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Um exército em alerta permanente para as próximas batalhas

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O que fizemos no Brasil foi histórico. Passada a euforia da vitória do presidente Lula, com uma virada nunca antes vista, contra o candidato da extrema direita, Flávio Bolsonaro, escrevo essas linhas menos com o objetivo de analisar e mais com o intuito de relatar como operamos essa façanha contra o império, a partir da articulação entre comunicação e mobilização. Também escrevo para animar nosso Exército (sim, o do Lula) a se manter em alerta permanente para as próximas batalhas.

Há muitos anos se multiplicam as análises de que a esquerda havia perdido a batalha das redes sociais. Apesar das iniciativas de todo o campo democrático nas plataformas digitais, no jornalismo e no marketing político, a extrema direita cultivava, há algum tempo, uma comunidade engajada no WhatsApp e no Telegram, contas com milhões de seguidores e alcance extraordinário. Tudo isso impulsionado com ajuda da Meta, que mudou suas políticas para dar mais visibilidade a este tipo de conteúdo, enquanto nós, da esquerda, persistimos fazendo essa disputa num terreno desigual e favorável ao nosso inimigo.

Diante do desafio de construir a virada em 21 dias, depois de um primeiro turno com sabor de derrota, é impossível não mencionar o papel do canal de WhatsApp “Exército do Lula”, organizado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG). A urgência de ganhar a narrativa nas redes e denunciar os riscos da eleição de mais um Bolsonaro fez com que o canal, que no primeiro turno tinha cerca de 50 mil pessoas, chegasse a 11 milhões de contas conectadas.

A “terapia do choque” funcionou. Acordar com um “PESSOAL, URGENTE!”, um tema diário e uma tarefa de engajamento, deu sentido à atuação de muitos que queriam ajudar a campanha, mas não sabiam como fazer isso. O Exército fez com que 11 milhões de pessoas se sentissem parte de algo coletivo e com propósito, em vez de ter uma atuação dispersa e individualizada. O senso de coletividade foi essencial para que muitos esperançassem e acreditassem que a nossa vitória era possível. Destaco esse elemento aqui porque ele precisa ser cultivado. Estar em coletivo é determinante para ter fé naquilo que construímos, ainda que pareça impossível.

Algumas das ações mais importantes do grupo extrapolaram o espaço digital. Em um dia, a missão era postar na sua própria rede social uma foto com a camisa com as cores do Brasil fazendo o L. Algo supostamente bobo, mas que pautou o Instagram durante um dia inteiro, sinalizou para a sociedade que o verde e amarelo não pertence ao bolsonarismo vira-lata, nos colocando ativamente na disputa dos símbolos nacionais, e também animou muitas pessoas que até então estavam caladas a se posicionarem politicamente com essa iniciativa.

A outra foi o panelaço durante a entrevista de Flávio Bolsonaro à TV Globo. A partir da convocação no canal do WhatsApp, todos os estados do Brasil registraram panelaços e, mais uma vez, o senso de coletividade animou e encheu de esperança aqueles que estavam em casa e que, a partir do barulho, perceberam que tinham muitos soldados e soldadas na sua vizinhança. Em tempos tão difíceis, saber que não se está sozinho é, para muitos, um alento no meio dessa batalha intensa que vivemos.

Não sabemos se de forma intencional ou espontânea, e muito menos se o “General” Janones, como foi apelidado pelo Exército, já conhecia o método, mas foi o “Calles, Redes, Medios, Paredes”, uma síntese da estratégia de comunicação política e mobilização militante criada na Venezuela, que inspirou a atuação dos movimentos populares no segundo turno. De forma simultânea, ocupamos as ruas, redes, meios e paredes, com um retroalimentando o outro para disputar a narrativa, e foi assim que vencemos.

As ruas já eram nossas, mas organizamos mobilizações históricas nos vários lugares do país onde a virada era necessária. A Avenida Paulista, a Praia de Copacabana, a Ponte Presidente Dutra que separa Pernambuco e Bahia no coração do Semiárido, o Largo do Carmo em São Luís e a Praça da Estação em BH viram atos com uma quantidade de pessoas nunca antes registrada. Fizemos as maiores mobilizações da história deste país.

Com a mobilização das ruas, pautamos as redes: viralizaram imagens de crianças com a Constituição na mão, quarteirões completos povoados com um mar vermelho de gente que há anos não saia de casa para um ato político, a juventude que fez o bolsonarismo tremer com atos dentro das universidades… Isso sem falar nas ações de panfletagem, nas esquetes de Teatro Invisível no transporte público e caminhadas dentro das periferias para abrir diálogo com a população. Tudo devidamente mobilizado dentro do WhatsApp e Instagram e que transbordava para as ruas.

