O sistema hídrico do rio São Francisco chega ao fim de março em situação mais confortável do que a observada nos últimos anos. Em Minas Gerais, o reservatório da Usina Hidrelétrica de Três Marias ultrapassou a marca de 100% do volume útil e operava com 100,64% na noite deste domingo, 29 de março, segundo dados atualizados da Cemig.
Já no submédio São Francisco, o reservatório de Sobradinho, na Bahia, alcançou a faixa de 87% do volume útil na última atualização da Eletrobras Chesf, consolidando uma recuperação importante para o período que antecede a estiagem.
A situação de Três Marias confirma a tendência de alta mostrada nos últimos dias. No comunicado divulgado pela Cemig na quinta-feira, 26 de março, a companhia informou que o reservatório havia atingido 100% do volume útil em processo de reenchimento gradual e controlado, ressaltando que essa condição é segura e compatível com o projeto da barragem.
Segundo a empresa, o nível máximo normal da usina corresponde à cota 572,50 metros, enquanto o limite máximo previsto em projeto, chamado de “máximo maximorum”, é de 573,40 metros, equivalente a 106,5% do volume útil. No painel atualizado da usina, às 23h de 29 de março, o nível aparecia em 572,59 metros, acima da cota de 100%, com afluência de 1.008,25 metros cúbicos por segundo e defluência de 652,04 metros cúbicos por segundo.
Os dados diários da própria usina mostram que o avanço foi contínuo ao longo de março. Em 24 de março, Três Marias fechou o dia com 99,4% do volume útil; em 25 de março, passou para 99,8%; no dia 26, atingiu 100,1%; em 27 de março, chegou a 100,2%; e em 28 de março, alcançou 100,4%.
No caso de Sobradinho, a recuperação também segue em ritmo consistente. Nesta sábado (28), a afluência era de 3.350 metros cúbicos por segundo (m³/s) e defluência próxima de 1,2 mil m³/s.
O quadro é relevante porque Três Marias e Sobradinho exercem papel central na regulação hídrica do São Francisco. A usina mineira é considerada pela Cemig o primeiro grande empreendimento hidráulico de múltiplas finalidades do país e tem funções que vão além da geração de energia, incluindo controle de cheias, irrigação e abastecimento de água. O reservatório tem volume de 19.459 hm³, barragem de 75 metros de altura e 2.700 metros de comprimento.
No comunicado sobre o reenchimento, a Cemig afirmou que, com base nas previsões meteorológicas da bacia do São Francisco, não havia previsão de abertura de comportas nos próximos dias. A companhia disse ainda que o armazenamento controlado ajuda a evitar vazões mais elevadas a jusante e traz benefícios para municípios do alto e médio curso do rio, além de reforçar a reserva hídrica para o período seco. Segundo a empresa, caso haja mudança nas previsões e se torne necessário algum vertimento, as prefeituras e os órgãos competentes serão informados oficialmente.
Os reflexos dessa operação ainda aparecem no monitoramento hidrológico do rio. Boletim de alerta emitido pelo Serviço Geológico do Brasil neste domingo, 29 de março, mostra que alguns trechos do médio São Francisco seguem acima das cotas de alerta ou de inundação, embora com tendência de redução gradual em parte das cidades.
Em Carinhanha, o nível era de 536 centímetros às 15h, acima da cota de inundação de 500 centímetros, com previsão de queda lenta para cerca de 530 centímetros na manhã do dia 30. Em Bom Jesus da Lapa, o rio estava em 703 centímetros, também acima da cota de inundação de 625 centímetros, com previsão de redução gradual depois de atingir cerca de 695 centímetros na noite de 30 de março. Em Pedras de Maria da Cruz, no norte de Minas, o nível chegou a 618 centímetros, acima da cota de inundação de 580 centímetros, também com tendência de queda.
Em outros pontos do rio, o cenário era menos crítico. O boletim do SGB registrou 579 centímetros em Barra, abaixo da cota de inundação de 610 centímetros, mas com tendência de subir muito lentamente para 583 centímetros na manhã de 30 de março. Ibotirama marcava 528 centímetros, abaixo da cota de alerta de 610 centímetros, enquanto Morpará tinha 626 centímetros, ainda abaixo da cota de alerta de 750 centímetros. São Francisco, em Minas Gerais, aparecia com 614 centímetros, abaixo da cota de alerta de 640 centímetros.
A combinação entre Três Marias acima de 100% e Sobradinho na faixa de 86% reforça uma mudança importante no comportamento recente da bacia. Depois de anos marcados por níveis mais baixos e maior preocupação com a segurança hídrica, os dois principais reservatórios do São Francisco entram na reta final de março com armazenamento elevado, o que tende a favorecer o abastecimento humano, a irrigação, a navegação, a dessedentação animal e a geração hidrelétrica nos meses secos.
Essa leitura é compatível com a avaliação da Cemig de que o reenchimento controlado de Três Marias ajuda a proteger áreas a jusante e a reservar água para a estiagem.
Ainda assim, o cenário não elimina a necessidade de acompanhamento nas cidades ribeirinhas onde o rio permanece alto. O boletim do SGB destaca que o monitoramento segue ativo justamente porque ainda há municípios com níveis acima das cotas de inundação ou próximos delas, especialmente no trecho baiano do médio São Francisco.













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