Na manhã de 21 de maio, homens armados atacaram trabalhadores rurais que se preparavam para iniciar a jornada em uma plantação de palma africana na Finca Paso Aguán, na comunidade de Rigores, município de Trujillo, departamento de Colón, no norte de Honduras. Um mês depois, familiares das vítimas seguem sem respostas sobre quem ordenou o massacre.
O Ministério Público hondurenho identificou oficialmente 19 vítimas, entre elas adolescentes de 14 e 16 anos e três mulheres. Organizações camponesas e parte da imprensa local contabilizam 20 mortos. Segundo informações divulgadas pelas autoridades e pela imprensa hondurenha, os trabalhadores foram emboscados por volta das 6h30 quando chegavam para trabalhar na propriedade.
Até agora, duas pessoas foram colocadas em prisão preventiva sob suspeita de participação no crime. Os autores intelectuais, porém, seguem sem identificação pública.
“Até hoje segue a impunidade”, afirma o camponês Yoni Rivas, porta-voz da Plataforma Agrária Regional Campesina do Aguán (Parca). Segundo ele, as famílias continuam exigindo uma investigação capaz de esclarecer quem planejou o ataque. “As famílias têm direito de conhecer a verdade sobre esse fato violento”, diz.
O massacre ocorreu em uma das regiões mais conflituosas da questão agrária hondurenha. O Vale do Aguán, onde fica Rigores, acumula décadas de disputas por terra, denúncias de violência contra comunidades rurais e sucessivos conflitos envolvendo empresas agroindustriais, movimentos camponeses e forças de segurança.
Uma região marcada pela disputa por terra
Segundo Rivas, a origem do conflito remonta aos programas de reforma agrária implementados pelo Estado hondurenho nos anos 1970. “As terras foram destinadas à reforma agrária e depois houve um despejo massivo”, afirma.
O dirigente sustenta que grandes grupos econômicos se apossaram de áreas anteriormente distribuídas a famílias camponesas e que a região passou a conviver com perseguições, criminalização e violência recorrente.
A leitura é compartilhada por Wendy Cruz, da direção da Via Campesina em Honduras. Segundo ela, o país jamais realizou uma reforma agrária integral e a concentração fundiária se aprofundou após a aprovação da Lei de Modernização Agrícola, em 1992.
“Os grupos de poder da agroindústria usaram muitas artimanhas para voltar a tirar essa terra dos camponeses”, afirma.
Cruz relaciona os conflitos territoriais à expansão da palma africana, de outros monocultivos, da mineração e de projetos turísticos que pressionam comunidades rurais, indígenas e afro-indígenas.
O histórico de violência na região ajuda a explicar o contexto do massacre. Uma denúncia enviada à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) aponta pelo menos 112 mortes violentas relacionadas ao conflito agrário do Aguán até 2017. A Human Rights Watch documentou 92 mortes vinculadas às disputas por terra apenas entre 2009 e 2012.
Remilitarização após o ataque
Horas depois do massacre, o governo hondurenho ativou um Comando de Crise envolvendo Polícia Nacional, Forças Armadas, Ministério Público e unidades de inteligência. A operação ampliou a presença de forças de segurança no departamento de Colón e em outras áreas do norte do país.
As autoridades sustentam que a medida busca desarticular estruturas criminosas que atuam na região. Movimentos camponeses, por outro lado, afirmam que a resposta estatal reforçou a militarização de um território historicamente marcado por conflitos agrários.
Para Rivas, a presença das forças de segurança não foi acompanhada de avanços na investigação. “Os fatos violentos seguem ocorrendo. Continuam assassinando pessoas na região”, afirma.
Direita no governo
O massacre ocorreu quase quatro meses após a posse de Nasry Tito Asfura, do Partido Nacional, que assumiu a Presidência de Honduras em janeiro deste ano após derrotar por margem apertada os adversários nas eleições de 2025.
A chegada de Asfura ao poder marcou o retorno do partido ao poder após quatro anos da gestão de Xiomara Castro, do partido Libertad y Refundación (Libre), do mesmo partido do ex-presidente Manuel Zelaya, identificada com um projeto de esquerda e de fortalecimento do papel do Estado.
O novo presidente assumiu com o pacote neoliberal padrão da extrema direita latino-americana, defendendo redução da máquina pública, estímulo ao investimento privado e reforço das políticas de segurança.
Para Wendy Cruz, as medidas adotadas desde janeiro têm aprofundado a vulnerabilidade das comunidades rurais. “A política do governo é uma linha de fogo contra o campesinato”, afirma.
Segundo a ativista, houve redução de recursos destinados a instituições voltadas à agricultura familiar e à reforma agrária, ao mesmo tempo em que avançaram iniciativas voltadas à proteção dos interesses empresariais no campo.
Lei agroindustrial
A principal delas é a Lei para o Fortalecimento e Proteção do Setor Agroindustrial de Honduras.
O projeto começou a tramitar no Congresso Nacional quatro dias após o massacre de Rigores e foi aprovado em junho. Entre outros pontos, a proposta declara a agroindústria atividade de interesse nacional, protege terras destinadas ao setor e amplia mecanismos de intervenção estatal diante de ocupações e protestos ligados a conflitos fundiários.
Movimentos populares afirmam que a legislação dificulta processos de reforma agrária e fortalece despejos de comunidades rurais.
Em novo movimento contra a lei, a Via Campesina Honduras apresentou em 16 de junho uma ação de habeas corpus preventivo coletivo perante a Sala Constitucional da Suprema Corte de Justiça. A organização busca impedir medidas que considera ilegais de criminalização, despejos, detenções e repressão contra comunidades indígenas e camponesas.
Para Rivas, a combinação entre impunidade, militarização e endurecimento da legislação agrária aprofunda a insegurança das famílias do Aguán. “Há uma estratégia de quem hoje está no poder para levar adiante os despejos contra camponeses e camponesas e concentrar cada vez mais a terra nas mãos de grandes agroindustriais”, resume Rivas.













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