Localizada na comunidade Engenho II, no Território Quilombola Kalunga, em Cavalcante, Goiás, a cachoeira Santa Bárbara é um dos atrativos mais visitados da Chapada dos Veadeiros. Inserida no maior território quilombola em extensão do Brasil, a cachoeira integra uma experiência de turismo de base comunitária consolidada ao longo dos anos pela própria comunidade.
É na confluência entre protagonismo comunitário, valorização dos saberes e fazeres tradicionais, conservação do patrimônio natural e autonomia territorial que o turismo de base comunitária desenvolvido no Território Quilombola Kalunga se tornou referência nacional. O trabalho desenvolvido pela Associação Kalunga Comunitária do Engenho II conquistou o 1º lugar no Prêmio Nacional do Turismo 2023, na categoria de base comunitária social, do Ministério do Turismo.
Para Dominga Natália, liderança quilombola, guia de turismo e empreendedora da comunidade Engenho II, uma das representantes do território na cerimônia da premiação, esse reconhecimento é resultado de uma forma de fazer turismo construída coletivamente pelas comunidades.
“Desde o início, a estruturação do turismo na comunidade foi com esse propósito. De ser algo para fortalecer o território, fortalecer as comunidades. É preciso também que, ao divulgar, as pessoas afirmem que a cachoeira está no Território Kalunga e onde ela está tem um legado, tem uma história, tem um povo e tem lutas”, destaca a liderança Kalunga.
Apagamento
Apesar desse reconhecimento nacional e da trajetória construída, a localização da cachoeira Santa Bárbara continua sendo frequentemente omitida ou atribuída a outro município em publicações de veículos de comunicação, perfis de turismo, materiais publicitários e pacotes comercializados por agências e guias não pertencentes ao território.
“Eles vendem Alto Paraíso usando a foto da cachoeira Santa Bárbara, isso é verdade. Depois que eles vendem todos os atrativos com essa propaganda, eles jogam a Santa Bárbara por último”, relata Jorge Moreira, liderança quilombola e guia de turismo da comunidade Engenho II.
A prática, além de desinformar visitantes, contribui ainda para apagar Cavalcante e o Território Quilombola Kalunga na narrativa turística da Chapada dos Veadeiros. “Já aconteceu várias vezes, de vez em quando aparecem clientes achando que a cachoeira Santa Bárbara fica em Alto Paraíso. Sem falar o trabalho que dá até o cliente entender que não é. Acho que isso já aconteceu com a maioria dos guias”, afirma Georan Fernandes, morador de Alto Paraíso e guia turístico da comunidade Vão de Almas.
O uso recorrente da imagem da cachoeira Santa Bárbara associada a outro município reforça o processo histórico de apagamento de Cavalcante e do Território Quilombola Kalunga na divulgação da Chapada dos Veadeiros.�
Um dos exemplos mais recentes dessa prática foi publicado no perfil Mais Goiás no Instagram. Em uma postagem intitulada “O que fazer em Alto Paraíso de Goiás? Os melhores lugares de um dos destinos mais incríveis do Brasil”, o veículo utilizou como imagem de capa a cachoeira Santa Bárbara, sem identificar que o atrativo está localizado no Território Quilombola Kalunga, em Cavalcante, Goiás.
Território Quilombola Kalunga
Localizado no nordeste de Goiás, o Território Quilombola Kalunga é o maior em extensão territorial do Brasil, com mais de 260 mil hectares distribuídos em mais de 39 comunidades nos municípios de Cavalcante, Monte Alegre de Goiás e Teresina de Goiás. A comunidade Engenho II, onde está localizada a cachoeira Santa Bárbara, fica a aproximadamente 117 quilômetros de Alto Paraíso de Goiás.
Embora a cachoeira Santa Bárbara seja o atrativo mais conhecido, o território reúne dezenas de outros destinos turísticos. No Engenho II estão, por exemplo, as cachoeiras Capivara e Candaru. Já em outras comunidades do Território Kalunga, visitantes encontram atrativos como Rei do Prata, Salto do Curriola, Guardião, Correntão, entre muitos outros que integram a diversidade natural e cultural do território.
*Alciléia Torres é comunicadora popular quilombola do território Kalunga, graduanda em Comunicação Social – Jornalismo.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato DF.
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