Aprovada no curso de direito da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), a jovem Benedita Subrinho, de 29 anos, uma travesti da zona rural de Caruaru, conseguiu mobilizar apoios e angariou os recursos necessários para se deslocar até Campina Grande (PB) e fazer sua matrícula, carregada pela esperança de novos e prósperos rumos para sua vida, marcada por batalhas e abusos desde a infância. À época, seu salário estava retido em uma conta do Will Bank, instituição liquidada como consequência da fraude bilionária do Banco Master, o que dificultava sua logística para ir até a Paraíba.�
Mas a matrícula não seria a única batalha a ser travada para a realização daquele sonho. A mudança para uma nova cidade, acompanhada pelo companheiro Gabriel, ainda seria marcada por novos reveses financeiros, incluindo mais um problema com o sistema bancário, além de um quadro de saúde que a impediu de trabalhar, deixando-a em situação de rua e, por fim, a desistência de seguir o curso diante de um cenário de lacunas de assistência estudantil imediata para corpos cujas vivências e sobrevivências estão constantemente em regime de urgência.�
Após a realização da matrícula, Benedita e Gabriel, que fora aprovado no curso de geografia da mesma instituição, planejavam começar uma nova vida em Campina Grande. Ambos conseguiram um emprego em uma empresa de call center, ramo no qual Benedita possui larga experiência. Foi trabalhando 12 horas por dia no setor de atendimento de uma plataforma de jogos e tendo duas folgas por mês, no ano passado, que ela conseguiu juntar as economias para a mudança, realizada em março deste ano.�
Com as economias do casal, o plano era alugar uma moradia na cidade. “Foram várias adversidades. Não conhecíamos a cidade, não tínhamos muita ideia de questões como a distância para o campus, por exemplo. E as dificuldades eram maiores nos diálogos para locação de locais, principalmente porque sou travesti”, relata Benedita.
Ainda nos primeiros dias, novos reveses na situação. Benedita foi acometida por um intenso quadro viral, que a impossibilitou de participar dos primeiros dias de treinamento e do exame admissional do novo trabalho. Apenas Gabriel seguiu na empresa, recebendo em abril apenas R$ 49 reais no total. Durante o mês, precisaram se instalar em estabelecimentos que cobravam diárias, utilizando os recursos das reservas que possuíam, totalizando cerca de R$ 2.700.�
Ao conseguirem um lar temporário a partir de contatos mediados por conhecidos, o casau se organizava para tentar mais uma vez o aluguel, utilizando o cartão de crédito e as sobras das economias. Contudo, não estavam cientes de que a instituição bancária onde guardavam o dinheiro subtrairia o valor para o pagamento de um débito antigo e ainda não disponibilizara o limite de crédito.�
Eles também precisaram sair da casa onde estavam instalados e foram viver um dia de cada vez, hospedando-se em lugares que trabalhavam em regime de diárias, onde muitas vezes precisavam negociar nos dias em que não possuíam os recursos para a hospedagem.
Os pais de Benedita, de poucos recursos econômicos e com a qual a relação é conflituosa, já tendo expulso a filha de casa, não poderiam prover ajuda econômica. Já a família de seu companheiro resiste em ajudar porque desaprovam a relação. “Eles até tinham como nos garantir alguma dignidade diante de tudo o que passamos, mas não queriam ajudar por não aceitarem que o filho vive com uma travesti”, avalia Benedita.
A vida na universidade
No primeiro dia de aulas, no fim de abril, o casal se encontrava hospedado em um hostel, pagando R$ 80 pela diária. Gabriel não foi aprovado para permanecer na empresa de call center e ambos ficaram sem trabalho. Benedita não possuía dinheiro para o ônibus até a universidade, mas conseguiu ajuda para pagar um mototáxi.
