Região

Procissão ao Pai Bará transforma Mercado de Pelotas em território de fé e memória

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“Exú o Lodê
Exú Exú o Bará Lanã
Bará o Lodê
Exú Exú o Bará Lanã
Amodibau Exú
Bará
Lanã Exú
Bará
Exú Adague
Bará
Exú Agelú
Bará”

A saudação a Exú Bará, orixá dos caminhos, das aberturas e do movimento, acompanha a história de uma procissão que transformou o Mercado Central de Pelotas em território de fé, memória e presença pública das religiões de matriz africana. No sábado, 13 de junho, data em que o município celebra o Dia Municipal do Orixá Bará do Mercado, a caminhada volta a ocupar o calçadão e o entorno de um dos espaços mais simbólicos da cidade.

Mais do que uma atividade religiosa, a 11ª Procissão ao Pai Bará do Mercado Central afirma a ancestralidade negra na formação de Pelotas e reivindica o direito de existir sem medo diante do racismo religioso. Instituído pela Lei Municipal nº 7.025/2022, proposta pelo vereador Paulo Coitinho, o Dia Municipal do Orixá Bará é celebrado anualmente em 13 de junho. “No Brasil todo, o dia 13 é Dia de Santo Antônio, mas em Pelotas é Dia do Bará”, resume o babalorixá Juliano Silva da Silva, o Pai Juliano de Oxum, idealizador e coordenador da procissão.

A concentração ocorre às 10h30, no calçadão da rua Andrade Neves, esquina com a Voluntários da Pátria. Às 11h, a procissão sai em direção ao Mercado Central. Ao meio-dia, haverá roda e saudação aos orixás no cruzeiro central do mercado. A programação completa está no final da reportagem.

Quinze anos de presença no mercado

Pai Juliano conta que a relação com o Mercado Central começou antes da procissão. São, segundo ele, 15 anos de atividades religiosas e solidárias no espaço, de forma ininterrupta. A procissão, por sua vez, chega agora à 11ª edição.

A origem do cortejo remonta ao período posterior ao incêndio no mercado e à sensação, entre lideranças de terreiro, de que era preciso “reativar” a força simbólica e espiritual daquele território. Em 2015, um grupo se reuniu para organizar o primeiro Xirê do Bará, levando para a rua a presença do orixá associado aos caminhos, aos cruzeiros, ao comércio, ao movimento e à abertura de passagens.

Pai Juliano com o banner do projeto Bará do Mercado ao lado do assentamento do orixá | Crédito: Marcelo Ferreira

“Começou com um grupo de lideranças, provocada pelo fechamento das bancas. O mercado tinha incendiado, não estavam vendendo, as bancas estavam fechadas, e nós decidimos reativar essa energia do Bará, desse cruzeiro, dessa abertura para o mercado”, recorda Pai Juliano.

Na primeira edição, a procissão saiu com pãezinhos consagrados e uma imagem de Santo Antônio no andor. A escolha partia do sincretismo, usado historicamente por povos negros escravizados como estratégia de sobrevivência para manter tradições africanas sob repressão colonial e religiosa. Ao chegar ao mercado, o grupo tocou o sino central, que, segundo Pai Juliano, não soava havia anos. Depois, fez uma roda de louvação aos orixás.

Mas a mesma cena inaugural também revelou a violência que acompanharia a construção da tradição. Ao se ajoelharem diante de uma das entradas do mercado, lideranças ouviram manifestações de intolerância. “A primeira coisa que a gente se deparou foi com a forma escancarada do racismo religioso”, afirma o babalorixá. A partir dali, diz ele, a procissão passou a ser também uma disputa pelo direito de ocupar o espaço público.

“Estratégias políticas de povo de terreiro”

A permanência da procissão no Mercado Central, segundo Pai Juliano, só foi possível pela combinação entre resistência religiosa, articulação política e apoio de parte dos permissionários. “Se não fosse a resistência do povo de terreiro, dessa construção coletiva e também da força e da união dos permissionários, talvez a Procissão do Bará não existisse mais”, avalia.

