No Dia do Cerrado, celebrado nesta sexta-feira (11), os impactos das mudanças climáticas sobre o bioma ganham atenção diante da previsão de um novo episódio de El Niño. O fenômeno pode agravar a seca, elevar o risco de incêndios e pressionar a disponibilidade de água no Cerrado e no Distrito Federal, segundo a professora da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisadora Mercedes Bustamante.
Os efeitos das mudanças climáticas já podem ser percebidos no Cerrado. O aumento das temperaturas vem acompanhado de alterações no regime de chuvas e de uma maior incidência e intensidade dos incêndios.
“O Cerrado já enfrenta impactos severos e generalizados das mudanças climáticas. Já se observa um aquecimento significativo e as projeções indicam que o aumento da temperatura deve se acentuar até o final do século. Outro sintoma é o atraso na entrada do período chuvoso, com as chuvas também mais irregulares”, afirmou a bióloga em entrevista ao Brasil de Fato DF.
O fogo também preocupa. O Cerrado tem sido o bioma mais atingido pelos incêndios no Brasil, e a combinação entre secas mais intensas e o avanço do desmatamento pode comprometer até mesmo o papel do bioma na absorção de carbono.
“Com a combinação de secas mais intensas e o avanço do desmatamento, há um risco real de o bioma, que atua como um sumidouro de carbono, passar a emitir mais carbono do que absorve”, destacou a professora do Departamento de Ecologia.
‘Questão de sobrevivência’
No Dia do Cerrado, a pesquisadora, que é referência em mudanças climáticas e membro da Academia Brasileira de Ciências, defende que a importância do bioma seja compreendida para além da biodiversidade. A preservação está diretamente relacionada à segurança hídrica, ao equilíbrio climático e às condições de vida da população brasileira.
“O Cerrado não é um bioma secundário; ele é o coração hídrico do Brasil e um fator de estabilidade climática. Sua destruição é uma ameaça ao bem-estar e ao futuro da população brasileira”, afirmou.
Para Bustamante, a biodiversidade do Cerrado também pode ser uma fonte de soluções econômicas e ambientais, desde que o desenvolvimento da região esteja associado à conservação do bioma. “Proteger este bioma é uma questão de sobrevivência, e não uma opção. O futuro sustentável do Brasil passa pelo Cerrado”, completou.
El Niño e pressão sobre as águas
As previsões científicas apontam para a formação de um super El Niño este ano, fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico e capaz de alterar padrões de temperatura e precipitação em diferentes regiões do planeta.
Segundo Mercedes Bustamante, o próximo episódio pode ter intensidade elevada, com reflexos sobre o Cerrado e também sobre o Distrito Federal. A combinação entre calor, redução e irregularidade das chuvas pode ampliar o risco de incêndios e pressionar a disponibilidade hídrica.
“Para o Cerrado e, especificamente, para o Distrito Federal, as consequências são graves. Será preciso acompanhar a disponibilidade hídrica para o abastecimento da população e o risco mais elevado de incêndios”, afirmou.
Um El Niño intenso pode alterar ainda mais o regime de chuvas no bioma. Com menos precipitação e temperaturas mais elevadas, a perda de umidade do solo tende a aumentar, criando condições mais favoráveis para a propagação do fogo e agravando os períodos de seca.
A preocupação com a água é ainda maior diante da importância do Cerrado para os recursos hídricos brasileiros. Conhecido como “berço das águas”, o bioma abriga nascentes de oito das 12 grandes bacias hidrográficas do país.
Bustamante aponta que os efeitos sobre os rios já podem ser observados e que o desmatamento e as mudanças climáticas têm participação nesse processo. “O desmatamento é o principal fator para a mudança do uso do solo, responsável por 56% da retração do nível de água, enquanto a mudança do clima é responsável por 44% da vazão menor. O El Niño atua como um agravante, intensificando a seca e reduzindo ainda mais a recarga dos aquíferos”, explicou.
Para a professora, enfrentar esse cenário exige medidas que combinem preservação, restauração ambiental e mudanças nas práticas de produção. Entre as ações apontadas estão o combate ao desmatamento ilegal, a redução do desmatamento que ainda pode ser autorizado pelo Código Florestal, a recuperação de áreas degradadas e o incentivo a práticas agrícolas que reduzam a vulnerabilidade climática.
A região do Matopiba, que reúne áreas de Cerrado nos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, deve receber atenção especial, segundo Bustamante. Para ela, é necessário rever o planejamento territorial da região e avaliar os impactos do avanço da ocupação sobre os recursos hídricos.
A proteção dos territórios de povos indígenas e comunidades locais e tradicionais também é apontada como parte da estratégia de preservação do bioma.
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