Desde o encerramento da apuração do primeiro turno das eleições, no último domingo (4), metade do Brasil que não quer o retorno do bolsonarismo na presidência procura entender o que está acontecendo. O resultado obrigou uma mudança dos rumos da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e as previsões do segundo turno variam entre a esperança de virar o jogo e o entendimento do retrocesso que um novo governo bolsonarista vai representar.
Ao Conversa Bem Viver, o escritor Milton Hatoum tem uma visão crítica sobre o cenário e, mais que isso, de um certo modo de um futuro desesperançoso. “De acordo com o que ele [Flávio Bolsonaro] tem falado ele será muito pior, muito mais cruel que o pai”, afirma.
“A classe média ficará mais pobre, assim como vem acontecendo na Argentina que é o modelo que será adotado pela possível futura ministra da Fazenda do Flávio. A classe média vai ficar mais pobre e o pobre mais pobre ainda. Isso não é fake news, está sendo dito pela economista que Flavio vai indicar ao ministério caso ganhe”, aponta.
Ao alertar para o perigo de retrocessos democráticos, o escritor recupera sua memória dos impactos da ditadura militar e enfatiza que a privação da liberdade deixa marcas. “Porque eu vivi, a minha juventude e a da minha geração viveu durante mais de 20 anos sob a ditadura. E não é fácil, é horrível”. Para ele, qualquer tentativa de enfraquecer o Estado de direito ou tensionar as instituições compromete gravemente a estabilidade social e o desenvolvimento do país. “O investidor estrangeiro não está interessado em investir num país conflagrado, num país com tensões políticas fortes, num país em que as instituições são questionadas. O investimento estrangeiro no Brasil aumentou durante o governo Lula exponencialmente. As pessoas querem uma tranquilidade política e social”, pondera.
Como amazonense, Milton Hatoum aborda com profunda indignação a tragédia enfrentada pelo estado durante a pandemia de Covid-19 sob Bolsonaro, quando houve colapso do sistema sanitário e o abandono das populações do interior, agravados pela falta de investimentos públicos em infraestrutura hospitalar básica. “Você sabe quantas UTIs havia no interior do Amazonas durante a pandemia? No interior do Amazonas? Nenhuma UTI. Quantas pessoas morreram sufocadas com falta de ar no meu estado? Amigos que morreram. A gente não pode esquecer disso, gente. Mais de 14 mil amazonenses morreram”, enfatiza.
O escritor faz um apelo para a sociedade manter viva a memória histórica como forma de resistência e preservação da vida. Ele defende que a proteção social, o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) e a manutenção das instituições são pilares inegociáveis para evitar novas tragédias e assegurar a estabilidade social. “Vou só dar um exemplo: a Farmácia Popular, que não atende apenas aos pobres, à população mais humilde, mas atende também à classe média. Ele [Flávio] vai mexer no SUS, no BPC, ou seja, na ajuda para os idosos e para as pessoas com deficiência. Vai mexer na Minha Casa, Minha Vida e, provavelmente, vai diminuir o ritmo dessas políticas públicas ou até cortá-las.
Para Milton Hatoum, exercer a consciência crítica e o voto é a única via para impedir o avanço de agendas que ignoram as necessidades reais da população e desvalorizam o patrimônio humano e ambiental da Amazônia. “Nossa muito modesta colaboração é alertar as pessoas, é conversar com as pessoas, é convocar as pessoas a sair de casa e votar, aos indecisos e votar. a quem votou nos outros candidatos que perderam, a repensar seu voto e dar, vamos dizer, o voto à democracia. Ninguém quer uma sociedade tensa, ninguém quer, enfim, o Supremo Tribunal Federal tem vários defeitos. Isso o presidente Lula já falou, tem falado o tempo todo. Mas não é o caso de sair, de acabar com as instituições”, defende.
A sintonia da Rádio Brasil de Fato é 98,9 FM na Grande São Paulo.
Assim como os demais programas da Rádio Brasil de Fato, você pode ter acesso a esse conteúdo com antecedência para reproduzir gratuitamente na sua rádio. Acesse este formulário e faça sua inscrição.
São dezenas de rádios que fazem parte desta corrente!













Deixe um comentário