Ele relata que houve tentativas de constrangimento e reclamações recorrentes contra elementos religiosos deixados no espaço, como pipoca, moedas e chaves. Para o babalorixá, esses argumentos eram, muitas vezes, formas indiretas de racismo religioso. “O racismo utiliza uma desculpa”, diz.

Foi nesse contexto que o movimento começou a buscar garantias mais duradouras. Primeiro, veio a demarcação simbólica do Bará no mercado. Depois, a instalação de redutor de velocidade, a colocação de adesivo demarcatório com autorização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a criação de placa, cartão-postal, materiais educativos e, por fim, a lei municipal que instituiu o Dia do Orixá Bará do Mercado.

Para Pai Juliano, cada elemento cumpre uma função material e simbólica. A placa, o adesivo, o cartão-postal e o QR Code não são apenas peças visuais. São formas de afirmar que a presença de Bará no mercado integra a história da cidade.

Lançamento do Postal Turístico em referência ao Orixá Bará do Mercado Central de Pelotas, em 2025 | Crédito: Volmer Perez/Prefeitura de Pelotas

Reconhecimento ainda em disputa

O processo de ocupação do Mercado Central e de outros espaços públicos pelas religiões de matriz africana também é visto como um avanço pelo babalorixá Rodrigo Domingues, presidente do Conselho Municipal do Povo de Terreiro de Pelotas (CMPTERPEL). Para ele, iniciativas como o assentamento de Bará no mercado e a realização de procissões no centro da cidade representam uma mudança importante na relação entre poder público, sociedade e povos de terreiro.

Segundo Domingues, essas ações levam para o centro da vida urbana práticas que historicamente foram marginalizadas e invisibilizadas. “Esses movimentos podem ser compreendidos como parte de uma luta mais ampla por reconhecimento e respeito aos povos de terreiro, que têm papel fundamental na formação cultural brasileira”, afirma.

O babalorixá pondera, no entanto, que o reconhecimento institucional não elimina o preconceito. “A aceitação social nem sempre acompanha o reconhecimento institucional, e episódios de intolerância religiosa continuam sendo uma realidade”, observa. Para ele, a resistência à ocupação dos espaços e a deslegitimação das práticas de matriz africana como expressões religiosas legítimas mostram que o processo ainda está em construção.

Domingues defende que a valorização não se limite ao plano simbólico. “Há o desafio de garantir que esse reconhecimento não seja apenas simbólico, mas que se traduza em políticas públicas efetivas de proteção, valorização e combate à intolerância religiosa”, afirma. Para ele, a consolidação desse caminho exige continuidade, educação e compromisso do poder público e da sociedade.

Mercado Central de Pelotas | Crédito: Marcelo Ferreira

Para Pai Juliano, a procissão também devolve centralidade a uma memória negra ainda invisibilizada na narrativa oficial de Pelotas e da região sul do estado. “A gente começou a fomentar passeata, rádio, jornal, rede social. Começamos a produzir material para que fique para as próximas gerações”, diz.

Orixás no cotidiano

Uma das frentes do Projeto Bará é aproximar a tradição de matriz africana da educação. Para Pai Juliano, explicar os orixás pedagogicamente ajuda crianças, adolescentes e adultos a compreenderem que essas divindades não são figuras demonizadas, mas expressões de forças da natureza, ofícios, tecnologias, saberes e formas de organização da vida.

“O que é Bará para um chaveiro? É aquele que faz diversas chaves. Aquele para quem não existe porta fechada. Trancou a chave do carro? Quem resolve? O chaveiro. Então Bará abre caminhos”, exemplifica.