Para falar do elemento redes, uso aqui uma frase muito conhecida de Lenin: “Há décadas em que nada acontece e há semanas em que décadas acontecem”. Na batalha das redes, avançamos em dias o que não progredimos em anos em relação ao uso das redes como ferramenta de mobilização. Entendemos que um conteúdo bem engajado chega a mais pessoas; que as nossas redes pessoais chegam a pessoas não alcançadas pela rede do nosso candidato e que precisam ser utilizadas para agitar temas e publicar conteúdos; que não se engaja em conteúdo da extrema direita nem que seja para criticar e, de forma organizada, conseguimos furar o cerco do algoritmo e da imprensa hegemônica para denunciar nas redes o caso Ana Clara, a relação de Flávio com as milícias, etc. Nós conseguimos pautar o debate público.

Além dos temas duros, soubemos utilizar os vídeos gerados por IA para traduzir questões complexas em situações do cotidiano e explodir (explode!) nas redes com memes do presidente Lula em situações engraçadas, cantando músicas de divas pop, atuando como técnico de futebol. Tudo isso ajudou a criar sentidos e destruir a imagem do “Lula vilão” pintado no imaginário do povo pelo bolsonarismo. Agora, tem o Lula fofinho, o Lula pop, o Lula meme que dialoga muito com a juventude cronicamente online.

O Exército venceu uma batalha duríssima. Não vencemos apenas Flávio Bolsonaro. Vencemos a Meta, que admitiu impulsionar o alcance de conteúdos da extrema direita. Vencemos o algoritmo, em uma campanha em que o alcance dentro das redes estava condicionado a quem tinha mais recursos para pagar por ele. Vencemos a censura, que derrubou inúmeras páginas e grupos de WhatsApp progressistas. Vencemos os bots, que inflam as métricas de conteúdo dos nossos inimigos, com a nossa atuação orgânica, bem direcionada e que surtiu efeito praticamente imediato, sendo decisiva para nosso sucesso.

Que a disputa nos meios de comunicação é injusta diante de um monopólio em que poucas famílias escolhem o que é dito ou não pela imprensa, nós já sabemos. Mas aqui destaco a atuação do jornalismo sério, ético e comprometido com a democracia e a liberdade de expressão. Em diversos locais, a virada de votos exigia uma atuação “de formiguinha”, com o trabalho do corpo a corpo sendo feito não com materiais de campanha, mas com uma leitura que levantasse fatos e estimulasse a reflexão crítica dos projetos em disputa, e o Brasil de Fato fez uma edição impressa especial com o tema das eleições. O tablóide foi uma ferramenta decisiva no trabalho nos bairros, estações de metrô, pontos de ônibus e onde mais ele foi distribuído de forma gratuita pelos militantes e voluntários que atenderam ao chamado do presidente Lula de ir para a rua e conversar com as pessoas.

Já nas paredes Brasil afora, a cada dia se multiplicavam os lambe-lambes (papéis com frases simples colados em muros, postes e onde mais for possível) com denúncias da trajetória política altamente questionável do candidato Flávio, do seu vice, que chegou a ser investigado por esturpo de vulnerável, do “tesouraço” anunciado pela sua equipe econômica, que congelaria a aposentadoria e acabaria com o Farmácia Popular. Tudo produzido, impresso e colado de forma sistemática em vias de grande circulação, onde, em muitos deles, um QR code levava o leitor para uma notícia que explicava melhor o que Flávio Bolsonaro e sua turma queriam para o Brasil.

Esse “caos organizado” operado com bravura por milhões de brasileiros e brasileiras que entenderam o que estava em jogo nesse segundo turno foi fundamental para nossa vitória. Que nunca mais o bolsonarismo ou mesmo nós duvidemos da capacidade da classe trabalhadora. Esse país é nosso, e dele não podemos abrir mão. Fizemos uma façanha inédita depois de tristes derrotas da esquerda nas eleições presidenciais em países vizinhos, que olhavam para nós com a expectativa de ver o tetra do Lula contra a extrema direita subordinada à Trump.

Agora, o mundo olha para nós com outros olhos. Que o nosso exemplo de derrota do fascismo inspire outros países a retomarem sua democracia e soberania. E que sigamos na batalha das ruas, redes, meios e paredes para derrotar em definitivo a extrema direita que se apoderou do poder legislativo no último pleito. A disputa será dura, mas temos nas trincheiras um exército potente, com capacidade de luta e que já mostrou que está disposto a lutar por esse país. Cabe a nós ajudar a organizá-lo.

*Vanessa Gonzaga é integrante da Coordenação Nacional do Movimento Brasil Popular.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.





Com Informações: Brasil de Fato

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