A articulação da família Bolsonaro junto ao governo dos Estados Unidos gerou, de imediato, o “tariflávio”, e jogou o Brasil em uma nova ameaça comercial: a imposição de tarifas de 25% sobre diversos produtos brasileiros. O anúncio do possível novo tarifaço veio poucos dias após a visita do senador Flávio Bolsonaro (PL) a Donald Trump, na Casa Branca. Flávio tem tentado de tudo para criar uma cortina de fumaça e afastar a crise que se instalou em sua pré-candidatura depois que foram reveladas relações dele com o banqueiro Daniel Vorcaro.
Em meio a isso, aumentaram as hostilidades já conhecidas do governo dos Estados Unidos contra o sistema de pagamento brasileiro Pix, mais um ataque à soberania do país. O presidente Lula tem reagido com altivez e racionalidade e afirmou estar “esperando um telefonema” de Trump para tentar negociar, mais uma vez, a suspensão das tarifas.
O tema da soberania e dos rumos da política externa é o tema deste episódio de O Estrangeiro, podcast de política internacional do Brasil de Fato, que recebeu o analista de geopolítica Marco Fernandes e Jorge Romano Schutze, coordenador da pós-graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC) e integrante do Observatório da Política Externa e Inserção Internacional do Brasil.
Marco Fernandes reforça que a neutralidade não pode ser uma opção para Lula nesse momento, que deve aproveitar e se colocar como um grande líder da América Latina.
“O Brasil precisa, antes de saber se vai ter que escolher um lado ou outro. O Brasil precisa reforçar o seu lado. Eu acho que hoje nós estamos muito enfraquecidos, tanto pelo contexto político latino-americano, que a gente vê uma guinada à direita, por isso, que eu acho que a tática brasileira, a estratégia brasileira do Lula, começou no Lula 1 ainda e foi até a Dilma, que foi um projeto que o Brasil encampou de integração da América Latina e que o Brasil começou a financiar projetos de infraestrutura na América Latina via BNDES [Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social].”
Fernandes apontou que a iniciativa semelhante foi usada na China. “Vamos lembrar, a gente se acostumou muito a falar das novas rotas da seda. É um projeto que já tem 13 anos, que é um grande sucesso, mobilizou um trilhão de dólares, promoveu algumas pequenas revoluções em infraestrutura em países do Sul Global. E como é que a China fez isso? A China tinha financiamento de bancos estatais e as suas construtoras nacionais implementando, operando, construindo as infraestruturas ao redor do mundo. Ora, quem inventou essa forma não foi a China, foi o Brasil. Isso foi feito pelo presidente Lula, pelo governo brasileiro, a partir 2007.”
Ele lembrou da resistência ao projeto. “O BNDES financiava esses projetos e as construtoras de brasileiras, Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS, faziam os projetos. E não é à toa, gente, que a Lava Jato, um dos grandes alvos da Lava Jato foram essas empresas, e isso foi encomendadíssimo por Washington. O Brasil se tornou o grande financiador de infraestrutura na América, e isso foi intolerável para Washington”, aponta.
Sobre os ataques ao Pix terem como justificativa uma possível ameaça ao dólar, Jorge Romano Schutze discorda.
“Eles [estadunidenses] sempre têm uma preocupação com o sistema financeiro dos Estados Unidos, cartão de crédito, que também é muito estranho, porque, na verdade, todos os países têm um sistema como o Pix. Não é uma especificidade do Brasil. Um dos argumentos que é utilizado, e não sei se realmente nesse caso tem um lobby tão forte dos cartões de crédito, que são estadunidenses, ou dos bancos, sobre esse assunto.”
Confira o episódio completo abaixo:
Para ouvir e assistir
O podcast O Estrangeiro vai ao ar semanalmente às quartas-feiras às 15h, disponível nos canais do Brasil de Fato.













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