O babalorixá também relaciona Ogum à tecnologia e ao ferro, Oiá aos ventos e tempestades, Xangô à justiça e ao equilíbrio, Odé à caça e à agricultura, Ossanha às folhas e à medicina tradicional, Oxum às águas doces, Iemanjá às águas salgadas e Oxalá ao cosmo.

“Quando a gente traz isso pedagogicamente para a sala de aula, a gente explica que o ser mitológico, que é o orixá, está presente no dia a dia. Que orixá não é demônio”, afirma.

A oralidade ocupa lugar central nessa transmissão. Pai Juliano diz que os povos negros tiveram muitos elementos roubados ou reprimidos, mas mantiveram a palavra, a memória e a capacidade de narrar. “A única coisa que não nos roubaram, além do vestuário e da culinária, foi a oralidade. Essa que permite passar esse ensinamento, dar continuidade a essa tradição”, afirma.

Assentamento do Bará, orixá que abre caminhos, no centro do Mercado em Pelotas | Crédito: Marcelo Ferreira

Da intolerância ao racismo religioso

A produtora cultural Diná Lessa Bandeira, da Projetar Sonhos, passou a apoiar Pai Juliano em 2024. A aproximação se deu pela elaboração de projetos culturais e sociais, mas rapidamente ganhou uma dimensão política mais ampla. Para ela, a chamada intolerância religiosa deve ser nomeada com mais precisão: racismo religioso.

“Eu não pratico religião de matriz africana. Mas não preciso estar dentro de uma religião de matriz africana para respeitar e querer que todo mundo que pratica seja respeitado e faça isso onde quiser”, afirma Bandeira.

A partir dessa parceria, foi criado o projeto Caminhos da Fé – Enfrentamento e Combate à Intolerância Religiosa, aprovado em 2025. A iniciativa envolveu seminário, exposição sobre orixás, atividades com escolas e produção de materiais de memória sobre a Procissão ao Pai Bará. Depois de uma das atividades, Bandeira diz ter saído com uma conclusão: era preciso trocar o conceito.

“No final do seminário eu saí pensando: não é intolerância religiosa, é racismo religioso. Então este ano a gente muda o conceito para racismo religioso, porque infelizmente é isso”, afirma.

Lei 10.639 e disputa pela educação

A dimensão educativa do Projeto Bará também dialoga com a Lei 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas. Para Bandeira, a lei precisa ganhar concretude por meio de ações que aproximem estudantes da história negra, das religiões de matriz africana e dos territórios de memória.

“Isso tem que passar pela Lei 10.639, tem que passar pelo ensino nas escolas. Tem que ampliar as possibilidades para os jovens entenderem que podem exercer a religião que quiserem e praticar o culto da forma que quiserem”, defende.

Na exposição realizada em 2025, o projeto reuniu materiais sobre os orixás, a história da procissão e trabalhos produzidos por estudantes de escolas da região. Segundo Bandeira, a experiência mostrou a força pedagógica e cultural da iniciativa, mas também a necessidade de mais recursos para professores e alunos.

“Os alunos trouxeram um material lindo, tudo feito de forma muito simples. Pinturas maravilhosas de orixás em papel pardo, papelão”, relata.

A produtora defende que Pelotas reconheça esse potencial também como patrimônio e roteiro cultural. “Tudo isso trabalha com desenvolvimento, isso gera renda. O sincretismo religioso deveria ser tratado como a Bahia trata. Então por que não aqui em Pelotas?”, questiona.

QR Code turístico e patrimônio

Uma das novidades da edição deste ano será o lançamento do QR Code turístico do adesivo demarcatório da tradição de matriz africana e afrodiaspórica em referência ao Orixá Bará do Mercado Central. A ação é realizada em parceria entre a Secretaria Municipal de Turismo de Pelotas e o Ilê Axé Reino de Oxum Epandá e Xapanã Jubeteì.

