Desde meados de junho, a ciência confirmou o início de um novo El Niño, causado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico. A preocupação atual é sobre a intensidade, que promete incidir em proporções raras e gerar impactos severos no equilíbrio ambiental do planeta, na economia e na saúde de milhares de pessoas.
Segundo o climatologista, professor e pesquisador Francisco Aquino, o sistema climático da Terra é controlado a longo prazo pelos oceanos. “Em um ano de El Niño, é como se uma piscina de água mais aquecida, que normalmente fica no oeste do Pacífico, deslocasse em direção à região central e à América do Sul e modulasse todo o sistema de circulação atmosférica tropical e, por consequência, em direção às regiões polares”, explica ao BdF Entrevista.
“O El Niño cria rupturas em estações de chuva, ou períodos de estiagem ou tempestades, eventos mais extremos. Então, o El Niño interfere no ciclo hidrológico, balanço hídrico, na agricultura, nas temperaturas e, por consequência, no custo, na saúde da humanidade.”
O noticiário alerta para a ocorrência de um “super El Niño”. A diferença entre os níveis dos fenômenos está na classificação: forte, quando a temperatura do oceano passa de 1,5°C, e muito forte ou super, de 2°C ou 2,5°C.
Aquino destaca que o termo “Super El Niño” é usado corriqueiramente para eventos com potencial de desastre muito alto, como os ocorridos em 1983 e 1998. “É um El Niño muito impactante do ponto de vista de desastres e do ponto de vista de intensidade”, afirma. Para o evento atual, os dados mostram aquecimento não só na superfície, mas até 300 metros de profundidade nos oceanos, indicando um fenômeno muito forte.
Francisco Aquino reforça que, em 1878, um evento severo levou à morte de uma parcela significativa da população global devido à fome, seca e doenças associadas à quebra da produção global. “Nesse momento é que se batiza o fenômeno de El Niño numa reunião de geógrafos aqui na comunidade do Peru”, recorda.
Esse “batismo” do El Niño ocorreu próximo ao final do ano e sofreu influência católica. O nome remete à chegada do Menino Jesus no Natal.
“Por isso se associa o El Niño a essa ruptura marcada no seu auge, que é no final do ano. Dessa data até hoje, a gente reconhece esse evento natural com sua periodicidade e, modernamente, o incremento dos seus impactos, porque estão combinados em um planeta mais aquecido. A gente já tem um planeta bastante aquecido, se vier esse super El Niño, deve ser uma combinação bombástica. É a pior combinação possível no cenário de mudanças do clima”, avalia.
Os danos do El Niño
No Brasil, os impactos principais incluem redução drástica de chuvas, secas históricas, em especial na Amazônia, que isolam comunidades por falta de transporte fluvial e colocam uma ameaça de “ponto de não retorno” para a floresta. Há previsão de um aumento de tempestades severas, frentes frias canalizadas e inundações catastróficas, como as vistas recentemente no Rio Grande do Sul.
No mundo, a previsão é de ocorrência de mega-incêndios, com destaque para Austrália e Canadá, ondas de calor mortais na Europa e falhas na produção de alimentos na Ásia.
“Os eventos se tornaram muito mais agressivos, muito mais selvagens do que o esperado por todos os pesquisadores do mundo”, alerta o climatologista.
Para Aquino, a humanidade está em um território não mapeado. “A humanidade cresceu e floresceu desde a evolução do homem mais primitivo até os dias de hoje, com equilíbrio entre florestas, desertos e geleiras. Geleiras de montanha, tropicais, subtropicais e gelo das regiões polares. A humanidade nunca esteve em um planeta tão quente, com tão pouco gelo ou com tão pouca floresta. Estamos diante de um ponto de não retorno”, destaca.
Como lidar com as mudanças climáticas
Francisco Aquino defende que é preciso resiliência, mas, sobretudo, a preparação urgente dos governos para um clima que já se comporta como se estivéssemos em 2060. O cenário, no entanto, é complicado, já que a implementação de recomendações técnicas e científicas tem sido enfraquecida ao longo de décadas.
“Basta ver que a vulnerabilidade econômica no Brasil é associada a ‘n’ fatores: uma guerra, ou guerras, ou uma crise do petróleo, etc. Então, a gente sente esses impactos. A gente precisa guiar a economia de diversas formas. Mas, geralmente, onde você segura recurso ou diminui investimento? Ciência, tecnologia, educação e saúde”, exemplifica. “Isso é uma regra e faz com que o trabalho dos centros de pesquisa, das universidades, de toda a ciência brasileira, em algum momento, tenha que sobreviver, tenha que prestar atenção na agenda. Tem que ter um novo financiamento, a gente tem que fortalecer tais setores. Isso é primordial para o Brasil”, defende.
Confira a entrevista completa abaixo:
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.













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