A multidão de imigrantes chegando a nado à cidade de Ceuta, na Espanha, ao norte da África, gerou repercussão na União Europeia. Estima-se que cerca de 49 mil marroquinos entraram na cidade em 24 horas, sendo que pelo menos 25 mil já retornaram à sua origem.
Recentemente o governo da Espanha aprovou uma lei para regularização migratória. Países do bloco afirmaram que movimento coloca em risco a segurança de suas fronteiras. França e Itália estão entre os críticos da política do governo espanhol.
Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, Paulo Illes, diretor executivo do Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante, avalia que existe em curso uma crise humanitária que não pode ser desprezada. “Esses imigrantes estão numa situação de extrema violação de direitos. E aí é importante registrar que, nesse fluxo migratório, a maioria são marroquinos. Mas não apenas. São muitas pessoas que atravessam o deserto do Saara, pessoas que vêm dessa região mais ao oeste da África, África Ocidental, e mesmo também ali pela costa do Mar Senegal, até chegar ao Marrocos e esperar uma oportunidade para poder entrar na Espanha”, explica.
Outro ponto apresentado por Paulo Illes é a fragilidade das políticas migratórias na Espanha e no mundo. “Não dá para ligar esse fato a um único fator. É a junção de várias questões que possibilitou que esse fluxo acontecesse de uma forma imediata”, afirma.
“Eu acho que a primeira medida do governo espanhol e da Europa é tratar essas pessoas com dignidade, analisar caso a caso, como é que está dito nessa nova medida da Espanha”, comenta sobre a mudança na lei.
Illes pondera que grande parte das pessoas que estavam atravessando o canal para chegar a Ceuta não chegaram lá do nada, tornando a cidade uma espécie de entreposto, e que o episódio é reflexo da ausência de políticas para recepcionar essa população.
“Nós tivemos uma realidade muito parecida com essa no Brasil, embora numa escala bem menor, em 2014, quando os haitianos se concentraram lá na fronteira com o Acre e foram lá permanecendo durante mais de cinco anos. Chegou um certo momento em que uma cidade de pouco mais de 5 mil habitantes tinha lá mais de 20 mil imigrantes. O que aconteceu é que, de um dia para outro, chegaram mais de 3,7 mil imigrantes aqui na cidade de São Paulo e causaram todo um caos. Transportando essa realidade para Ceuta, que é um povoado que creio não ter mais de 15 mil pessoas, as pessoas estarem fazendo essa caminhada indica que não são pessoas necessariamente que saíram da fronteira e cruzaram de um dia para o outro. Muitas fizeram uma grande caminhada de um ano, dois anos, à espera ali de uma oportunidade para entrar no território europeu”, avalia.
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