Pelo menos 13 professores da Escola Classe Café Sem Troco, localizada no Paranoá, Região Administrativa do Distrito Federal, denunciam viver há meses uma rotina marcada por perseguições, humilhações públicas e adoecimento psicológico. Os relatos, obtidos pelo Brasil de Fato DF, apontam para um ambiente de trabalho que, segundo os servidores, se deteriorou sob a gestão da diretora Sheyla Cristina Alves Passos, que está à frente da unidade desde 2017 e cumpre atualmente o terceiro mandato consecutivo. Ela é investigada em Processo Administrativo Disciplinar (PAD) conduzido pela Corregedoria da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (SEE-DF).
Localizada às margens da DF-130, no Núcleo Rural Café Sem Troco, a unidade atende cerca de 400 estudantes, sendo 85 da educação infantil, 10 da educação especial e 305 do ensino fundamental (1º ao 5º ano), distribuídos em 22 turmas, além de uma sala de educação integral.
Embora esteja à frente da unidade há quase dez anos, os professores afirmam que os episódios de assédio começaram ainda nos primeiros anos da gestão, mas eram percebidos como situações isoladas e só se intensificaram nos dois últimos anos, afetando um número maior de servidores e levando o grupo a identificar um padrão de comportamento e buscar apoio..
As denúncias começaram a ser formalizadas em outubro de 2025, quando professores decidiram registrar os episódios em ata e encaminhá-los à Coordenação Regional de Ensino. Posteriormente, o caso foi enviado à Corregedoria da Secretaria de Educação. Após um período de afastamento cautelar, a diretora tem retorno previsto para o próximo dia 27, o que, segundo os servidores, intensificou o clima de apreensão entre a equipe.
“Muitos professores levaram tempo para perceber. Alguns se aposentaram, outros preferiram pedir remanejamento por terem passado por situações parecidas. De uns dois anos para cá, isso se intensificou. As pessoas começaram a perceber que estavam adoecidas e foi aí que conseguimos nos unir para buscar defesa”, relatou uma professora.
As fontes ouvidas pela reportagem pediram para não serem identificadas por receio de represálias. Segundo os docentes, o medo permaneceu mesmo durante a investigação administrativa. Uma professora, que trabalha há cerca de dez anos na escola, afirma que os episódios deixaram de ser isolados e passaram a envolver praticamente todo o grupo de professores.
“Começaram a passar por esses vexames, essas questões desrespeitosas e vexatórias. Teve professor que saiu da escola porque não aguentou permanecer naquele ambiente”, denunciou.
Segundo os relatos, o desgaste emocional se intensificou nos últimos meses, especialmente após a informação de que a diretora poderá retornar ao cargo. “Tem muito professor em pânico só de pensar nisso. Tem professores que estão vomitando de ansiedade. Todos nós ficamos doentes psicologicamente. Não temos mais condições físicas e emocionais para convivência com ela”, relatou a docente.
Perseguições, constrangimentos e impactos
As denúncias descrevem um padrão de gestão que, segundo os professores, seria marcado por constrangimentos públicos, isolamento de servidores e perseguições contra quem discordava de decisões administrativas. Entre os relatos está o caso de uma professora com deficiência que, segundo colegas, passou a enfrentar episódios de humilhação durante o estágio probatório.
“Tem uma professora que é PCD e estava em estágio probatório. Ela começou a passar por situações vexatórias dentro do ambiente de trabalho. Ficou tão adoecida que chegava na escola chorando pelos corredores de tanto constrangimento que passou”, relatou a professora.
Os servidores afirmam que o ambiente de trabalho passou a provocar adoecimento coletivo. Alguns relatam fazer acompanhamento psicológico e psiquiátrico, além do uso de medicamentos para conseguir permanecer em atividade. “Nós estamos sofrendo muito, tomando remédio ansiolítico e procurando tratamentos psicológicos e psiquiátricos para poder dar conta. Não está fácil. A angústia é muito grande porque a gente não sabe o que vai acontecer quando ela voltar”, desabafou um professor.
Segundo o docente, antes de recorrer a outras instâncias, os profissionais buscaram resolver a situação pelos canais administrativos da própria Secretaria de Educação. “A gente evitou trazer um transtorno maior. Eu não procurei a delegacia porque acreditava que isso poderia ser resolvido administrativamente. Ela foi chamada ao diálogo, mas nunca quis conversar. Sempre manteve uma postura muito autoritária”, comentou.
Sindicato e secretaria
O Sindicato dos Professores do Distrito Federal (Sinpro-DF) confirmou ao Brasil de Fato DF que acompanha o caso desde as primeiras denúncias. Segundo a diretora do sindicato, Márcia Gilda, a organização acompanha o processo com cautela em respeito às garantias legais de todos os envolvidos, mas mantém assistência permanente aos profissionais da unidade.
“Nós temos duas diretoras do Sinpro acompanhando o desenrolar desse caso com toda discrição, porque a própria Justiça garante o direito à ampla defesa e ao contraditório. Mas posso dizer que temos um protocolo de combate à violência e ao assédio moral no sindicato”, explicou.
