O som do esmeril e da betoneira é o som de Caracas, que pouco a pouco vai retomando a vida, após o duplo terremoto que sacudiu o país no dia 24 de junho. Na capital venezuelana, dezenas de edifícios sofreram danos estruturais, sobretudo nas áreas nobres da cidade. E pelo menos dez deles vieram abaixo.�
Cruzando a montanha que separa a capital venezuelana do mar do Caribe, a paisagem é de devastação. La Guaira foi a região mais atingida e, um mês após o sismo, ainda há muitos escombros para serem retirados. Os trabalhos de resgate continuam, sobretudo para localizar as pessoas que seguem desaparecidas.�
A cidade histórica e turística, de gente alegre e trabalhadora, desapareceu em questão de segundos. Já para os sobreviventes, há toda uma vida para reconstruir.
Adriana Solís está com a família em um abrigo, nas proximidades de Caracas, coordenado pelo Ministério das Comunas. Agora em segurança, ela lembra com assombro da experiência de viver um terremoto daquela magnitude.�
“No momento do duplo terremoto, eu estava em casa fazendo comida, atendendo meus filhos e pensava que o que estávamos vivendo era o que tinha acontecido em 3 de janeiro, outra vez o bombardeio e essas coisas. A impressão era porque os edifícios balançavam para os lados”, relata a moradora de La Guaira.
“Minutos antes, eu tinha mandado meu filho aos edifícios da frente para buscar água. E esses edifícios desabaram completamente. Deus deu a ele um dia, uma segunda oportunidade de estar aqui”, desabafa.
Efrain Muñoz também viveu momentos de terror. Ele conta que estava em casa com sua filha e netos, e que todos puderam sair de casa, graças à ajuda dos vizinhos. Para ele, é preciso seguir adiante. Por isso resolveu dar aulas de boxe para as crianças que estão no abrigo.�
“Eu tento ajudar as crianças. Comecei com meu neto, que treinava comigo lá. Comecei com ele sozinho aqui na quadra e foram se juntando crianças. E agora tenho bastante crianças que estão começando a praticar o boxe”, diz o instrutor de luta esportiva.�
“Espero que todos os que estamos aqui consigamos uma moradia digna e continuemos ajudando as crianças na escola. Não é somente investir no esporte, mas que o esporte ande de mãos dadas com os estudos e também crie disciplina, responsabilidade e educação, para que no futuro sejam homens do amanhã”, completa, emocionado.
Depois da tempestade, agora Maria Alejandra espera que a calmaria signifique ter um novo teto para chamar de seu. “O que eu mais desejo é meu lar, minha casa, onde eu possa chegar. E que meus filhos tenham um lar outra vez”, disse a sobrevivente.
O duplo terremoto que atingiu a região centro-norte da Venezuela no dia 24 de junho deixou quase 18 mil desabrigados. Até o momento, o número de mortos supera os 5 mil. O governo entregou na última semana as primeiras 200 novas moradias aos desabrigados e promete entregar outras 4 mil até dezembro.
Para o ministro das Comunas, Ángel Prado, a magnitude sem precedentes dessa tragédia obriga o Estado e o povo organizado a se unir em torno da recuperação das áreas afetadas, sem perder de vista o projeto popular de desenvolvimento do país.
“Vamos acompanhar o governo nacional, vamos defender a revolução bolivariana, que é o legado do comandante Hugo Chávez, e não vamos nos render. Vamos superar juntos esta situação terrível que nos tocou viver este ano, sobretudo em 2026, quando dois eventos muito negativos sacudiram nosso país. Primeiro o bombardeio contra a Venezuela, o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira combatente Cilia Flores. E agora estes terríveis terremotos que acabaram com milhares de vidas”, afirmou o ministro ao Brasil de Fato.�
“O movimento popular na Venezuela está muito ativo e a gente afetada está valorizando muito que comuneiros de todo o país venham oferecer esse abraço e essa mão amiga. São nossos princípios e isso não vai mudar”, acrescenta o ministro.
Na linha de garantir a integridade das famílias, o governo venezuelano anunciou, nesta quinta-feira, o início do Cadastro de Moradias Únicas, nos acampamentos temporários de Caracas, capital do país, onde estão abrigadas centenas de pessoas desalojadas pelos terremotos.
O programa será estendido ao estado de Miranda a partir deste sábado (25). A assistência será fornecida em fases: começará nos acampamentos e, em seguida, abrangerá as famílias realocadas para outras partes do país ou que estejam hospedadas com amigos.













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