É a primeira vez na história que uma Copa do Mundo é sediada por três países ao mesmo tempo: Estados Unidos, Canadá e México. A Copa do Mundo de 2030 terá jogos em seis países. Além das sedes principais, que são Espanha, Marrocos e Portugal, o torneio também terá três partidas iniciais disputadas na América do Sul (Uruguai, Argentina e Paraguai) para celebrar o centenário do evento. Soma-se a isso a ampliação, já na atual edição, de 32 para 48 seleções participantes.
Essa lógica vem da perspectiva de ampliar a visão de que é um evento de inclusão global, de integração de povos e uma grande festa dessa diversidade de culturas. Esse discurso é a base de várias iniciativas oficiais, como a Fifa Fan Fest nas cidades-sede, feito exatamente para que torcedores de diferentes nacionalidades celebrem juntos.
Mas, na verdade, essa ideia de uma competição verdadeiramente global trouxe uma lógica pior do que você imagina, porque o real objetivo nunca foi inclusão, mas o mercado e a exploração.
A proposta de três países-sede foi só uma embalagem bonita para vender o produto dessa forma. Isso fica evidente quando se observa a tabela dos 104 jogos da Copa: 26 jogos são divididos igualmente entre os coadjuvantes, sendo 13 no Canadá e 13 no México, enquanto 78 partidas acontecem nos EUA (ou seja, 75% dos jogos). Está evidente que há um centro determinado do projeto econômico dessa edição.
Toda a captação de receita e a exploração comercial desta Copa se inspiram diretamente no modelo de gestão do futebol americano, do beisebol e do basquete. O exemplo mais evidente disso são as chamadas ‘pausas para hidratação’, que viraram obrigatórias no torneio. Sob a justificativa técnica de cuidar dos atletas, a Fifa criou um intervalo para vender espaços publicitários no meio de cada tempo, prática idêntica à dos esportes norte-americanos. Somado a isso, temos uma política de preços abusiva nos ingressos, que transformou esta na Copa do Mundo mais cara da história e tem causado bastante repercussão.
No documento oficial da candidatura para sediar a Copa, a promessa dos EUA era de que o ingresso mais caro para a final custasse 1.550 dólares (cerca de R$ 8.500). Só que, quando o primeiro lote foi liberado, a realidade era outra: a opção mais barata custava US$ 2 mil, enquanto a mais cara ultrapassava os US$ 10 mil.
Na prática, dias antes da competição, os preços saltaram para níveis proibitivos: o ingresso mais barato para a final chegou a custar R$ 29 mil e o mais caro superou a marca dos R$ 55 mil.
Vale a pena comparar com os valores das copas anteriores. No Catar, o ticket mais caro da final era de R$ 9 mil e o mais barato R$ 3,4 mil. Na Copa da Rússia, os preços da decisão estavam entre R$ 2 mil e R$ 5 mil. Quando o Brasil sediou, os ingressos para Alemanha 1×0 Argentina no Maracanã estavam entre R$ 1,8 mil e 4 mil reais.
Em quatro anos, entre o Catar e os EUA, os preços foram multiplicados entre seis e oito vezes. Isso está acontecendo porque nesta Copa estabeleceram o “preço dinâmico”, de modo que os ingressos deixaram de ter valor fixo, passando a variar a depender da demanda pelo jogo. As procuradorias-gerais de Nova York, Nova Jersey e Califórnia estão questionando o porquê desse preço e se ele teria sido aumentado artificialmente.
Como se não bastasse o valor alto no site oficial, os ingressos têm sido comprados, em sua maior parte, não por torcedores que desejam ir aos estádios, mas por pessoas que buscam revender visando o lucro: o popular cambismo. Acha que a Fifa iria coibir o cambismo? Não. Percebendo uma “oportunidade e negócio”, a Fifa lançou um market place para a revenda de ingressos, argumentando que o serviço serviria para ‘proteger os torcedores’ contra a compra de ingressos falsos.
No entanto, utilizar esse serviço envolve taxas pesadas para ambos os lados. A Fifa cobra 15% do vendedor e outros 15% do comprador. Para entender como isso funciona na prática, imagine um ingresso anunciado por US$ 1.000: para quem vende, o valor que chega ao bolso é de apenas US$ 850, já que a Fifa retém US$ 150; mas para quem compra, o custo final é de US$ 1.150, devido à taxa de 15% sobre o valor anunciado. A Fifa ganha 30% do valor de cada transação.
E mais: a entidade lucra repetidamente com um produto que ela já havia vendido. Como o mesmo ingresso pode ser revendido várias vezes no market place, o preço final para o torcedor acaba ficando muito acima do valor original. Vale ressaltar que os US$ 1.000 são apenas um exemplo conservador. Imagine essa mesma conta aplicada a ingressos vendidos por valores muito mais altos e a Fifa retendo essa porcentagem em cada uma das transações sucessivas. É um ciclo de lucro que se multiplica às custas do torcedor que deseja assistir ao jogo.
Essa política tem gerado polêmica. Até o bilionário Donald Trump chegou a dizer que não pagaria esses valores. Em sua defesa, o presidente da Fifa afirma que a organização está apenas “seguindo a lógica do setor de entretenimento do país” e que as leis dos EUA permitem que esse mercado de revenda funcione sem restrições.
A ideia de um futebol verdadeiramente global pode ter um significado bem pior do que você imagina. Chegamos a um nível de mercantilização que o mercado do futebol ainda não tinha visto. Perpetuando um modelo que remete à lógica colonial, para que o lucro flua sempre para os mesmos centros de poder.
Ao fim, o verniz de integração global esconde uma barreira seletiva: esta Copa não é apenas a mais cara da história, como também é a que melhor evidencia o projeto de transformar o futebol em um produto de luxo.
Quando o acesso é limitado por preços proibitivos, a Fifa não está unindo povos, mas escolhendo quem tem o capital necessário para celebrar. Esta é, acima de tudo, a Copa da exploração.













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