Em 28 de outubro de 2025, o Rio de Janeiro escreveu a página mais sangrenta da história de sua segurança pública. A denominada “Operação Contenção“, deflagrada nos Complexos da Penha e do Alemão, culminou na morte de 122 pessoas, transformando o território em um cenário de barbárie. Depois de um ano, uma pergunta ecoa: a quem serviu tanto derramamento de sangue? A resposta revela que o massacre não foi desenhado para desmantelar o crime organizado, mas sim para servir de palco e propaganda em um contexto político pré-eleitoral.
A prova cabal desse viés eleitoreiro está no destino dos gestores que planejaram e celebraram a carnificina. Secretários de Estado responsáveis pela ação apresentaram-se como candidatos e foram eleitos, se apresentando no horário eleitoral como responsáveis pela operação, capitalizando politicamente sobre a vida e o luto da população favelada.
Para interromper esse ciclo em que a violência estatal serve de trampolim eleitoral, é indispensável a responsabilização efetiva da cadeia de comando. Não se pode admitir que policiais da ponta continuem sendo utilizados como buchas de canhão, operadores de massacres eleitoreiros e escudos dos governantes e altos comandantes contra a Justiça brasileira.
Do ponto de vista da política de segurança, o dia seguinte ao massacre é ainda mais revelador. A violência armada não cessou; ao contrário, continuou com a mesma ou maior intensidade. O poder de influência da facção local não se reduziu, e os postos daqueles que foram mortos ou presos foram imediatamente ocupados por novos integrantes. Como cantam os MCs Júnior e Leonardo em Tá Tudo Errado, “morre polícia, morre vagabundo e no mesmo segundo outro vem ocupar o lugar daquele que um dia se foi e o pior é que depois geral deixa pra lá”. Em um estado com a maior taxa de desemprego jovem do Brasil, a existência de um mercado ilegal pujante somada à ausência de políticas públicas de educação, trabalho e renda cria uma armadilha perigosa para os jovens negros e periféricos do Rio de Janeiro, tratados pelo sistema como mera mão de obra descartável a serviço de quem lucra com o derramamento de sangue.
Seguindo a mesma lógica, longe de esvaziar os estoques das facções, a operação aqueceu também o mercado legal e ilegal de armas e munições, gerando lucros expressivos para a indústria bélica, da mesma forma que os valores pagos a título de corrupção e “arregos” saíram inflacionados, beneficiando diretamente quem lucra com a violência nas periferias. É gritante: os maiores beneficiários do crime violento no Rio de Janeiro não moram nas favelas.
O resultado prático é uma sensação de insegurança generalizada, comprovada por pesquisas de organizações e movimentos sociais de favela, como a Redes da Maré e o Instituto Papo Reto, que demonstram o rastro de trauma e terror psicológico deixado por essas ações na vida comunitária. Da mesma maneira, as pessoas que vivem em outros lugares também não se sentiram mais seguras, conforme demonstrou a pesquisa da Quaest nos dias seguintes ao massacre. Esse cenário aponta um quadro de produção da violência, e não da segurança dos direitos.
Diante desse diagnóstico, a manutenção das investigações no âmbito estadual revela-se uma farsa técnica e institucional. Há um vício de origem intransponível: as apurações locais são conduzidas pelas próprias instituições envolvidas na execução da operação. Registros oficiais apontam que o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro participou ativamente da deflagração e do monitoramento da ação em tempo real. Uma instituição não pode exercer o controle externo de forma independente e isenta sobre uma letalidade da qual foi coexecutora.
Além da evidente falta de imparcialidade, a estrutura estadual jamais incluirá no escopo das apurações os comandantes políticos da operação. Pelo contrário, apenas as pessoas presentes no território serão investigadas. As autoridades locais chegaram ao absurdo de instaurar inquéritos por “fraude processual” contra moradores e familiares que, movidos por humanidade e desespero, recolheram os corpos abandonados na Serra da Misericórdia, criminalizando quem tentou mitigar o horror do Estado.
A única resposta digna que apontaria para a ruptura com uma política criminal com derramamento de sangueé a imediata federalização do caso. Insistir em rituais jurídicos estaduais que não tocam no topo da cadeia de comando é perpetuar o massacre da população periférica. Cabe ao Procurador-Geral da República assumir sua responsabilidade, provando à comunidade internacional que o Brasil não tolera execuções sumárias. Esta é a única forma de garantir, de fato, um desfecho que honre a Constituição Federal, os tratados de direitos humanos e, principalmente, a dignidade do povo de favela.
*Lidiane Helena, Lorena Martins, Dejany Ferreira e Guilherme Pimentel compõem a Coordenação Técnica da RAAVE (Rede de Atenção a Pessoas Afetadas pela Violência de Estado).
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do�Brasil do Fato.













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