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Como um candidato cercado por denúncias e escândalos pode chegar à Presidência?

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Na voz de Deus de Milton Nascimento — como dizia Elis Regina —, “Caçador de Mim” parece dizer algo necessário para estes tempos: não podemos correr da luta. É preciso esquecer o medo e seguir com coragem. É assim que olho para o cenário eleitoral brasileiro e confesso: fico atônito.

Como compreender que uma pessoa cujo nome aparece envolvido em denúncias, suspeitas e escândalos financeiros possa continuar eleitoralmente competitiva, disputando a Presidência da República com chances reais de ser eleita? Não faço julgamento jurídico. Investigação não é condenação, suspeita não é sentença. O Estado democrático de direito exige presunção de inocência e devido processo legal. Minha pergunta é dirigida à consciência: onde fica a ética na escolha política? E a ética do eleitor?

A polarização transforma o adversário em inimigo e pode levar alguém a votar apenas para derrotar o outro. Somam-se propaganda, desinformação, medo, ressentimento e repetição algorítmica, estreitando o discernimento e confundindo fato e fabricação, reflexão e impulso.

Hannah Arendt permanece atual ao refletir sobre a banalidade do mal. Como aquilo que ontem provocava indignação moral pode ser relativizado quando atinge o nosso próprio campo? Não estaremos diante de dois pesos e duas medidas: rigor para o adversário, indulgência para os nossos?

Norberto Bobbio nos ajuda a perceber o risco: quando princípios democráticos são relativizados conforme a conveniência política, a própria democracia se fragiliza. É preciso reafirmar instituições, direitos, limites ao poder e o Estado Democrático de Direito.

Porque não escolhemos apenas candidatos, mas projetos de sociedade: democracia ou tentação totalitária; pluralidade ou fabricação de inimigos; desenvolvimento econômico e social sustentável ou uma economia que abandona os frágeis, destrói a natureza e submete a vida ao mercado; um Estado de bem-estar social ou um Estado mínimo para pobres e trabalhadores e máximo para poderosos e grandes interesses econômicos.

O voto não é moralmente neutro. Nenhuma eleição oferece escolhas moralmente puras, mas escolher implica responsabilidade. Se condeno uma conduta no adversário e a justifico no meu próprio campo, não sigo um princípio ético: sigo a conveniência.

Recordo Dom Pedro Casaldáliga e seu critério simples e radical: fique do lado dos pobres. É aí que desejo que nos encontremos: não na trincheira do ódio nem na idolatria de partidos ou candidatos, mas no compromisso com os pobres, perseguidos e marginalizados e com a ecologia integral.

Há ainda uma contradição profundamente cristã. Não basta proclamar Deus, defender “valores cristãos” ou ostentar moralidade religiosa se a prática política esquece a dimensão sociotransformadora do Evangelho. O Reino anunciado por Jesus ganha carne nas bem-aventuranças, na fome e sede de justiça, na promoção da paz, no cuidado com os pobres e na defesa dos que têm seus direitos negados. Quando esses valores cedem aos interesses do poder, a fé corre o risco de tornar-se hipocrisia e farisaísmo.

Jesus falou dos “sepulcros caiados”: aparência por fora, contradição por dentro. Corrupção não deixa de ser corrupção porque mudou de lado. Justiça não pode valer apenas contra os outros.

Mas não quero terminar no desencanto. Em tempos de obscurecimento da consciência, precisamos reacender responsabilidade ética e esperança. Volto a Milton Nascimento e a “Caçador de Mim”: é preciso abrir o peito à força e buscar um projeto de felicidade, justiça, paz e ecologia integral — uma felicidade não apenas individual, mas sobretudo coletiva: o nós.

É preciso atravessar a mata escura e caminhar para a luz. E, como dizia o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns em tempos tão difíceis: “de esperança em esperança”. Que essa esperança renove em nós a coragem e a ternura.





Com Informações: Brasil de Fato

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