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O jornalismo independente salvou a democracia brasileira

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Luiz Inácio Lula da Silva venceu as eleições em 2026, derrotando o representante da extrema direita brasileira, Flávio Bolsonaro. A vitória de Lula pode ser creditada a vários fatores, mas quero chamar a atenção para um deles: o jornalismo. Sou jornalista e não acredito na imparcialidade da mídia corporativa. Por estudar o funcionamento da mídia no Brasil, sei muito bem como ela funciona e, geralmente, não é defendendo a democracia do país, mas os seus próprios interesses econômicos, políticos e religiosos.

Vários episódios na história do Brasil evidenciam que a mídia empresarial brasileira tem lado e que seu posicionamento custou caro ao povo brasileiro. Então, não me venham falar em neutralidade ou isenção, porque isso não existe. Um dos episódios registrados na história do Brasil, que ilustram a parcialidade da mídia corporativa, ocorreu durante a prisão dos sequestradores do empresário Abilio Diniz, em 1989. Eles foram obrigados pela polícia a vestir a camisa com o símbolo do PT em um período em que aconteciam as eleições para presidente e Lula concorria com Fernando Collor de Mello, candidato da “grande mídia”.�

O episódio, criado para ligar os sequestradores ao PT, causou sérios prejuízos à candidatura de Lula. Ele perdeu as eleições e ainda enfrentou um debate editado pela Rede Globo, que beneficiou Collor de Mello, ajudando-o a eleger-se presidente do Brasil.

Os policiais de São Paulo reeditaram essa farsa, em 2026, obrigando adolescentes a vestirem camisas com adesivos do PT, apreendidos supostamente por uso de entorpecentes. Não deu certo. A CNN tentou emplacar, poucos dias do segundo turno, uma entrevista com a lobista Roberta Luchsinger contra um dos filhos de Lula, Fábio Luís, alegando que ele mantinha relações corruptas e tráfico de influência no governo federal.

Na entrevista, não foram apresentadas provas. A revista Veja publicou uma “reportagem” com supostos áudios do banqueiro Daniel Vorcaro, preso por envolvimento em fraudes no Banco Master, dizendo que ele também havia dado dinheiro para o filme sobre a vida de Lula, dirigido pelo cineasta Oliver Stone, em 2024. A reportagem da Veja, publicada em 9 de outubro, foi rapidamente desmentida pela Polícia Federal.

Mas, meu intuito em escrever este artigo é louvar a importância do jornalismo, e como mídias como a revista piauí, os canais de vídeo, O Três News e ICL notícias e a Agência Pública, considerados independentes, produziram reportagens e análises sobre o que estava acontecendo no Brasil e o que estava em jogo nas eleições deste ano: o fim da democracia brasileira com a chegada ao poder da extrema direita, tendo à frente o líder das milícias no país.

No programa O Três News, o jornalista Leandro Demori detalhou o plano econômico da equipe da extrema direita brasileira, algo que não vi na mídia corporativa, como emissoras Globo e SBT, por exemplo. Demori mostrou como as ideias da coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, Daniella Marques, iriam impactar diretamente no povo pobre do Brasil.

Um dos projetos do governo da extrema direita era acabar com o programa Bolsa Família, com o discurso de interrompê-lo após dois anos do mandato deles. Em tweets em seu perfil, publicados em 2021, Flávio já tinha se referido ao Bolsa Família de maneira pejorativa, chamando-o de “Bolsa-Farelo”, desqualificando o programa que ajudou milhares de famílias pobres brasileiras. A prisão de um aliado argentino da família Bolsonaro, Fernando Cerimedo, por tentativa de feminicídio, também não foi notícia nos meios da mídia corporativa. Mais uma vez, coube ao programa O Três News explicar quem é Cerimedo e a sua relação com a família Bolsonaro.

A revista piauí, publicou a reportagem “Uma tarde no lago”, em que detalha, com base em investigação jornalística, uma festa onde o então senador Flávio Bolsonaro estava reunido com empresários interessados em vender vacinas ao governo de Jair Bolsonaro, pai de Flávio. “A reunião” aconteceu com bebida, garotas de programa e negociatas, enquanto mais de mil pessoas morriam durante a pandemia da Covid-19 no Brasil. Nesse ano, seu pai, Jair Bolsonaro era presidente e assumia sua postura negacionista contra as vacinas, negando o direito à vida aos brasileiros e brasileiras. Outra reportagem da piauí, publicada em 8 de outubro, logo após o primeiro turno das eleições, com o título “Made in Rio das Pedras”, mostrava a relação de Flávio Bolsonaro com as milícias cariocas. Rio das Pedras é uma região do Rio de Janeiro marcada pela forte presença de grupos milicianos no estado.