Sob a chuva no trajeto, refletia se de fato fazia sentido frequentar a faculdade naquelas condições. “Para que inferno uma travesti como eu está indo fazer direito?”. Mas decidiu encarar, vestindo um charmoso conjunto rosa que tinha comprado especialmente para a ocasião, com perspectivas de tentar trilhar uma carreira acadêmica pautada em buscar o que chama de “direito à travestilidade”, algo que ela diz nunca lhe ter sido dado.�
As batalhas eram diárias. Conseguia ajuda de alguns outros alunos e docentes para continuar, mas, sem ferramentas de assistência estudantil sólidas e urgentes, como uma residência universitária, seguia experimentando um desgaste físico e emocional cada vez maior diante do difícil esforço entre estudar e sobreviver. Em pouco tempo, Benedita e Gabriel tiveram que viver na rua. Com experiências de traumas, abusos e violências em casas de apoio que já frequentou, a rua lhe parecia a opção menos perigosa.
Por semanas ela seguiu tentando se manter nas aulas, mas as redes de ajuda já não davam conta das necessidades e o seu desgaste emocional já atrapalhava a relação com colegas e docentes. “Eu sou uma pessoa que, se não tenho um barbeador para me cuidar, ainda mais em um ambiente como um curso de direito, meu corpo é logo patologizado. E eu estava numa situação em que não tinha nem como tomar banho”, relata a jovem. Benedita relata que a universidade chegou a entrar em contato para uma conversa com o casal, mas só ofertaram duas refeições no restaurante universitário, insuficiente para a manutenção dos estudos.�
O sonho da faculdade precisou ser adiado. A mãe de Benedita arcou com um transporte de Toyota ao custo de R$ 120, valor expressivo dentro do orçamento da família, para que a filha e o companheiro retornassem a Caruaru (PE). Hoje, ela voltou a trabalhar com atendimentos telefônicos e Gabriel com serviços gerais. Ela diz não se arrepender da experiência e de que se trata de apenas uma vírgula nos seus sonhos acadêmicos.�
“Eu sou uma travesti de 29 anos, ou seja, na terceira idade da nossa população, que tem expectativa de vida de 35 anos. Então agarrei aquela oportunidade com unhas e dentes. Agora vou me cuidar, me organizar, juntar dinheiro e voltarei, sim, a brigar por esse espaço. Passei uma vez e consigo passar outra”, afirma Benedita. “Para que essa cota trans existisse, foi derramado muito sangue de travestis que estiveram na linha de frente, mas precisa também haver a garantia da permanência de pessoas trans nesses espaços”, conclui.�
O que diz a UEPB
A Universidade Estadual de Campina Grande foi procurada pelo Brasil de Fato para falar sobre as políticas de assistência estudantil ofertadas e, por meio de nota, declarou que:
“Os programas de permanência estudantil da Universidade Estadual da Paraíba são destinados a todos os estudantes regularmente matriculados na instituição, sejam ingressantes ou veteranos.�
O acesso aos programas ocorre por meio de processo seletivo, realizado mediante edital, conforme estabelecido nas Resoluções RESOLUÇÃO/UEPB/CONSUNI/036/2023, RESOLUÇÃO/UEPB/CONSUNI/037/2023, RESOLUÇÃO/UEPB/CONSUNI/007/2026 e RESOLUÇÃO/UEPB/CONSUNI/240/2023.
Os editais são publicados após o período de ajuste de matrículas, quando é realizado o levantamento da disponibilidade de vagas. A definição da oferta considera o quantitativo global de vagas previsto nas resoluções, em consonância com a disponibilidade orçamentária da Universidade.�
Cabe destacar que 50% das vagas ofertadas nos editais são reservadas a estudantes cotistas, incluindo estudantes trans.
Além da concessão de bolsas de assistência estudantil, o setor psicossocial da instituição oferece serviços de escuta e acolhimento das demandas estudantis, realizando os encaminhamentos necessários para a rede de assistência social e/ou para os serviços de saúde mental, conforme as necessidades identificadas.”













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