Mais de mil trabalhadores e trabalhadoras rurais ocuparam a Esplanada dos Ministérios nesta quarta-feira (1º) para o encerramento do 2º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Campo (MTC). A mobilização, que marcou os 22 anos da organização, levou ao centro do poder político a principal reivindicação do movimento: a criação da Política Nacional de Reconhecimento dos Territórios Camponeses.
O MTC defende que o campesinato brasileiro vive hoje uma lacuna de proteção jurídica, ficando vulnerável ao avanço do agronegócio, da mineração e de grandes empreendimentos. E também reforçam a luta pelo reconhecimento de seus territórios e de seus modos de vida.
“Estamos hoje em marcha pela justiça climática e em defesa do nosso território camponês. Viemos dizer a Brasília e à sociedade que temos um projeto de futuro, e esse projeto de futuro é ancestral. Sem o campesinato não há vida”, afirmou Adriano Ferreira, da direção nacional do MTC.
Segundo ele, a mobilização também reafirma a continuidade da organização. “A marcha significa dizer que o Movimento dos Trabalhadores e das Trabalhadoras do Campo continua vivo e forte. Viemos à cidade para dizer que existimos, porque muitas vezes, até pessoas que ocupam cargos em governos progressistas tentam nos silenciar. Estamos aqui para dizer que o MTC continua firme”, declarou.
A crítica ao Poder Legislativo foi um dos principais eixos dos discursos durante a caminhada. Lideranças denunciaram o descompasso entre as necessidades das comunidades rurais e as prioridades do Congresso Nacional.
Maria Helena Rodrigues, coordenadora estadual do MTC no Tocantins, afirmou que a permanência das famílias no campo depende de políticas públicas que ainda não chegam às comunidades. “Estamos aqui reivindicando os direitos do campesinato, dos territórios e das nossas bases, que estão sendo abandonadas pelas autoridades. Permanecer na terra exige condições dignas de moradia, água, assistência técnica e o básico para viver, mas estamos sendo deixados de lado”, denunciou.
Ela também direcionou críticas aos parlamentares. “Temos um Congresso que atrapalha e não quer ajudar nossas bases. Depois, o nosso povo acaba elegendo parlamentares que votam contra as leis que nos favorecem”, criticou a coordenadora.
Políticas públicas e sobrecarga
O protagonismo feminino apareceu como um dos principais temas do encontro. Militantes defenderam maior acesso das mulheres às políticas públicas e criticaram a sobrecarga de trabalho enfrentada dentro e fora de casa.
Militante do MTC no Tocantins e professora Francinete Costa afirmou que a agricultura familiar sustenta grande parte da alimentação do país, mas continua sem o devido reconhecimento. “Quem sustenta este país é a agricultura familiar. É a mulher do campo quem coloca comida na mesa da família, mas ela continua sem o reconhecimento e as políticas públicas de que precisa”.
Ela também questionou os efeitos práticos do Plano Safra anunciado pelo governo federal. “Ontem tivemos a votação do maior Plano Safra da história, mas eu pergunto: até onde esse plano, de fato, será destinado para a mulher trabalhadora, principalmente a mulher do campo?”, questionou
Costa ainda criticou a escala 6×1 e a dupla jornada enfrentada pelas mulheres. “Um país sério jamais teria uma carga de trabalho tão exorbitante e escravagista. Nós, mulheres, precisamos nos unir contra a escala 6×1 e dizer a esse Congresso que respeite as famílias brasileiras”, pontuou.
A precariedade habitacional nos assentamentos de reforma agrária também foi apontada como um dos principais problemas enfrentados pelas famílias camponesas. Maria Silva Ferreira, representante do assentamento Antônio Moreira, no Tocantins, relatou que centenas de famílias continuam aguardando acesso à moradia, mesmo após anos de espera.
“Estamos há 13 anos no assentamento e continuamos sem moradia. Fizemos toda a documentação, avançamos no edital de habitação do Ministério das Cidades e chegamos até a Caixa, mas, de repente, simplesmente evaporamos. Seguimos sem casa”, denunciou.
Defesa do território
Para o MTC, a defesa dos territórios camponeses está diretamente ligada à preservação ambiental, à produção de alimentos e à valorização dos modos tradicionais de vida. Maria Isabel da Silva, conhecida como Isabel das Ervas, dirigente nacional do movimento em Minas Gerais, afirmou que permanecer na terra significa preservar a história das comunidades.
“A nossa luta é pela permanência na terra, resgatando nossa história ancestral. Acreditamos na força do poder popular e dos nossos ancestrais. Queremos gratidão, mas também respeito e atendimento dos que estão no poder para os povos tradicionais. Exigimos educação e saúde diferenciada para o nosso povo do campo”, pontuou.
Criado em Alagoas em 2004, o movimento está presente atualmente em 13 estados brasileiros e pretende ampliar sua atuação nos próximos anos por meio do Plano Nacional de Expansão 2026-2030, voltado especialmente à permanência da juventude no campo e ao fortalecimento dos grupos de base.
Ao término da marcha, representantes das delegações estaduais seguiram para a Câmara dos Deputados, onde participaram de uma sessão pública em homenagem ao Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Campo.
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