O ICL Notícias fez análises sobre as eleições e as reportagens que informavam sobre o período eleitoral, dos veículos tradicionais ou da mídia independente. E, nesse caso, quero destacar a atuação da jornalista Heloísa Vilella que dava o nome aos bois, também demonstrando os riscos que o Brasil corria se a extrema direita chegasse ao poder. A mídia corporativa brasileira não nomeia como extrema direita a família Bolsonaro e os seus aliados. Às vezes, na TV paga, Globo News, um ou outro comentarista, usava esse termo, mas na TV aberta, em jornais como o Nacional e o Hoje, isso não acontecia. Tão pouco explicavam a relação entre a atuação da família Bolsonaro junto ao governo de Donald Trump contra a soberania nacional.

A Agência Pública é outra mídia independente que fez um trabalho primoroso e importante sobre as eleições. As editoras Natalia Viana e Marina Amaral na newsletter da Pública faziam análises precisas e objetivas sobre a atuação da mídia brasileira nas eleições de 2026, demonstrando por A mais B, que o jornalismo produzido pela mídia corporativa não espelhava a realidade.

Analisando a manchete do UOL e da Folha de São Paulo, que equiparava erroneamente duas pautas: a aprovação do fim da escala 6×1 e a redução da maioridade penal, a editora da Pública Marina Amaral escreveu: “O jornalismo tem que guiar pelo interesse público e isso inclui reconhecer as vitórias da sociedade e denunciar os riscos que determinadas propostas implicam para a democracia e os direitos constitucionais dos cidadãos, como a redução da maioridade penal, assunto grave demais para ser tratado como um “revide eleitoral”. Marina acrescentou: “Ver as propostas de duas mudanças constitucionais de grande impacto social colocadas lado a lado apenas como bandeiras de candidatos que se contrapõem, soou, para mim, como nova demonstração da distância entre a imprensa noticiosa e a sociedade brasileira.”

Não podemos esquecer Sumaúma e a atuação incansável de Eliane Brum na defesa da Amazônia e dos povos indígenas. Eliane e Sumaúma ocuparam um papel essencial durante o processo eleitoral, denunciando o plano nefasto da extrema direita para destruir a floresta e seus povos, com o objetivo de atender os interesses norte-americanos. Em um vídeo publicado em seu perfil em uma plataforma digital, no dia 16 de outubro de 2026, Eliane Brum afirmou que a eleição de Flávio Bolsonaro implicaria em três grandes consequências, não só para o Brasil, mas para a humanidade: a primeira, a dominação da América do Sul pela extrema direita; a segunda, a grande probabilidade do Brasil deixar de ser uma democracia; e a terceira, considerada mais grave por Eliane, é o fim da Amazônia, “com a abertura total a exploração de recursos, o que levará a floresta, hoje já bastante degradada, ao ponto de não retorno.”

Quero destacar ainda neste artigo, a entrevista da professora e jornalista, Nataly Queiroz, sobre a cobertura da mídia nas eleições 2026. Na entrevista, concedida à TVU Recife, Nataly Queiroz chama a atenção para a normalidade que a mídia brasileira tratou essa eleição, na qual a democracia brasileira estava em risco. “Como se nós estivéssemos em uma eleição convencional, uma eleição em que valores democráticos, que a própria Constituição não estivesse em jogo. Essa performance de normalidade das instituições e do próprio cenário político é algo que pode parecer para o eleitor, para quem assiste, para quem lê esses veículos, que estamos nas condições normais de temperatura e pressão, quando a gente sabe que não estava”, afirma Nataly. A entrevista completa pode ser conferida neste link.

As mídias independentes salvaram o jornalismo brasileiro! Que elas sejam criadas e cada vez mais divulgadas, fazendo jornalismo comprometido com a ética e com a democracia, produzindo informação em prol do interesse público. Quem puder, assine o Brasil de Fato, revista piauí, ICL, O Três News e Agência Pública ou outra mídia independente da sua preferência.

*Mabel Dias é jornalista, mestra em Comunicação pela UFPB, doutoranda em Comunicação pela UFPE, associada ao Coletivo Intervozes, observadora credenciada no Observatório Paraibano de Jornalismo e conselheira do Conselho Nacional dos Direitos Humanos. Autora do livro A Desinformação e a Violação aos Direitos Humanos das Mulheres: um estudo de caso do Alerta Nacional (editora Arribaçã).

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.





Com Informações: Brasil de Fato

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