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Entre notícias e resistências: a luta do Tururu pelo direito à comunicação

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Por André Fidelis*

Historicamente a comunidade do Tururu é estereotipada na grande mídia como um local estritamente violento. Há registros, por exemplo, da década de 70, do Diário de Pernambuco (jornal de grande circulação local) que já estigmatizava a comunidade como violenta, quando ela simplesmente lutava pelo direito à moradia, que iniciava seu processo de estabelecer ocupações na localidade e construir pequenas casas de taipa. Mas como se contrapor a isso, sendo esta imprensa hegemônica que durante anos gera narrativas de fortes representações sociais às periferias? Esta pergunta só é possível ser respondida por uma imersão a estudos e a um processo de enfrentamento a estas violações e pela luta em favor da democratização da comunicação em nosso país.

Dentro da comunidade há organizações sociais que promovem projetos com crianças, adolescentes e jovens em diversas áreas: cultura, com apresentações de dança, percussão; na área da formação em práticas humanísticas, abordando as relações interpessoais, o direito à cidade, com um forte debate político sobre diversos temas; e há também grupos de capoeira, música, além de organizações que buscam criar suas próprias condições de lazer, como associações de futebol e motocross. E isso é desde a década de 90, porém, por muitas vezes, no imaginário popular fica apenas o Tururu como violento devido ao processo intencional causado pela mídia hegemônica ao território.

Um fato ocorreu na comunidade há muitos anos quando um grupo armado a cavalo assaltou um ônibus dentro da comunidade, os assaltantes não eram do local, mas, mesmo assim, isto serviu de pretexto para a empresa de transporte urbano que atendia o Tururu com poucos itinerários, reclamar da violência no território. Aquele assalto não demorou muito para servir de manchetes a sanguinária sede vampírica dos meios de comunicação de massa: Cavaleiros roubam ônibus na comunidade do Tururu! Esta era a mais simples de tantas “manchetes” que saíra deste triste fato.

Os impactados maiores desse processo de esteriotipação são os moradores, na sua maioria negros e pobres, mas com um recorte especial para a juventude, o grande alvo de décadas dessa política homicida de combate as drogas que tem como alvo um endereço, cor e classe social específica, além do controle de corpos. Por isso e devido a isso, fortes reflexões começaram a surgir de como gerar movimentações comunitárias de se contrapor a este processo, mostrar as potencialidades do Tururu e tudo que há de forte que é pouco mostrado na imprensa.

Nesta guerra entre “Davi e Golias”, nasce em 2008 o Coletivo Força Tururu, o Davi dessa história, uma movimentação gerida por jovens moradores do território, que a partir da comunicação independente popular e comunitária resolve, no ecoar de vozes periféricas, reescrever essa história, falando do lado verdadeiro, visto pela população, o quanto este território afetivo é fervido e organizado por gente trabalhadora, por instituições sociais que creem sempre em um futuro melhor e por tantas pessoas que fazem daqui o seu lar.

A primeira grande ação foi a produção do documentário “Tururu: justiça, paz e vida”, que tinha o objetivo mostrar os pontos fortes da comunidade, como ela nasceu, os projetos sociais, foram alguns pontos importantes abordados. Ocorreram divulgações em diversas escolas e cineclubes. Com esse filme, foi possível conquistar, em 2012, um prêmio da Secretaria Nacional de Direitos Humanos. Com o recurso recebido, foram adquiridas as primeiras câmeras para produzir informações locais.

Era preciso dizer, documentar, que a Casa Herbert de Souza, desenvolvia uma formação com 100 crianças, que o Instituto Dom Hélder Câmara possui um grupo de percussão que se apresenta em vários locais da região metropolitana do Recife, que o grupo de jovens da capela do Sagrado Coração de Jesus, atuava mobilizando outros jovens a refletirem sobre os problemas sociais que afetavam o Tururu.

Em paralelo a isso, foi criado o jornal “Articula Tu Tururu”, bimestral, com tiragem de 500 a 1000 exemplares, que mostrava os rostos dos moradores, poesias, dicas, etc.. Tudo era feito com bastante carinho e distribuído à população em pontos específicos da comunidade, como: mercadinhos que sempre se dispunham a entrega-los, ou em caminhadas feitas pelas ruas do territórios para que ninguém ficasse sem ler nossa produção, que era feita a duras penas, sendo a principal dificuldade arrumar recursos para a impressão dos informativos. Quem não sabia ler, não tinha problema, a gente lia junto com as pessoas para informar o conteúdo daquele trabalho que acreditávamos ser potente.

