Por Bárbara França�
Belo Horizonte perdeu população entre 2010 e 2022. No mesmo período, a Região Metropolitana cresceu. A população se redistribuiu pelo território. Moradia, trabalho, estudo e serviços já não cabem nos limites de um único município. A vida cotidiana é metropolitana, mas as decisões ainda são fragmentadas. Cada prefeitura governa uma parte, mas nenhuma governa o conjunto.�
Nas eleições de 2026, uma pergunta precisa acompanhar o eleitor: seu candidato sabe pensar a metrópole?�
Essa fragmentação produz um dilema recorrente. Todos os dias, as cidades recebem pessoas que chegam para trabalhar, estudar, buscar atendimento de saúde ou utilizar outros serviços. As demandas atravessam fronteiras, mas recursos, competências e responsabilidades permanecem divididos. Como responder localmente a necessidades produzidas em escala regional? Cada município administra uma parte do território, enquanto muitos desafios pertencem à metrópole inteira.�
Esse desencontro aparece na vida cotidiana. Está nas horas gastas entre a casa e o trabalho, tempo retirado do descanso, do lazer, do estudo, do cuidado e da convivência familiar. Está também na busca por atendimento de saúde em outro município e na distância entre a moradia e os locais onde se concentram empregos e serviços. Aparece ainda na falta de saneamento e nas enchentes que se repetem a cada período de chuvas. Rios, córregos e bacias não obedecem aos limites municipais. A ocupação do solo ou uma obra realizada em determinado ponto pode produzir efeitos em outros.�
Diante da emergência climática, planejar isoladamente se torna ainda mais insuficiente. As pessoas e os problemas atravessam fronteiras todos os dias. As políticas públicas precisam fazer o mesmo.�
Arranjo metropolitano
É para enfrentar esse desencontro que existe o arranjo metropolitano. Municípios e governo estadual precisam definir prioridades e responsabilidades comuns, esclarecendo quem planeja, financia, executa e fiscaliza cada ação. Essa coordenação evita desperdícios e direciona os investimentos para as áreas mais necessárias, reduzindo desigualdades e invertendo prioridades.�
O Sistema Único de Saúde (SUS) ajuda a compreender essa lógica. Cada ente possui atribuições próprias, mas serviços, recursos e fluxos de atendimento precisam ser organizados conjuntamente. Um hospital localizado em determinado município pode atender moradores de toda a região. Sem pactuação, alguns serviços ficam sobrecarregados, enquanto investimentos podem ser repetidos em certos lugares e insuficientes em outros.�
Coordenar não significa retirar a autonomia das prefeituras. Significa usar o dinheiro público com responsabilidade e responder conjuntamente a problemas que ultrapassam as fronteiras municipais.�
Esse desafio não é exclusivo das metrópoles brasileiras. Londres possui mecanismos mais consolidados de coordenação regional, mas continua enfrentando desigualdades territoriais, problemas habitacionais e disputas sobre investimentos. Nova York também expõe essas tensões. O pedágio urbano cobrado dos veículos que entram na área mais congestionada de Manhattan busca reduzir o trânsito e financiar o transporte coletivo. A medida provocou conflitos entre governos e debates sobre quem paga, quais territórios são afetados e onde os recursos serão aplicados.�
Não são modelos perfeitos a serem reproduzidos, mas experiências que mostram como decisões tomadas em uma parte da metrópole distribuem custos e benefícios por toda a região. Pensar metropolitanamente não elimina os conflitos, mas permite enfrentá-los de forma coordenada.�
O arranjo metropolitano também orienta o desenvolvimento regional. Empregos, moradias, equipamentos públicos e infraestrutura não se distribuem igualmente pelo território. Uma obra viária, uma nova centralidade ou um empreendimento habitacional pode valorizar determinadas áreas e ampliar a distância entre a população e os serviços essenciais. Por isso, não basta decidir quanto investir. É necessário definir onde, para quem e com quais efeitos. Priorizar os territórios historicamente menos atendidos ajuda a reduzir desigualdades e evita que as famílias assumam os custos de morar longe do trabalho, da escola, da saúde e do transporte.�
Eleições 2026
Nas eleições de 2026, é preciso observar como as candidaturas pretendem transformar essa visão regional em decisões concretas. O governo estadual ocupa posição central na coordenação metropolitana. A Assembleia Legislativa e o Congresso aprovam leis, fiscalizam os governos e participam da definição dos orçamentos. A União financia obras, programas e políticas com efeitos sobre todo o território.�
Não basta, portanto, mencionar a Região Metropolitana no programa eleitoral. As candidaturas precisam explicar como pretendem articular planejamento, financiamento, execução e fiscalização. Também precisam reconhecer essas políticas como investimentos necessários à qualidade de vida e ao desenvolvimento regional, e não simplesmente como gastos a serem evitados.�
A coordenação entre governos, porém, não basta. As decisões metropolitanas precisam ser públicas, transparentes e compreensíveis. A população deve participar da definição das prioridades e acompanhar sua execução. Para isso, precisa conhecer contratos, custos, tarifas e subsídios, saber quem decide e poder cobrar resultados. Participar não significa apenas ser ouvido em uma audiência pública, mas ter acesso às informações e influenciar as escolhas.�
Governar a metrópole exige cooperação institucional, controle público e compromisso democrático. Se a vida cotidiana já ultrapassa as fronteiras municipais, o planejamento também precisa ultrapassá-las. Seu candidato está preparado para isso?�
Bárbara Françaé doutora em Geografia e pesquisadora do Núcleo RMBH do Observatório das Metrópoles.�
—
Leia outros artigos sobre cidades e desenvolvimento urbano na coluna Observatório das Metrópoles no Brasil de Fato.
—
Este é um artigo de opinião, a visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.













Deixe um comentário