Iniciada há quatro anos e meio, a guerra entre Rússia e Ucrânia parece não ter fim. Depois de idas e vindas, tentativas de articulações de países para o fim do conflito, a realidade é que não há qualquer expectativa para um acordo de paz. O impacto não se restringe aos dois países diretamente envolvidos no conflito. A chefe de diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, por exemplo, declarou, nesta segunda-feira (28), que a Europa precisa se rearmar depressa.
Ao BdF Entrevista, o jornalista Serguei Monin, correspondente do Brasil de Fato na Rússia, avalia que as profundas divergências políticas entre Moscou e Kiev inviabilizam concessões diplomáticas imediatas, empurrando a definição do conflito diretamente para o campo de batalha. “Se a gente parte do pressuposto meramente militar, a Rússia vem vencendo a guerra pela sua superioridade militar; é uma potência de dimensões muito maiores do que a Ucrânia, obviamente. A Rússia já conquistou cerca de 20% do território ucraniano. No campo de batalha, a Rússia vem, como se diz, tomando a iniciativa da linha de frente”, afirma.
Nesse sentido, segundo o jornalista, “não há muito espaço hoje para consenso, para negociação e de concessões políticas, seja de território, seja de sanções, de modo que essa resolução vem pela força, pela coerção militar”.
Contudo, Monin destaca que o contexto é muito mais complexo do que estabelecer um ganhador e um perdedor. “É difícil dimensionar o que é uma vitória”, reforça.
O correspondente explica que existe uma questão indissolúvelenvolvendo um impasse territorial, que é a região de Donbass, no leste ucraniano, para onde a Rússia avança e a Ucrânia mantém presença militar.
Atualmente, a dinâmica do conflito é caracterizada pelo uso intensivo de drones e mísseis contra infraestruturas energéticas e militares, o que amplia o impacto sobre a população civil e tem gerado um volume expressivo de vítimas de ambos os lados. “Existem duas dimensões da guerra. A principal batalha acontece na linha de frente, na linha de contato, mas existe também hoje essa dimensão cada vez maior atingindo áreas civis, que é a dimensão dos ataques de drones, por exemplo, que é a dimensão mais moderna da guerra, do tipo de conflito que a gente vive hoje”, afirma. Segundo Monin, as estimativas chegam ao número de 500 mil mortes de cada lado, apesar da dificuldade de checagem desses números e variação da divulgação desses dados. “Estamos falando com certeza de centenas de milhares de mortes”, reforça.
Serguei Monin conta que há um evidente desgaste sentido pela população dos dois países, que clamam por alguma resolução. Do lado russo, que é onde o jornalista vive o seu dia a dia, ele conta que há um controle estatal das pesquisas de opinião; contudo, já é perceptível uma mudança no nível de aprovação, que, no início do conflito, ultrapassava os 80%. “Essas pesquisas já mostram um nível de 68%, 70%. Ou seja, há uma queda na aprovação das medidas de governo. Esses índices são complexos porque, ao mesmo tempo que uma ampla maioria apoia as ações do governo no âmbito militar, do conflito, a grande maioria, de cerca de 60% na Rússia, defende também uma resolução à volta das negociações, defende um acordo de paz. E você tem aqueles 30% que defendem a guerra de forma mais restrita”, destaca.
No campo econômico e geopolítico, as sanções ocidentais foram amortecidas pela transição da Rússia para uma reorientação das suas exportações para os parceiros do Sul Global. “As exportações dispararam, principalmente de petróleo e gás, para a Índia e para a China. Mas hoje a gente percebe um certo desgaste econômico na Rússia, o governo reconhece isso, você tem previsões de crescimento sendo corrigidas para menos, mas dentro de um nível não catastrófico”, ressalta.
Embora surjam sintomas pontuais de desaceleração e inflação, Moscou manteve sua resiliência financeira e segue firme na defesa de uma ordem internacional multipolar. “O Brics como plataforma vira uma chave não só como resiliência econômica no conflito ucraniano, mas também como uma projeção de que a Rússia consegue não ser isolada”, avalia o correspondente.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.











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