Vieram os cursos de fotocomunicação, mais parcerias chegaram, produção de diversos vídeos, exposições de fotografia que mencionavam as potencialidades do território, a vida cotidiana do Tururu era sempre pauta desse fluxo informativo que era organizado e multiplicado para dentro e fora da comunidade. O direito à comunicação vai muito além do acesso à informação: significa garantir que todas as pessoas e comunidades tenham condições de produzir, compartilhar e fazer circular suas próprias narrativas. Historicamente, as periferias têm sido retratadas pela grande mídia a partir de estereótipos que reforçam a violência, a pobreza e a marginalização, silenciando suas histórias de resistência, cultura, organização e luta por direitos. Nesse contexto, a comunicação popular e comunitária surge como uma ferramenta fundamental para enfrentar essas desigualdades, questionar as narrativas dominantes e afirmar o protagonismo de quem, por muito tempo, foi apresentado apenas como personagem das notícias, sem ter o direito de contar a própria história.

É incalculável o dano historicamente causado pela mídia hegemônica à comunidade do Tururu, quantas vezes tentaram estabelecer uma narrativa preconceituosa e racista sobre o território sem direito de resposta às pessoas que aqui moravam? Se essa mesma imprensa que com tanto afinco construiu representações sociais negativas tivesse a sensatez de reparar isso, lutaria hoje. Lutaria pela democratização da comunicação, regionalizando conteúdos, incentivando conselhos democráticos de participação popular, ouvindo moradores primeiro ao invés da polícia, mas isso de maneira sistemática e contínua e não apenas pontual, no ato da notícia, o conteúdo, sem dúvidas chegaria com mais veracidade, representatividade e respeito.

É nesse cenário que a atuação de coletivos periféricos, como o Coletivo Força Tururu, ganha importância. Ao produzir informações a partir da realidade dos territórios, formar novos comunicadores e dar visibilidade às demandas da população, esses grupos contribuem para democratizar a comunicação e fortalecer a participação popular. Mais do que disputar espaço na mídia, trata-se de construir outros caminhos para que as comunidades sejam reconhecidas como produtoras de conhecimento, cultura e informação. Defender a comunicação como um direito é, portanto, defender a democracia, combater as desigualdades e garantir que as vozes das periferias não sejam apenas ouvidas, mas também respeitadas e reconhecidas como parte indispensável da construção da sociedade.

Hoje as menções negativas da comunidade do Tururu caíram drasticamente nos jornais policialescos da hora do almoço, por exemplo, porém não deixam de existir, vez ou outra trazem recortes que só diminuem a localidade e tem o objetivo de sensacionalizar e vender a ideia de que toda periferia é violenta. Nos sites de buscas, escrever o nome “comunidade do Tururu”, as citações negativas quase que despencaram, sendo engolidas, ainda bem, por uma enxurrada de movimentações positivas no campo cultural, da comunicação, de ações beneficentes, entre outras. Tudo isso, pelo trabalho desenvolvido através do Coletivo Força Tururu? Também, mas não só, muitas instituições instaladas no local tem seu papel fundamental nesta construção positiva: OSCs, grupos de capoeira, times de futebol, companhias de dança, são alguns dos exemplos.

O avanço da extrema direita no Brasil se apresenta como mais um desafio diante de vários. Com ela vencendo as eleições no próximo pleito de 25.10, os entraves serão ainda maiores, com concentração de poder em um grupo específico que sacia sua fome a partir da revogação de direitos, da entrega das riquezas ao capital estadunidense e forte discurso de ódio, o que impacta diretamente na democratização da comunicação e na regulamentação da redes sociais, para continuar imprimindo sua pauta de manipulação de massas, através de vídeos com cortes rápidos, de pouco conteúdo, mas que são viralizados aos montes nas grandes plataformas.

Em caso de vitória da esquerda, é tomar como encaminhamento urgente essas pautas acima citadas, enfrentar as big techs e desmontar todo o aparelhamento construído para tomar dados da população. De qualquer forma, seja qual for o governo eleito, a mobilização popular e o enfrentamento aos grandes oligopólios de comunicação e poder é algo a ser feito de maneira sistemática, dialogando com diversas frentes do nosso país, sobretudo as periféricas.

Há muito conteúdo, bastante produção sendo organizadas e implementadas nas favelas. Grupos com poucos recursos tem estado de frente para que a comunicação seja democratizada para além de vídeos publicados na internet, mas como política pública, o caminho para se começar a fazer este processo de enfrentamento, de regulamentação das grandes plataformas digitais e a fim que as periferias falem, tragam propostas, sejam coparticipantes desse processo. Sem envolver, formar, instrumentalizar, garantir vez e voz ao povo que tem feito isso todos os dias, com pouco recurso, mas de forma espetacular, não será possível mudar muita coisa.

*André Fidelis é pedagogo, comunicador popular, coordenador pedagógico e gestor de projetos do Coletivo Força Tururu

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.





Com Informações: Brasil de Fato

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