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Rival do Brasil na Copa, Escócia amarga efeitos do Brexit, ao qual foi contra

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A seleção escocesa entrará em campo contra o Brasil nesta quarta-feira (24), em sua primeira Copa do Mundo após 28 anos, buscando um feito inédito para sua torcida, a tradicional Tartan Army: classificar-se para as fases decisivas do torneio, o chamado mata-mata.

No entanto, a partida acontece em meio a uma recordação dolorosa para o povo escocês, em uma arena diferente da futebolística: na manhã de 24 de junho de 2016, quando saíram os resultados do referendo do Brexit, o país viu-se obrigado a sair da União Europeia, apesar de 62% de sua população ter votado contra tal medida.

Com 5,5 milhões de habitantes, a Escócia é uma das quatro nações que compõem o Reino Unido, ao lado de Inglaterra, País de Gales e Irlanda do Norte. A população inglesa é dez vezes maior que a escocesa e, por isso, seus cerca de 53% de votos em favor da saída foram suficientes para mudar o resultado a nível nacional.

No final, considerando os votos de todo o Reino Unido, 51,89% preferiram a saída, contra 48,11% que votaram pela permanência. Por isso, a Escócia foi obrigada a se separar do bloco europeu.

“A Inglaterra é muito maior do que todos esses países, com cerca de 50 milhões de habitantes. Eles são como cidades em termos de população”, destaca Hassam Akram, professor de políticas públicas da Universidad Diego Portales, no Chile.

Segundo Akram, diante da frustração generalizada após o Brexit, cuja escolha foi majoritariamente inglesa, os desejos separatistas do país se acirraram ainda mais. A capital, Edimburgo, apoiou massivamente a permanência no bloco europeu, com 74,4% dos votos, quase três em cada quatro escoceses da cidade.

A frustração foi ainda mais aguda pelo fato de os escoceses terem realizado, dois anos antes da votação do Brexit, um referendo para decidir sobre a separação do país da Grã-Bretanha.

O referendo separatista, convocado em setembro de 2014 pelo então premiê britânico, David Cameron, foi rejeitado por 55% contra 45%. A proposta era defendida aguerridamente pelo Partido Nacional Escocês (SNP, em inglês) e liderada pelo líder da legenda, Alex Salmond.

Segundo Akram, um dos motivos pelos quais grande parte dos escoceses votou pela permanência no Reino Unido foi, justamente, para continuarem pertencendo à União Europeia.

Há dez anos

Em entrevista nesta semana ao The Guardian, a ex-líder do Partido Trabalhista Escocês, Kezia Dugdale, contrária à proposta separatista, afirmou ter ficado “completamente devastada” na manhã do dia 24 de junho, quando os resultados do Brexit foram confirmados.

Naquele dia, Dugdale conversou com a então primeira-ministra escocesa Nicola Sturgeon (SNP), favorável ao separatismo, resumindo o sentimento de muitos compatriotas escoceses que votaram pela permanência no Reino Unido, mas se viram assaltados pelo Brexit: “Isto muda tudo”.

Assim que o Brexit foi aprovado, a então premiê escocesa afirmou que faria tudo o que pudesse para “proteger o lugar da Escócia na União Europeia”. Em Bruxelas, ela se reuniu com o então presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, chegando a criar um conselho de especialistas em direito, economia e diplomacia para estudar meios capazes de preservar os vínculos escoceses com o bloco europeu.

Os obstáculos, no entanto, impediram o país de permanecer na União Europeia, após forte resistência do então presidente francês, François Hollande, que sustentou a tese de que “as negociações serão conduzidas com o Reino Unido, e não com uma parte do Reino Unido”.

A Espanha também reiterou esta posição, temendo que a postura da Escócia fortalecesse as regiões separatistas do país, como a Catalunha. Na época, o então premiê Mariano Rajoy afirmou que “se o Reino Unido sair, a Escócia também sai”.

Tradição progressista

Akram destaca que a Escócia e o País de Gales sempre tiveram uma tendência mais à esquerda do que a Inglaterra. “A Inglaterra não tem uma eleição em que a esquerda tenha vencido desde os anos 1940”, afirma, ao salientar a contribuição desses países nas eleições para a esquerda britânica.

Em sua avaliação, “o Partido Trabalhista entrou em colapso porque, hoje em dia, é tão de direita que esses países não o apoiam mais”.

