Neste 25 de julho, data em que reverenciamos o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, a nossa reflexão política não pode se apartar da terra na qual pisamos e dos territórios que defendemos. A luta histórica das mulheres negras por dignidade, soberania e direitos converge, na atual conjuntura, para a urgência inadiável da justiça climática e socioambiental. É sob essa ótica de resistência secular que devemos encarar o novo fetiche do desenvolvimento econômico global: a transição energética e a digitalização de alta tecnologia, ambas impulsionadas pelos chamados minerais críticos. �
A primeira grande notícia técnica que se alardeia nos círculos corporativos é que as chamadas terras raras não são uma raridade geográfica. Trata-se de um grupo de 17 elementos químicos metálicos — 15 deles compondo a cadeia dos Lantanídeos (Lantânio, Cério, Praseodímio, Neodímio, Promécio, Samário, Európio, Gadolínio, Térbio, Disprósio, Hólmio, Érbio, Túlio, Itérbio e Lutécio), somados ao Escândio e ao Ítrio. Embora dispersos pelo planeta, o real interesse da mineração capitalista repousa onde há alto teor e concentração.
E é no coração do Brasil, mais especificamente nas profundezas do Cerrado goiano, que esses elementos se revelam em depósitos de argila de absorção iônica. Por estarem próximos à superfície e oferecerem um baixo custo de extração, transformaram o estado de Goiás em um alvo prioritário da cobiça mineral internacional.�
Engrenagem extrativista
Atualmente, Goiás abriga um contingente alarmante de 503 alvarás e processos de pesquisas para a exploração de terras raras, posicionando-se como o terceiro estado brasileiro em volume de frentes de pesquisa, superado apenas pela Bahia (1081) e por Minas Gerais (647). A engrenagem extrativista já opera em ritmo acelerado em dois dos principais complexos minerários do país: o de Serra Verde, em Minaçu, e o de Catalão, no sul goiano.
O fantasma da consolidação de uma espécie de novo “quadrilátero ferrífero” no Planalto Central assombra o horizonte. A técnica tradicional majoritariamente empregada mimetiza a ferocidade da extração de ferro, rasgando o tecido da terra com imensas crateras. Retira-se a cobertura vegetal e o solo fértil para processamento, deixando exposta a nudez estéril das camadas geológicas mais profundas. Em Minaçu, o projeto Serra Verde já impactou diretamente 9.172 hectares, o que corresponde a meros 15% do total planejado de 70.000 hectares de devastação prevista. Em Nova Roma, o Projeto Carina, conduzido pela empresa Aclara e ainda sob licença de pesquisa, ameaça replicar o mesmo modelo de solo exposto e morto. Embora se ventile o método de exploração por raias — que transfere a camada orgânica para faixas já mineradas para mitigar a erosão e o acúmulo de rejeitos —, a essência da atividade permanece intrinsecamente violenta e espoliadora.�
O que a frieza dos relatórios econômicos e a euforia do mercado de ações omitem deliberadamente é o custo socioambiental dessa fratura geográfica, cujo impacto possui marcadores de gênero e raça indiscutíveis. No Brasil e no mundo, a geopolítica das terras raras sobrepõe-se historicamente a territórios vulnerabilizados pelo racismo ambiental. O avanço da fronteira mineral em Goiás avança sobre áreas de extrema sensibilidade cultural e ecológica, circundando e ameaçando diretamente comunidades e povos tradicionais, com especial gravidade sobre os territórios quilombolas e as populações que salvaguardam a região da Chapada dos Veadeiros. É uma reatualização da lógica colonial: a riqueza do subsolo é drenada para abastecer as indústrias do Norte Global, enquanto o ônus da contaminação das águas, do esgotamento das fontes agrícolas e da desestruturação comunitária é integralmente depositado nos quintais das populações negras e originárias.�
Mulheres negras na linha de frente
Diante desse cenário de agressão perpetrada pela ambição do capital, emerge a liderança incontornável das mulheres negras na linha de frente da resistência. No Brasil, os dados socioeconômicos revelam que as mulheres negras chefiam a maior parte dos lares nas comunidades periféricas e tradicionais, sendo as principais guardiãs da segurança alimentar, da memória coletiva e da permanência no território.
Quando o grande capital internacional avança sobre os solos tradicionais, são elas as primeiras a sentir o colapso das redes de abastecimento hídrico, a contaminação química que adoece seus filhos e a perda da autonomia econômica baseada na agricultura de subsistência.
A destruição física da terra pelo extrativismo de terras raras desorganiza a vida comunitária de forma profunda, intensificando as jornadas de trabalho dessas mulheres, que passam a lidar com a escassez, com a violência decorrente da chegada de contingentes populacionais flutuantes trazidos pelas mineradoras e com o racismo institucional que valida a sua exclusão dos processos decisórios e de licenciamento ambiental.�
Essa realidade goiana dialoga diretamente com as dinâmicas globais de exploração mineral. Onde quer que haja a febre das terras raras ou de minerais estratégicos para a dita transição verde — seja no continente africano, na América Latina ou em enclaves racializados do Sul Global —, repete-se a mesma estrutura de exploração e exclusão política das mulheres negras. Elas continuam sub-representadas nos espaços formais de poder político e econômico, com salários severamente inferiores e menor acesso à titularidade da terra, mas são as primeiras a erguerem barricadas físicas e jurídicas em defesa dos bens comuns. A luta das mulheres negras contra a mineração predatória não é uma mera disputa por compensações financeiras ou mitigações parciais; é um embate civilizatório em defesa da sanidade ambiental de seus povos e da manutenção de modos de vida que rejeitam a transformação da natureza em mercadoria descartável.�
Portanto, ao enaltecermos o legado político do 25 de julho, reafirmamos que o enfrentamento à consolidação desse novo “quadrilátero ferrífero” de terras raras em Goiás exige dos movimentos socioambientais, e em especial do feminismo negro organizado, um trabalho hercúleo e ininterrupto de monitoramento, denúncia, luta e resistência.
Não aceitaremos que o discurso de sustentabilidade do Norte Global seja pavimentado com o solo morto, a erosão descontrolada e o esquadrinhamento de corpos e territórios negros no Cerrado. Exigimos o respeito irrestrito ao direito de consulta prévia, livre e informada, conforme preconiza a Convenção 169 da OIT, e a centralidade das vozes das mulheres negras na formulação das políticas de ordenamento territorial. A soberania e a sanidade ambiental de nossos povos não estão à venda para saciar a insaciável fome do capital financeiro internacional.
Neste Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, ecoamos o nosso grito ancestral: resistiremos, fincadas na terra de nossos ancestrais, contra cada hectare de destruição que tentarem nos impor.�
*Janira Sodré é coordenadora executiva da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB).
**Este é um artigo de opinião. A visão das autoras não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato – DF.
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