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Kixikila: uma forma de organização social e econômica em Angola

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Por Elisabete Vitorino*

Pensar na África e na diáspora negra africana é estabelecer conexões entre o Brasil, os países africanos e todos os outros territórios em que estão descendentes de africanos. As conexões são inúmeras e, nesta edição da coluna, iremos até Angola para conhecer uma forma de organização social que acontece em algumas comunidades daquele país: a Kixikila.

Para isso, conversei com o pesquisador angolano Edgar Gaieta Raimundo, que é bacharel em humanidades pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) e pós-graduando em Economia Solidária, Inovação e Gestão Social na Universidade Federal do Cariri, no estado do Ceará.

Elisabete Vitorino Edgar, gostaria que você se apresentasse para nós e para os nossos leitores.

Edgar Gaieta Raimundo – Primeiramente, agradeço o convite da colunista Elisabete Vitorino pela oportunidade de compartilhar parte da minha pesquisa. É uma satisfação contribuir para o debate sobre uma prática tão importante da cultura e da economia angolana.

Eu sou o Edgar Gaieta Raimundo, angolano, bacharel em humanidades pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) e pós-graduando em Economia Solidária, Inovação e Gestão Social na Universidade do Cariri. A minha pesquisa concentra-se nas práticas da economia solidária em Angola, especialmente na Kixikila, buscando compreender como essa forma tradicional de organização econômica fortalece a autonomia financeira, a cooperação comunitária e, principalmente, a emancipação social das mulheres angolanas.

O que significa a palavra Kixikila?

A palavra Kixikila tem origem no kimbundu (KIXI – KILA) deixar com alguém, é um sistema popular de poupança e crédito rotativo baseado na confiança, na reciprocidade e no compromisso coletivo. Seu funcionamento é relativamente simples: um grupo de pessoas contribui periodicamente com um valor previamente acordado e, em cada rodada, um dos participantes recebe o montante total arrecadado. Ela é interessante porque pela perspectiva da economia solidária, a Kixikila demonstra que existem formas de organização econômica fundamentadas na confiança e na ajuda mútua, e não exclusivamente na lógica do lucro.

Qual a configuração econômica angolana com ênfase nas desigualdades de gênero na educação e no mercado de trabalho?

Angola é um dos países mais ricos (potencialmente) de África. Apesar das riquezas naturais, parte da população depende da economia informal para garantir sua sobrevivência. Essa realidade afeta diretamente as mulheres. As desigualdades de gênero aparecem desde o acesso à educação até a inserção no mercado de trabalho. Embora tenha havido avanços importantes nas políticas públicas e programas sociais nas últimas décadas, muitas mulheres enfrentam dificuldades para concluir a escolarização, acessar empregos formais, obter crédito bancário e ocupar posições de liderança econômica. Essas limitações decorrem de fatores históricos, sociais e culturais, dos quais em semelhança ao Brasil, a divisão sexual do trabalho, a sobrecarga as responsabilidades domésticas e familiares e as desigualdades no acesso aos recursos produtivos.

Qual o papel da mulher na sociedade angolana?

Prefiro dizer que todos temos papéis reais e ideais. Embora as mulheres desempenhem/apresentam um papel real central na sociedade angolana por meio das responsabilidades familiares, fruto do pensamento patriarcal da sociedade, elas são protagonistas ideais em inúmeras atividades econômicas, especialmente no comércio, na agricultura, na educação, no empreendedorismo popular e nas organizações comunitárias. Além do mais, historicamente, a mulher angolana teve participação decisiva na luta pela de resistência ao colonialismo, reconstrução econômica e social do país pós-independência, sobretudo após o período da guerra civil. Sob essa perspectiva, elas deixam de ser apenas beneficiárias dessas práticas para se tornarem agentes do desenvolvimento local e da transformação social.

Por que, na sua análise, as mulheres têm maior participação nesse tipo de crédito rotativo?

A minha pesquisa (ainda em curso) indica que essa predominância feminina está relacionada a diferentes fatores sociais e econômicos. Primeiramente, muitas mulheres encontram maiores dificuldades para acessar a banca devido à ausência de garantias patrimoniais, renda formal ou histórico bancário e quando alcançam deparam-se com o machismo que não deixa enxergar as mulheres como gestores bem-sucedidas de finanças.

Quais os impactos da Kixikila nas relações familiares e comunitárias?

As pesquisas em torno das economias solidárias, créditos rotativos e modelos econômicos democráticos demonstram que impactos na redução das desigualdades financeiras são bastante significativos. A título de exemplo, o Banco Palmas – o primeiro banco comunitário do Brasil, impactou positivamente a renda das famílias mantendo os recursos circulando na comunidade, estimulou o comércio e facilitou o acesso ao crédito. No âmbito social, aumentou o empoderamento dos moradores e levou senso de pertencimento.

O estágio atual das pesquisas sobre a Kixikila tendem a indicar um caminho que representa que práticas econômicas diferentes da lógica do capitalismo têm resultado em impactos tanto como patrimônio cultural que reafirma valores como solidariedade, responsabilidade coletiva e pertencimento comunitário quanto econômicos, compreendo a Kixikila não apenas como um mecanismo financeiro, mas como uma tecnologia social construída historicamente pelas comunidades angolanas.

Para terminar, você acredita que existem desvantagens na Kixikila? Se sim, quais?

Sim. Embora a Kixikila seja uma prática amplamente conhecida em Angola, ela também possui limitações. Como funciona essencialmente com base na confiança, um dos principais riscos ocorre quando algum participante deixa de cumprir suas contribuições, comprometendo todo o grupo. Outro desafio é a ausência de regulamentação formal em caso de conflitos, entre os participantes. Porém acredito que fortalecer essas experiências significa reconhecer que o desenvolvimento econômico também pode ser construído por meio da cooperação e da participação comunitária, especialmente quando protagonizado pelas mulheres.

Muito obrigado pela oportunidade de compartilhar parte desta pesquisa (que ainda está em curso). Espero que ela contribua para ampliar o reconhecimento da Kixikila, do Tontine, do Xitique e outras práticas com relevância social na economia africana e como um possível instrumento aliado de emancipação econômica e social da mulher.

Elisabete Vitorino Sem dúvidas é uma pesquisa muito interessante. Parabéns. Sabemos que as estruturas sociais em que estão assentadas as diferenças e similaridades entre os países africanos e países que receberam a diáspora negro-africana passam por processos históricos, políticos e econômicos próprios.

Ainda assim, esses processos não foram capazes de extinguir as conexões existentes. Há alguns anos conheci em uma comunidade de Salvador, na Bahia, um grupo de mulheres que utilizavam a mesma estrutura da Kixikila e nomearam de “caixa”.

Portanto, o que podemos concluir que as bases das relações sociais não se perderam com o sequestro de pessoas negras africanas durante o período da escravidão, elas se transformaram e ganharam contornos próprios em cada território do mundo onde os africanos chegaram.

*Elisabete Vitorino é paraibana, assistente social, mestra em Serviço Social e especialista em Saúde Mental pela UFPB. Atualmente é doutoranda em Estudos Étnicos e Africanos pela UFBA. Foi professora do curso de graduação de serviço social na Univerdidade Federal do Recôncavo da Bahia e professora formadora do curso de Aperfeiçoamento em Educação para as Relações Étnico-Raciais, promovido pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) no Campus dos Malês. É autora do livro “Serviço Social e atuais tendências do exercício profissional na saúde mental em João Pessoa/PB”.

**A opinião contida neste texto não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.





Com Informações: Brasil de Fato

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