A proposta é fazer com que moradores, visitantes e estudantes tenham acesso a informações sobre o significado do símbolo no mercado, o lugar de Bará na tradição de matriz africana e a relação da demarcação com a história negra da cidade. Para Pai Juliano, a iniciativa integra um esforço mais amplo de valorização patrimonial e construção de um roteiro turístico de matriz africana em Pelotas.

“Uma pessoa leiga não é obrigada a saber. Então tem que estar explicadinho pedagogicamente, para que as crianças possam entender e contar da sua forma o que é esse adesivo no meio do mercado”, explica.

Caminhos institucionais

A consolidação da procissão também passou pela disputa por reconhecimento no campo institucional. Parte desse processo chegou à Câmara Municipal por meio de projetos, emendas e articulações voltadas às religiões de matriz africana. O Dia Municipal do Orixá Bará em Pelotas, instituído pela Lei Municipal nº 7.025/2022, foi proposto pelo vereador Paulo Coitinho.

Assessor do vereador, Márcio Santos da Silva afirma que o mandato tem apoiado a realização da procissão e outras pautas ligadas às manifestações populares e às religiões de matriz africana no município. Segundo ele, a presença do cortejo no centro da cidade ajuda a ampliar a visibilidade de uma tradição que ainda enfrenta preconceitos.

“Esse movimento criado em torno do Bará foi mais um marco. Existe muito preconceito”, afirma Santos.

Placa demarcatória do Bará, no Mercado Central | Crédito: Marcelo Ferreira

Samba, terreiro e cidade negra

A programação deste ano termina com o Terreirão do Samba, das 16h30 às 19h, no Largo Edmar Fetter, em homenagem ao Dia Municipal do Orixá Bará do Mercado Central. A atividade terá participação do grupo Axé em Todos Cantos e convidados.

Para Santos, que nasceu em Jaguarão, vive há 21 anos em Pelotas e trabalha com samba há quase quatro décadas, a ligação entre samba, religiosidade e cultura negra é parte da identidade da cidade. Ele afirma que Pelotas tem uma cena forte, ainda pouco reconhecida fora da metade sul do estado.

“Pelotas, por essa cultura de cidade negra, através dos escravizados que entraram por aqui, desenvolveu esse movimento fantástico. A gente precisa ver e presenciar o que é o samba de Pelotas, que não deve nada para lugar nenhum”, afirma.

Santos também relaciona a trajetória no samba à devoção a São Jorge/Ogum. Ele conta que criou atividades como o Samba para São Jorge e eventos de rua em homenagem a Ogum Guerreiro. “O samba foi muito oprimido. A gente vê outros estilos na TV com produções faraônicas, como o sertanejo. O samba não é assim. Mas a luta é grande”, diz.

Serviço

11ª Procissão ao Pai Bará do Mercado Central de Pelotas

Quando: 13 de junho, sábado

10h30 – Concentração da 11ª Procissão ao Pai Bará do Mercado Central de Pelotas, no calçadão da rua Andrade Neves, esquina com a rua Voluntários da Pátria

11h – Saída da procissão pelo calçadão, com destino ao Mercado Central de Pelotas

12h – Roda e saudação aos orixás no cruzeiro central do Mercado Central de Pelotas

12h45 – Falas de autoridades presentes

13h15 – Lançamento do QR Code turístico do adesivo demarcatório da tradição de matriz africana e afrodiaspórica em referência ao Orixá Bará do Mercado Central, em parceria entre a Secretaria Municipal de Turismo de Pelotas e o Ilê Axé Reino de Oxum Epandá e Xapanã Jubeteì

13h30 – Apresentação cultural

14h – Roda de conversa sobre enfrentamento ao racismo religioso, no Pátio 1 do Mercado Central de Pelotas

16h30 às 19h – Terreirão do Samba, no Largo Edmar Fetter, em homenagem ao Dia Municipal do Orixá Bará do Mercado Central de Pelotas, com o grupo Axé em Todos Cantos e convidados.





Com Informações: Brasil de Fato

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