Após ser derrotado democraticamente nas urnas, o senador Flávio Bolsonaro (PL) está incomunicável desde as primeiras horas desta terça-feira (27), depois que informações indicam que ele saiu do Brasil pela fronteira com a Argentina, de onde teria pego um voo até os Estados Unidos. Seu irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), já está foragido no país e recebeu até visto de permanência do governo Donald Trump. Já há informações circulando na imprensa nacional de que Trump está ciente da fuga de Flávio e concederá asilo a mais um Bolsonaro acusado de crimes.
A fuga acontece após Flávio declarar que não reconheceria os resultados das urnas e que iria trabalhar pela anulação das eleições. O cientista social Rafael Kritski, doutor em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e autor de “O golpe de Estado no Brasil em 2016”, explica que recusar resultado de eleições e adotar narrativas de fraudes nas urnas é uma marca da extrema direita não apenas no Brasil, como em outros lugares do mundo.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por exemplo, usou a narrativa de fraude eleitoral quando foi derrotado em 2020 por Joe Biden. No Peru, em 2021, a atual presidenta Keiko Fujimori foi derrotada por Pedro Castillo e se negou a aceitar o resultado das eleições. No mesmo ano, na Alemanha, o partido de extrema direita AfD agiu da mesma forma.
“É um padrão da extrema direita. Um dos casos mais emblemáticos e que resultou em um golpe de Estado foi o de Evo Morales em 2019, que acabou forçado a renunciar por pressões de forças militares e paramilitares. Hoje é muito difícil pensar as eleições nesses lugares sem imaginar algum questionamento posterior”, afirma.
Kritski também destaca que a narrativa de Flávio se assemelha à atitude do próprio pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que, após ser derrotado no pleito de 2022, viajou para os EUA para não ter que passar a faixa presidencial a Lula. Contudo, destaca o analista político, o contexto atual difere daquele em que a tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023 aconteceu.
“A gente tem essa primeira declaração do presidente Donald Trump, em que cita muito vagamente que considerou as eleições com possibilidade de fraude, mas temos o reconhecimento dos resultados pelos principais países do mundo e pela América do Sul, com exceção da Argentina de Milei”, aponta.
Além disso, o cientista social explica que, diferentemente de agora, havia uma mobilização social muito forte dos apoiadores de Jair Bolsonaro e ações que foram tomadas com atores estatais. “Em 2022, desde abril, Jair Bolsonaro já preparava possíveis ações em caso de derrota”, ressalta. “Hoje a situação é diferente: Flávio Bolsonaro é um sujeito bastante enrolado do ponto de vista jurídico, apesar do capital eleitoral de mais de 50 milhões de votos. E temos um Judiciário tomando medidas cabíveis com seus processos em curso”, detalha.
Rafael Kritski, contudo, destaca que há uma narrativa em curso no campo bolsonarista de que as eleições não devem ser contestadas, mas alguns aspectos devem ser investigados, como medidas do governo federal tomadas entre o primeiro e o segundo turno e a prorrogação da votação por duas horas. “Acho improvável uma ação da magnitude como foi o 8 de janeiro. É possível que a gente veja mobilização de seus apoiadores em solidariedade a Flávio, denunciando o que, na cabeça deles, é uma perseguição contra a família Bolsonaro”, avalia.
Para Kritski, uma eventual fuga de Flávio do Brasil traz prós e contras, mas, do ponto de vista dele, não é “a jogada mais inteligente”. Por um lado, há uma diminuição do potencial de mobilização da extrema direita e, por outro, reforça o discurso golpista.
“Se Flávio sai do país, ele deixa o pai ao relento e deixa de ocupar o lugar de voz pública do pai no país. A saída dele do país enfraquece o potencial mobilizador, mas fortalece o discurso contra as instituições. Fortalece a ideia propagada por esse campo político de que o governo Lula e o Judiciário agem conjuntamente para perseguir a direita, e isso é, na verdade, sobre a família Bolsonaro”, resume.
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