misturou a defesa do Auxílio Brasil, pago na gestão do pai, Jair Bolsonaro, com propostas de revisão cadastral e limites temporários. O senador fez críticas ao Bolsa Família em diversas ocasiões. Em tuítes recentemente apagados, chama o programa de “bolsa farelo”.

Depois de idas e vindas, não se sabe ao certo qual a posição final do candidato sobre o Bolsa Família. Flávio afirma que manterá o programa se eleito, mas sua equipe econômica, liderada por Daniella Marques, apresentou uma proposta de “transição” do programa em até dois anos.

A proposta prevê que os beneficiários que consigam emprego formal ou abram um microempreendimento passem por uma transição e deixem o programa após o período. Marques não explicou como essa medida seria implementada. A regra atual já possui gatilhos de proteção. Limitar o benefício com base no indivíduo (e não na renda total da família, como é hoje) ignora a volatilidade do mercado de trabalho e a precarização do emprego.

“O Bolsa Família é um programa que pretende um mínimo de proteção social. É como se fosse um colchão contra essa precariedade extrema do neoliberalismo. É garantir uma renda mínima para uma faixa da população que está na extrema pobreza e na pobreza. Essa proteção permite acessar alguns direitos básicos, como o direito à alimentação, à saúde e à educação, porque está atrelada a condicionantes”, explica Hernández.

Para receber o Bolsa Família, a principal regra é ter uma renda mensal de até R$ 218 por pessoa da família. Além disso, a família precisa garantir a frequência escolar, manter a vacinação em dia e o acompanhamento de saúde de crianças e adolescentes.

O valor atual é de R$ 691 por família, considerando o último aumento de 15%. O Bolsa Família ocupa 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV) apontam que a transferência de renda possibilitada pelo programa é a grande responsável pela redução expressiva da subnutrição e da mortalidade infantil no país.

Andrea Braga, especialista em políticas públicas e professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), afirma que o plano de governo de Flávio esconde propostas e não explica como vai cumprir o que anuncia. As medidas vão na linha de políticas neoliberais: “Há uma centralidade da concorrência, do mercado, de desresponsabilizações das ações do Estado para a responsabilidade individual”, descreve.

Para ela, as medidas não foram de fato abertas pela equipe econômica da campanha, o que é um risco, dado o possível impacto na vida da população.

Para Braga, há preocupação quanto aos cortes também nas estruturas da saúde pública. “Quando a gente fala, por exemplo, do atendimento do SUS [Sistema Único de Saúde], do atendimento da assistência social, do atendimento da política habitacional, da política urbana, a gente precisa de orçamento, então se vai haver uma redução de estruturas, uma desestatização, como fica o atendimento à população?”, indaga.

A professora de Serviço Social explica que há uma “não-nitidez” no plano, tanto no programa econômico, quanto nas próprias estruturas do Estado. “Essa retração do orçamento logicamente vai impactar a base, vai impactar diretamente a vida da população”, conta.

Para cortar R$ 250 bilhões, Flávio teria que atacar a aposentadoria | Crédito: Sindicato dos Bancários

Programa falacioso

Para ambas as especialistas ouvidas pelo Brasil de Fato Paraná, o plano de Flávio é enganoso. Hernández considera que o projeto econômico é uma falsa proposta: “A ideia é que as famílias saiam do Bolsa Família porque elas vão ter a possibilidade de ser empreendedoras ou de alguma forma se colocar em postos de trabalho formais. Nenhuma dessas duas coisas é possível ser realizada diante da política econômica que está sendo proposta.”

Ela explica que a melhoria nas condições de vida dos trabalhadores significa uma melhoria nas condições de trabalho. E, para que haja melhores condições de trabalho, são necessárias mudanças estruturais na economia, como a retomada da industrialização.

“Implica em deixar de ser um país que se insere na dinâmica internacional a partir das commodities, em terminar com a superexploração do trabalho. De fato, essas condições para melhorar os postos de trabalho estão completamente na contramão das políticas econômicas do governo Bolsonaro”, descreve.

Hernández destaca uma “desconexão completa com a realidade” e um conjunto de propostas “falaciosas”. Do ponto de vista do empreendedorismo, ressalta que a ideia mascara a precarização do trabalho.

“Trata-se, em poucas palavras, de um empreendedorismo precário, que quer estimular a autonomia para que as pessoas deixem de depender da Bolsa Família, como se fosse uma opção das famílias. Não é uma opção das famílias”, afirma.

Ao destruir a pequena economia, as medidas neoliberais também fortalecem as grandes corporações. “A partir do momento em que as pessoas não têm possibilidade de gastar nos pequenos comércios, essa lógica mercantil vai por água abaixo. Acaba-se aumentando o privilégio para as grandes empresas. Tudo isso está em jogo”, lembra Braga.

Braga e Hernández pontuam que Flávio está transmitindo o desejo da burguesia estrangeira. “É não ter salário mínimo. É isso que está, de fato, colocado nas entrelinhas. E a justificativa é evitar que estoure o teto dos gastos públicos, que é completamente falsa também”, afirma Hernández.

“Esse tal alívio das contas públicas, que se traduz nas metas de resultado primário, ele se direciona para o pagamento dos juros do capital financeiro, que não tem nenhum vínculo com o investimento e que, portanto, não tem nenhum vínculo com o crescimento, não tem nenhum vínculo com a geração de emprego ou com a distribuição de renda. Trata-se de defender os interesses do capital e, em particular, do capital financeiro”, enfatiza.

Flávio e Daniella têm feito referências ao governo argentino do ultraliberal Javier Milei | Crédito: Nelson Almeida/AFP

Ditadura é necessária para implementar neoliberalismo

Segundo Hernández, o avanço do hiperneoliberalismo está exigindo uma transformação profunda nos padrões de dominação política na América Latina. Ela aponta que a redução drástica na qualidade de vida e no padrão tradicional de vida dos trabalhadores é incompatível com a estabilidade democrática convencional, o que torna “necessária” a ascensão de governos autoritários: “A questão de ter um governo ditatorial não é uma coisa que está colocada entre as entrelinhas, não. É um fato.”

Para sustentar cortes profundos e a degradação das condições sociais, o sistema econômico precisa de um novo aparato de controle e coerção. Hernández ainda explica que a crise do capitalismo atual, ao atingir com maior intensidade os países da periferia global, expõe os limites sociais dessas medidas e do próprio capitalismo.

Em diversos países latino-americanos, o cenário é semelhante: Argentina, Bolívia e Equador são exemplos de onde a adoção do modelo econômico neoliberal veio acompanhada da truculência e do ataque a direitos políticos.

“Isso nos leva diretamente à alteração do padrão de dominação, não tem como separar isso. Estas medidas que estão sendo anunciadas de forma velada, truncada, falsa, têm uma consequência também em termos políticos”, conclui.





Com Informações: Brasil de Fato

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