Completam-se nesta terça-feira (6) 50 anos de um dos mais graves atentados terroristas aéreos da história. Em 6 de outubro de 1976, duas bombas colocadas a bordo do voo 455 da Cubana de Aviación explodiram poucos minutos depois que a aeronave decolou de Barbados. O avião ficou completamente destruído, e as 73 pessoas que estavam a bordo morreram.
Entre as vítimas estavam 57 cubanos, 11 guianenses — seis deles selecionados para estudar medicina em Cuba — e cinco cidadãos da República Popular Democrática da Coreia.
Cinquenta anos depois daquele dia fatídico, familiares e amigos das vítimas participaram, nesta terça-feira (6), da tradicional peregrinação até o Panteão das Forças Armadas Revolucionárias, no Cemitério de Colón, em Havana, para homenagear as vítimas do terrorismo.
“Nos reunimos com o coração enlutado e a memória acesa”, disse Yadelis Valencia, neta de um dos tripulantes, durante o ato, representando os familiares das vítimas e acompanhada por autoridades do governo cubano.
Valencia afirmou que o atentado foi “calculado e planejado por terroristas a serviço da CIA, agência de inteligência dos Estados Unidos, contra a Revolução Cubana”. E o classificou como um dos crimes mais horrendos da história.
Ela também lembrou que o atentado “faz parte dos milhares de atentados que, financiados pelo governo dos Estados Unidos, foram cometidos contra nosso país, deixando um saldo de mais de 3.400 vítimas”.
O Cemitério de Colón, onde tantas vezes o povo cubano viu seus filhos serem enterrados e chorou seus mortos, voltou a reunir familiares e amigos das vítimas. No local, Valencia afirmou que cada nome, cada rosto e cada história permanecem gravados na consciência nacional, como vítimas da guerra que a Revolução enfrenta desde seu nascimento.
“Cada nome, cada rosto, cada história que viajava naquele voo permanece gravado na consciência nacional como símbolo de sacrifício e resistência. Não foram apenas vítimas: são heróis que nos convocam a defender a vida, a justiça e a verdade”.
A idade média das vítimas pouco passava dos 30 anos. O capitão da aeronave havia sido escolhido, naquele mesmo ano, como Herói Nacional do Trabalho. Vários dos tripulantes haviam prestado diferentes serviços internacionalistas, enquanto os atletas tinham acabado de conquistar todas as medalhas de ouro nas competições regionais de esgrima, realizadas em Caracas, na Venezuela.
Eram, em definitivo, parte de uma geração que estava escrevendo a história da Revolução Cubana.
Um atentado planejado
Foi às 17h15, horário local, que o voo 455 decolou do Aeroporto Internacional Seawell, em Barbados. Menos de dez minutos depois, a primeira bomba explodiu. O capitão Wilfredo Pérez Pérez tentou retornar à pista para realizar um pouso de emergência, mas o fogo e a fumaça tornaram impossível controlar o avião. Para evitar que caísse sobre uma praia povoada, dirigiu a aeronave em direção ao mar do Caribe, onde acabou caindo a poucos quilômetros da costa.
A busca por verdade e justiça continua sendo uma reivindicação pendente. Em Cuba, cada 6 de outubro é lembrado como o Dia Nacional das Vítimas do Terrorismo de Estado.
O ataque foi realizado pela Coordenação de Organizações Revolucionárias Unidas (CORU), uma aliança clandestina de grupos paramilitares criada em junho de 1976, na República Dominicana, para coordenar ações armadas e ataques contra o governo da Revolução Cubana.
A organização havia sido criada pelos militantes da direita contrarrevolucionária de origem cubana Orlando Bosch e Luis Posada Carriles, que mantinham estreitas relações com os serviços de inteligência dos Estados Unidos.
Desde o início, Cuba denunciou as ações desses grupos. O próprio Fidel Castro afirmou, em 15 de outubro de 1976, durante o ato de despedida das vítimas na Praça da Revolução, que várias organizações contrarrevolucionárias sediadas nos Estados Unidos haviam se reunido meses antes, na Costa Rica, para criar a Coordenação de Organizações Revolucionárias Unidas (CORU).
Segundo ele, entre seus integrantes estavam pessoas que haviam trabalhado para a CIA e recebido treinamento dessa agência. “Esses grupos não apenas atuam livre e impunemente a partir do território dos Estados Unidos, como seus principais líderes, por meio da organização CORU, estão estreitamente vinculados às atividades da CIA contra Cuba”, afirmou.
As investigações posteriores determinariam que os autores materiais, responsáveis por montar e colocar as bombas no avião, foram os venezuelanos Hernán Ricardo e Freddy Lugo. Ambos trabalhavam na Investigaciones Comerciales e Industriales C.A. (ICICA), uma empresa de “segurança” que Posada Carriles havia criado em Caracas, para realizar suas operações.
Apenas alguns dias depois do atentado, Hernán Ricardo e Freddy Lugo foram capturados em Trinidad e Tobago. Ricardo seria quem confessaria a autoria intelectual de Orlando Bosch e Luis Posada Carriles. Ambos foram extraditados para a Venezuela para serem julgados pelos tribunais locais e, após um processo judicial nas esferas civil e militar, atravessado por todo tipo de pressão política para garantir sua impunidade, foram condenados, em 1986, a 20 anos de prisão por homicídio qualificado e terrorismo.
Em 14 de outubro de 1976, a polícia venezuelana (DISIP) realizou diligências nos escritórios e na residência de Posada Carriles. Nas buscas, foram encontrados mapas, planos de vigilância de sedes diplomáticas cubanas e cronogramas que o vinculavam à rede da CORU. Ele foi preso e levado para a prisão junto com Orlando Bosch, e ambos passaram anos em uma disputa entre as jurisdições civil e militar sem receber uma sentença definitiva.
Em 1985, Posada Carriles conseguiu escapar da prisão com a ajuda de setores da ultradireita radicados em Miami. Acredita-se que a fuga tenha contado com o apoio da Fundação Nacional Cubano-Americana e de empresários como Jorge Mas Canosa, que teria ajudado a subornar os guardas da prisão.
Uma vez foragido, Posada Carriles voltou a participar de diferentes atividades contra organizações de esquerda na América Central. E voltou a participar de atentados contra Cuba durante a década de 1990, crimes que ele próprio confessaria posteriormente em entrevistas. Posada Carriles morreu impune em Miami, em 2018, aos 90 anos.
Por sua vez, Orlando Bosch permaneceu preso na Venezuela até ser absolvido, em 1987. Ao ser libertado, viajou para Miami em 1988, onde foi detido pelas autoridades federais por violações de sua liberdade condicional relacionadas a um atentado que havia cometido no final da década de 1960. Finalmente, alguns anos depois, em 1990, o presidente George H. W. Bush concedeu-lhe um indulto. Bosch viveu em liberdade nos Estados Unidos até sua morte por causas naturais, em 27 de abril de 2011, aos 84 anos.













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