Atualmente, a Escócia é governada pelo SNP, uma legenda nacionalista de centro-esquerda cuja principal bandeira histórica é a independência. Segundo ele, o nacionalismo escocês possui “um forte componente crítico à centralização política exercida por Londres e à própria União Britânica”.

Apesar disso, Akram aponta um paradoxo: embora muitos eleitores apoiem partidos nacionalistas e autonomistas, isso não se converte automaticamente em apoio à separação do Reino Unido.

“As pessoas nesses países votam em nacionalistas, cuja política, tecnicamente, é independentista, mas, quando realizam referendos, não querem a independência. Querem ser governadas por independentistas, mas não querem ser independentes”, observa.

Espírito separatista

Após o Brexit, Sturgeon, que deixaria o governo em 2023, continuou sua luta para emplacar um novo referendo separatista, mas o governo britânico da premiê Theresa May (2016-2019), que substituiu Cameron, rejeitou essas reivindicações e o apoio à independência da Escócia caiu para menos de 40%.

Nas eleições gerais de 2017, o SNP perdeu 21 cadeiras no Parlamento britânico e viu sua votação recuar 13 pontos percentuais, em um contexto de implementação da retirada do Reino Unido do bloco europeu, iniciado por May naquele ano.

May está entre os seis primeiros-ministros britânicos que tiveram seus mandatos interrompidos após o Brexit. Ela foi substituída por Boris Johnson em 2019, cuja chegada reergueria o desejo separatista escocês. Em outubro de 2020, o independentismo chegou a atingir 59% nas pesquisas do país.

Ao longo da última década, no entanto, o debate foi ofuscado por uma sucessão de crises, englobando o Brexit radical de Johnson, sua condução da pandemia de covid-19, a guerra na Ucrânia e a atual crise do Reino Unido, incluindo o alto custo de vida e a deterioração dos serviços públicos na região.

Em março deste ano, uma década após o referendo, uma pesquisa revelou que a Escócia continua profundamente dividida em relação ao separatismo: 44% apoiam ante 56% que são contrários à medida. Outros levantamentos apontam índices próximos a 50%.

Segundo Akram, a principal explicação para essa divisão é econômica. Embora disponha de reservas de petróleo no Mar do Norte, a Escócia continua profundamente integrada à economia britânica. “Economicamente, a união com a Inglaterra é total”, prevalecendo o sentimento de que o país “não tem muita capacidade de funcionar fora desse contexto”.

Na avaliação do especialista, a maior parte dos escoceses não deseja necessariamente romper com a Grã-Bretanha, mas reformular os termos dessa relação. “Eles não podem sair. O que eles querem é que a Inglaterra mude, querem uma união mais equitativa para eles. Sabem que lá fora é pior, mas acham que dentro está bastante ruim e querem que as coisas melhorem”, afirmou.

Charme histórico

Atualmente, a crise econômica e as preocupações com o Serviço Nacional de Saúde (NHS) passaram a dominar a agenda pública da Escócia. Ao jornal britânico, o ministro escocês para a Europa, Stephen Gethins, salientou que o Brexit provocou uma perda de receitas de 3,3 bilhões de libras (R$ 22,6 bilhões), elevando em cerca de 250 libras (R$ 1,7 mil) os gastos anuais das famílias com alimentação.

É neste contexto que os jogadores escoceses, ovacionados pela Tartan Army, entrarão em campo contra o Brasil, reafirmando um orgulho nacional que, para além do kilt em tartan (a famosa saia xadrez), da gaita de fole — cuja sonoridade divide opiniões — e das mais famosas marcas de whisky, também deu ao mundo Adam Smith, Graham Bell e o lendário detetive Sherlock Holmes, por meio da pena de seu autor, Arthur Conan Doyle.

A tradição não para por aí. Considerada uma das gerações mais talentosas das últimas décadas, a seleção escocesa, comandada por Steve Clarke, entrará na batalha pela primeira classificação no mundial, disputando com o charme histórico de uma seleção que protagonizou a primeira partida internacional reconhecida pela Federação Internacional de Futebol Associado (Fifa).

O jogo foi contra a Inglaterra, em Glasgow, em novembro de 1872, e terminou com o placar de 0 x 0, mas foi o suficiente para a seleção escocesa entrar para a história do futebol.





Com Informações: Brasil de Fato

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