A Rússia vê o papel dos EUA como mediador nas negociações com a Ucrânia com cada vez mais desconfiança. E as discussões entre Vladimir Putin e Donald Trump, em agosto do ano passado, em Anchorage, Alasca, voltaram ao centro do debate, enquanto a guerra vive uma fase de escalada.
A Ucrânia lançou um ataque com mísseis “Flamingo” contra a fábrica Titan-Barrikady na cidade russa de Volgogrado na madrugada deste sábado (27). De acordo com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, o complexo atacado produz sistemas de artilharia e “elementos de lançadores de mísseis”. As autoridades de Volgogrado informaram que uma pessoa morreu e outras 11 foram hospitalizadas devido ao ataque.
O Ministério da Defesa da Rússia, por sua vez, informou que, no total, foram abatidos 124 drones ucranianos sobre regiões russas e o Mar Negro durante a madrugada deste sábado.
Do outro lado do conflito, na confrontação dos exércitos na linha de frente em Donbass, esta semana foi registrado um avanço significativo das tropas russas, que conseguiram, pela primeira vez nos últimos meses, realizar uma ruptura da defesa ucraniana em direção à região metropolitana das cidades de Kramatorsk e Slovyansk por três frentes simultaneamente.
Intriga sobre negociações no Alasca
Paralelamente ao teatro de guerra, um assunto que dominou as tratativas diplomáticas envolvendo a Rússia e os EUA nesta semana foi a controvérsia sobre o que foi discutido na cúpula entre Vladimir Putin e Donald Trump, em Anchorage, no Alasca, em agosto de 2025.
O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, apontou que os desdobramentos desse encontro no Alasca estão entre os principais pontos de discórdia no diálogo sobre a resolução do conflito. A fala do chanceler aconteceu durante sua participação no Fórum Internacional “Primakov”, em Moscou, na última quarta-feira (24), evento que discute as principais diretrizes da política externa russa.
“Em agosto de 2025, os líderes da Rússia e dos Estados Unidos chegaram a uma série de entendimentos sobre soluções políticas para a crise ucraniana. Mantemos nosso compromisso com esses entendimentos. Eles foram, em grande parte, iniciados pelos americanos, e o presidente russo, Vladimir Putin, concordou com as propostas que nos foram apresentadas, principalmente após analisá-las cuidadosamente. A decisão não está em nossas mãos hoje, embora estejam cada vez mais tentando nos passar a responsabilidade”, afirmou.
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, por sua vez, afirmou que, na ocasião, “uma oferta foi feita”, mas que ela nunca se materializou em um acordo para alcançar o fim da guerra da Ucrânia. Ao comentar a declaração, o chanceler russo, Serguei Lavrov, pediu esclarecimentos sobre a declaração de Rubio para entender se os EUA estão dispostos a desempenhar um papel construtivo na resolução do conflito.
Na ocasião da cúpula em Anchorage, apesar de os detalhes das negociações não terem sido revelados oficialmente, foi relatado que foram alcançados entendimentos que “poderiam servir como ponto de partida para um acordo”, conforme afirmou Lavrov, ainda em dezembro.
Já o presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmou que, na reunião de Anchorage, o lado russo confirmou que concordava com as propostas estadunidenses e estava pronto para “demonstrar a flexibilidade proposta”. O Kremlin passou a se referir repetidamente ao “espírito de Anchorage” ao discutir o processo de paz na Ucrânia. O porta-voz da presidência russa, Dmitry Peskov, esclareceu que isso se refere a um “conjunto de entendimentos” alcançados no Alasca que poderiam levar a um avanço na situação em torno da Ucrânia.
A volta do tema da reunião entre Putin e Trump no Alasca está diretamente relacionada com os recentes desdobramentos da cúpula do G7. De acordo com fontes diplomáticas ligadas às negociações em Anchorage, citadas pela agência Axios, durante a cúpula do G7, realizada na França entre 15 e 17 de junho, o presidente dos EUA, Donald Trump, teria indicado que poderia reconsiderar os entendimentos alcançados na reunião em Anchorage.
Segundo a publicação, o presidente estadunidense expressou dúvidas sobre Vladimir Putin e falou da necessidade de aumentar a pressão sobre a Rússia. No entanto, de acordo com as fontes, outros participantes da cúpula não têm certeza se Washington realmente avançará com medidas práticas.
A controvérsia sobre o que foi discutido no Alasca, ainda em 2025, reflete a posição de Moscou sobre as condições para reativar as negociações da guerra da Ucrânia. Durante a última semana, o presidente russo Vladimir Putin disse que Moscou se baseia em algumas “bases” para retomar o diálogo com a Ucrânia: o resultado das negociações em Anchorage com Donald Trump, os acordos de Istambul de 2022 e a “situação do terreno”, no campo de batalha em Donbass.