Além da assessoria jurídica, o sindicato afirma que disponibilizou atendimento voltado à saúde mental dos trabalhadores da escola. “Nós temos uma equipe de advogados que acompanha e presta atendimento à categoria quando precisa. Também temos a Clínica do Trabalho, que inclusive já esteve presente nessa escola, com psicólogo fazendo a escuta. Atuamos tanto do ponto de vista jurídico quanto da saúde mental, para tentar diminuir essas situações de assédio nas escolas, mas elas são bem comuns”, pontuou.
“É importante destacar que a atuação do sindicato não se dá contra um ou outro segmento da rede pública de ensino. O Sinpro atua em defesa de toda a categoria, buscando mediar conflitos, enfrentar situações de violência e assédio, e garantir condições dignas de trabalho para todas e todos os profissionais da educação”, ressaltou a professora e diretora do sindicato, Márcia Abreu, que acompanha o caso.
Procurada pelo Brasil de Fato DF, a Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal informou, por meio de nota, que “o caso segue em apuração, sob sigilo, na forma da Lei Complementar nº 840/2011, pela Corregedoria”.
A reportagem também procurou a diretora Sheyla Cristina Alves Passos para comentar as denúncias. A gestora não atendeu aos telefonemas e não respondeu aos questionamentos encaminhados. Após o contato, uma mãe de um estudante da unidade procurou o repórter para elogiar o trabalho desenvolvido pela diretora na escola.
Afastamento e conflitos internos
Entre os episódios apontados pelos professores está o caso de um docente que passou a responder a um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) após divergir de uma decisão da direção, durante a organização de uma atividade da escola.
Segundo relatos ouvidos pela reportagem, durante uma reunião sobre uma festa junina, a direção determinou que os professores acompanhassem alunos em um passeio oferecido como premiação de uma gincana. O professor teria se recusado a interromper as aulas por entender que os estudantes que permaneceriam na unidade tinham direito ao cumprimento dos 200 dias letivos previstos na legislação.
Já uma outra professora afirma que, logo após o episódio, o colega foi impedido de permanecer na escola. “No outro dia ele chegou para trabalhar sem saber de nada e não podia nem colocar os pés na escola. Esse professor está respondendo a um PAD. O emocional dele acabou”, relatou.
Segundo a mesma fonte, a situação abalou estudantes, familiares e colegas de trabalho. “Ele é um excelente pai de família, falta pouco para se aposentar, é um professor excelente. Os pais queriam fazer abaixo-assinado para ele voltar, e os alunos choravam, sentindo a falta dele. A gente não achou justo. Para nós, foi uma punição totalmente desproporcional”, afirmou.
Outra servidora afirma que encontrou uma escola marcada por conflitos internos e problemas na gestão. “O pedagógico totalmente desorganizado, uma escola faltando gestão. Também vi atitudes de perseguição da gestora contra alguns professores: indiretas, piadas durante conselhos de classe e reuniões coletivas. Quem discordava dela acabava sendo alvo dessas situações”, contou.
Ela afirma ainda que chegou a ser chamada pela diretora para participar de conversas sobre outros servidores. “Ela já chegou a me chamar na sala dela algumas vezes para falar mal de colegas e queria que eu ficasse contra essas pessoas. Expunha questões da vida pessoal para tentar justificar por que elas não mereciam confiança. Eu sempre deixava claro que meu trabalho era desenvolver ações com toda a equipe, independentemente da vida pessoal de qualquer servidor”, relatou.
Segundo ela, diante do agravamento da situação, professores decidiram registrar formalmente os episódios e encaminhá-los à Coordenação Regional de Ensino. Após tomar conhecimento da existência da ata, afirma ela, a diretora passou a buscar informações sobre quem havia participado das denúncias.
“Ela foi até a minha sala querendo saber quem tinha assinado, quem tinha ido à Regional e quem estava por trás da denúncia. Eu respondi que aquilo era sigiloso. Depois ela voltou outras vezes dizendo que processaria um por um dos professores”, afirmou.
Problemas na gestão e receio
Além das denúncias de assédio moral, servidores afirmam que a escola enfrentou dificuldades administrativas durante a gestão da diretora. Entre os relatos estão mudanças frequentes na organização das turmas, utilização de educadores sociais voluntários em atividades que, segundo os professores, deveriam ser desempenhadas por docentes, além de falhas na organização pedagógica da unidade.
Na avaliação da servidora, os conflitos internos acabaram ocupando espaço que deveria ser destinado ao funcionamento da escola. “A preocupação dela era com os conflitos entre colegas. Não era com a organização da escola, nem com o pedagógico. A visão que nós tínhamos era de uma escola completamente sem gestão, enquanto os conflitos aumentavam cada vez mais”, avaliou.
Os servidores afirmam que, durante o período de afastamento da diretora, foi possível reorganizar parte das atividades da unidade e restabelecer um ambiente considerado mais saudável entre os profissionais.
O possível retorno da diretora ao cargo na próxima semana é apontado pelos professores como a principal preocupação da equipe. Segundo eles, muitos dos servidores que prestaram depoimento durante o processo administrativo receiam sofrer novas retaliações caso a gestora reassuma a direção da escola.
“Nós participamos das oitivas, ficamos frente a frente com ela durante o processo. Ela sabe quem denunciou. O medo é justamente esse. Quem conhece a forma como ela age teme que ela volte querendo se vingar de quem decidiu falar”, disse um dos professores.
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