Marilene Esperança, presidente e fundadora da Associação Brasileira de Acesso à Cannabis Medicinal do Estado do Rio de Janeiro (Abra Rio), obteve recentemente uma autorização oficial para cultivo legal de cannabis medicinal. Ao falar desse momento em entrevista ao programa Conversa Bem Viver, da Rádio Brasil de Fato, Esperança destaca o fato como histórico:
“Sou negra, periférica, com muitas dificuldades e hoje sou a única mulher negra presidente de uma associação de cannabis no Brasil com uma autorização definitiva para cultivar maconha para fins medicinais. É uma alegria muito grande, uma gratidão muito grande, mas que em algum dia a gente possa olhar para o lado e ver milhares de mulheres negras ocupando espaço como esses. Porque isso não é só pensar num tratamento, mas isso é histórico. É a gente recuperar aquelas raízes lá que vêm bem antes de mim”, pontuou Marilene.
Esperança buscou o tratamento com óleo de extrato de canabidiol como última alternativa para seu filho Lucas, diagnosticado aos quatro anos com Síndrome de Rasmussen. Ele sofria então com dezenas de episódios de convulsões.
Esperança relata que, em 2014, Lucas chegou a convulsionar por 18 dias consecutivos, o que comprometeu seus movimentos e sua fala. O médico Eduardo Faverê, que acompanhava o caso desde o diagnóstico, apresentou então para Marilene o óleo como alternativa.
Havia, no entanto, os obstáculos do custo e da legalidade do tratamento. “Ele não podia prescrever. E as outras mães que já utilizavam, importavam, mas de forma ilegal, porque era proibido importar. E o custo para o meu filho naquela época ficaria em torno de R$ 5 mil mensais. Eu vivia de salário mínimo, que era o benefício Loas dele. [Comprar o óleo] Era totalmente fora da minha realidade.”
O caminho pelo qual Marilene conseguiu o primeiro acesso ao extrato foi pela Abrace Esperança, associação brasileira sem fins lucrativos de apoio à cannabis medicinal, com sede em João Pessoa, Paraíba. “Foi quando meu preconceito acabou. Porque foi aí que eu consegui entender que é uma planta. Eu falo que só não gosta de maconha quem não conhece. É uma planta, só que com muitos benefícios terapêuticos. Aquele óleo mudou a vida do meu filho; com 15 dias de uso do óleo, ele já estava sustentando o pescoço. Com um mês de uso daquele óleo, o Lucas teve as suas crises totalmente controladas”, explicou Marilene.
Hoje a Abra Rio, presidida por Marilene, atende cerca de 4.500 famílias em 17 estados do Brasil, além do Distrito Federal. Marilene vê o uso da maconha medicinal como uma verdadeira libertação, que abriu seu olhar para uma abordagem não medicamentosa da vida.
“Eu liberei meu filho das drogas e hoje ele só usa maconha; hoje ele não usa nenhum anticonvulsivante. Meu filho tem um cognitivo totalmente preservado. Ele voltou a andar, voltou a falar, pode voltar para a escola. Na nossa natureza, a gente tem tantas plantas medicinais com que a gente pode estar se tratando e diminuir um pouco esse negócio de medicalização. As pessoas estão acostumadas com isso, tudo se medicalizar, enquanto a gente pode aí usufruir da nossa terra, do nosso ar, das nossas plantas para poder se tratar, alerta Esperança.
Conversa Bem Viver
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