No último dia 29 de maio, a Blaze, uma das maiores plataformas de aposta do país, anunciou que cortará o Vale Refeição (VR) dos trabalhadores. No comunicado enviado às equipes, a empresa, que tem sede em Curaçao, na região do Caribe, mas que mantém um escritório em São Paulo, justificou a medida alegando que o “ambiente político e eleitoral” do país “traz preocupação e apreensão”.
“Estamos vivendo um momento desafiador para os operadores de apostas regulados no Brasil”, afirma a Blaze no documento enviado aos trabalhadores. “O crescimento descontrolado de plataformas ilegais e sem mecanismos adequados de controle vem impactando diretamente as empresas que atuam dentro da regulamentação, gerando empregos, arrecadação e segurança para consumidores e colaboradores”, explica a empresa, que continua argumentando pelo corte no benefício.
“Os recentes aumentos tributários, somados à ampliação de custos operacionais e regulatórios, vêm comprometendo parte do planejamento originalmente estruturado. A insegurança jurídica gerada por manifestações de agentes públicos e candidatos, com promessas de aumento de imposto e até bloqueios ao setor, potencializada pelo atual ambiente político e eleitoral, também traz preocupação e apreensão”, finaliza.
A Blaze mantém quase 200 trabalhadores contratados em todo o território nacional. Cerca de 150 tiveram o benefício retirado. Todos trabalhavam em modelo remoto e recebiam o VR. Com a mudança, apenas os funcionários que trabalham presencialmente passaram a receber.
Além do corte do benefício, a empresa solicitou que os que vivem em São Paulo abandonassem o modelo remoto e passassem a trabalhar na sede da empresa. Cerca de 30 pessoas não concordaram e teriam sido demitidas, de acordo com trabalhadores escutados pela reportagem.
“Houve coação e, por mais que busquem qualquer justificativa, foram desligados por não concordar com o autoritarismo da empresa, que queria nos forçar a trabalhar presencial”, conta um trabalhador que conversou com a reportagem do Brasil de Fato em condição de anonimato.
Para o advogado trabalhista Douglas Matos, “qualquer alteração no contrato de trabalho, em especial aquelas atreladas à alimentação, deve ser analisada com bastante sensibilidade, especialmente porque o empregador deve estar atento a duas situações essenciais: análise se a alteração no contrato pode ser vista como lesiva (o art. 468 da CLT veda qualquer mudança nesse sentido) e se a medida poderá resultar na judicialização em massa, sendo essa última de custos muitas vezes incalculáveis para o empregador e de demora para reparação ao trabalhador.”
O especialista lembra que “a negociação coletiva, por meio de acordo coletivo de trabalho direto entre sindicato e empregador, pode ser uma ferramenta útil a fim de garantir a segurança de todos os lados”.
Outro lado
Em nota enviada à reportagem, a Blaze disse que a informação de que trabalhadores foram demitidos por se recusarem a trabalhar presencialmente “não procede”.
Na nota, a empresa explicou o motivo dos cortes no VR dos trabalhadores. “Ressaltamos que a Foggo (Blaze) adota políticas internas rigorosas, pautadas pela responsabilidade e transparência. Toda e qualquer medida relativa à gestão de pessoas e à política de benefícios é fundamentada em critérios estritamente técnicos, operacionais e legais, sempre em estrita observância ao marco regulatório vigente e à garantia dos direitos dos trabalhadores”, afirma a empresa.
Os trabalhadores afirmam que não foram escutados e que não houve espaço para que negociações fossem formuladas, com a finalidade de buscar um acordo. A Blaze nega. “Reafirmamos nosso compromisso com a integridade, o bem-estar e a segurança jurídica de nossos colaboradores, mantendo-nos abertos ao diálogo fundamentado dentro dos parâmetros legais. Logo, em caso de esclarecimentos adicionais ou novos, continuamos à disposição para apoiar e trazer uma visão realista”, afirmou a empresa.
Celebridades
A Blaze é uma das principais plataformas de apostas do Brasil. A empresa já foi acusada de não pagar apostas aos vencedores do “jogo do aviãozinho”, desenvolvido por ela. Em agosto de 2023, representantes da marca chegaram a ser convocados para prestar depoimento na CPI das Pirâmides Financeiras, por conta do suposto calote em clientes.
Para garantir visibilidade, a Blaze trabalha com uma estrutura de marketing digital ancorada na imagem de subcelebridades com penetração nas redes sociais, como o cantor MC Daniel, as influenciadoras Virginia Fonseca e Juju Salimeni, além de Bianca Biancardi, esposa de Neymar.
O jogador é o principal nome patrocinado pela Blaze. Quando foi convocado para a Copa do Mundo, Neymar publicou uma publicidade da empresa antes mesmo de divulgar um vídeo celebrando a convocação com sua família.













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