Ao mesmo tempo, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, na última sexta-feira (26), durante um briefing à imprensa, colocou em xeque a posição dos EUA como um possível mediador neutro nos esforços de negociar a paz.
“Vocês acabaram de ouvir a declaração do Sr. Trump de que, após o fim do conflito com o Irã, ele pretende renovar seus esforços para resolver a situação na Ucrânia. Vocês sabem que a Rússia valoriza muito esses esforços de buscar uma solução para a questão ucraniana. Mas é claro que fazer tais esforços estando envolvido em uma guerra de um lado é impossível. É claro que sabemos que a equipe de negociação dos EUA entende isso perfeitamente, está ciente disso, e é com base nisso que estamos trabalhando”, afirmou,
O impasse nas negociações acontece em um momento de escalada da guerra, na qual tanto a Rússiaquanto a Ucrânia se veem em uma posição de vantagem na qual não vale a pena fazer concessões. Por um lado, a Ucrânia amplia os ataques de longa distância, conseguindo atingir a capital Moscou com drones, e, por outro, o exército russo continua avançando na linha de frente, nos territórios da região de Donbass.
Em entrevista ao Brasil de Fato, o analista do International Crisis Group para a Rússia, Oleg Ignatov, avalia que o cenário atual da guerra reflete o impasse nas negociações, pois “ambos os lados podem dizer que têm trunfos agora, e isso significa que ambos os lados podem deixar as coisas como estão, porque acreditam que ainda têm trunfos”.
“Rússia e Ucrânia acreditam que podem fortalecer ainda mais seus trunfos ou adquirir novos. Então, nesse sentido, apesar de toda a retórica sobre a paz, eu realmente não vejo nenhum desejo particular de paz aqui e agora, não. No médio prazo, sim. Mas tudo está como antes. Ambos os lados acreditam que podem fortalecer ainda mais suas posições continuando a guerra. Nesse sentido, é por isso que a guerra continua. Eles pensam que, ao intensificá-la, talvez algo aconteça na Rússia, ou talvez os ucranianos sofram com o frio do inverno e a situação piore”, argumenta.
Nesse sentido, a falta de perspectivas para uma resolução da guerra reflete a falta de avanços concretos do que foi discutido entre Moscou e Washington no Alasca. Oleg Ignatov destaca que, na ocasião, tudo indica que a Rússia concordou com a posição dos EUA, de que “a questão territorial poderia ser resolvida sob a condição de a Rússia receber todo o Donbass”.
“Os EUA não conseguiram convencer a Ucrânia e a Europa com essa posição. É isso que a Rússia diz, e os americanos não falam nada sobre isso. Os americanos não prometeram nada. Provavelmente disseram algo como: ‘Vamos conversar com nossos aliados’, mas a questão é: quem propôs isso? E se eles próprios não conseguiram cumprir a proposta, então a Rússia pensa: ‘Bem, vocês propuseram uma posição, não conseguiram cumpri-la e agora estão nos pressionando a fazer mais concessões’. Em outras palavras, a Rússia percebe isso como uma tentativa de pressionar Moscou a obter novos compromissos”, completa.
A intriga diplomática dos últimos dias traça um novo cenário após um período em que se acreditou que os EUA poderiam exercer uma posição mais favorável aos interesses de Moscou na mediação com a Ucrânia. Agora o Kremlin levanta a suspeita de que este tempo, desde o encontro no Alasca, em agosto de 2025, possa ter sido usado para rearmar a Ucrânia.
Depois de quase um ano do “espírito do Alasca” ser usado como fonte de otimismo para os interesses russos, o que Moscou enxerga é a volta das ameaças de pressão sobre a Rússia, inclusive com novas sanções. Foi o que destacou o Ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, durante o Fórum Internacional “Primakov”, na última quarta-feira (24), ressaltando o pacote de iniciativas da Casa Branca que vem sustentando a desconfiança do Kremlin.
“Depois do Alasca, em setembro de 2025, me encontrei com o Secretário de Estado americano, Miguel Rubio, em Nova York, e o lembrei de nossas expectativas. Ele disse que estavam trabalhando nisso e que havia ‘dificuldades’. Essa era a proposta deles. Enquanto isso, pouco depois de Nova York, as sanções de Biden foram prorrogadas mais uma vez, e as sanções de Trump foram impostas à Lukoil e à Rosneft”, lembrou o chanceler.
“O Pentágono agora criou novos programas especificamente para a Ucrânia. Uma espécie de campo de testes está sendo preparado nos EUA para desenvolver métodos de guerra baseados na experiência de operações de combate na Ucrânia. E, claro, não há restrições, além das físicas, à venda de armas para a Europa, para que eles possam continuar a ‘inflar’ a Ucrânia”, afirmou o chanceler.











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