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‘Pegou o cadáver e amarrou na UDN’: como sua trajetória e morte tornaram Vargas a ‘grande figura política brasileira do século 20’

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No dia 24 de agosto de 1954, o presidente Getúlio Vargas pôs fim à própria vida, ou, como ele mesmo escreveu em sua carta de despedida: “Saiu da vida para entrar na história.” O político estava no seu segundo mandato, considerado por muitos historiadores como o período mais progressista de sua trajetória no Executivo brasileiro.

O ato do suicídio, por si só, geraria repercussões e, no caso de Vargas, trouxe um peso a mais para o legado histórico que deixaria na política nacional. Ao BdF Entrevista, o historiador Jorge Ferreira, professor de História do Brasil da Universidade Federal Fluminense (UFF), afirma que havia uma complexa rede política e econômica que cercou o presidente naquele momento dramático.

Segundo o historiador, o grupo político que apoiava Vargas possuía um projeto nacional-desenvolvimentista focado na industrialização dirigida e fomentada pelo Estado, cujas bases haviam sido plantadas ainda em sua primeira passagem pelo poder, entre 1930 e 1945. “[No período] foi fundada a Companhia Vale do Rio Doce e a Usina Siderúrgica Nacional. A Companhia do Vale do Rio Doce abastecia a Companhia Siderúrgica Nacional. Foi a primeira usina siderúrgica do Brasil e o ponto de partida da industrialização. Também foi criada a primeira hidrelétrica, que é de São Francisco, e fundado o Conselho Nacional do Petróleo. Ainda não era Petrobras, mas era o Conselho Nacional do Petróleo. Essas quatro iniciativas foram o fundamento da industrialização brasileira”, destaca.

Após concluir seu primeiro mandato, Vargas reassumiu a presidência em 1950 “nos braços do povo” e colocou como prioridade a retomada do plano de desenvolvimento econômico. Ele estruturou bases importantes para o país ao criar instituições essenciais como o BNDES, a Capes e o CNPq. No entanto, governou sob uma oposição ferrenha no Congresso Nacional, liderada pela União Democrática Nacional (UDN), que historicamente rejeitava a legitimidade de sua vitória eleitoral.

Um dos maiores embates desse período envolveu justamente a criação da Petrobras, impulsionada pelo forte apelo popular da campanha “O Petróleo é Nosso”. Ferreira explica a estratégia de Vargas para aprovar o monopólio estatal diante de um Congresso hostil. “Vargas era um político muito matreiro. Ele fez o seguinte: mandou um projeto para o Congresso Nacional em que se criava Petrobras sem o monopólio, porque ele sabia que o povo ia para a rua”, conta.

A tática funcionou como uma espécie de “psicologia reversa”. Pressionada pela imensa mobilização de sindicatos, estudantes e militares de esquerda, a bancada da UDN apresentou um substitutivo que garantia o monopólio estatal da empresa, apenas para se contrapor ao projeto original do presidente, viabilizando a aprovação da medida nos termos que Vargas desejava. “Ele tinha que fazer essas manobras para levar adiante os seus planos”, resume.

O ‘gabinete do ódio’ e o cerco à Presidência

A oposição, liderada pelo jornalista e político Carlos Lacerda, formou um verdadeiro “gabinete do ódio”, termo que o historiador conta ter sido cunhado pela cientista política Maria Celina de Araújo para definir o comportamento cotidiano da bancada da UDN na época, caracterizado por insultos e acusações sistemáticas de corrupção sem trégua ao governo. “Todo dia um grupo de políticos da UDN ia à bancada para insultá-lo e tentar criar um fato novo. Carlos Lacerda era de uma agressividade assustadora”, relata.

A crise política atingiu seu ponto de ruptura com o atentado da rua Toneleiros contra Carlos Lacerda, que resultou na morte do major Rubens Vaz. O crime foi planejado e encomendado por Gregório Fortunato, chefe da guarda presidencial. Ferreira salienta que Vargas estava inteiramente alheio ao plano, classificando a ação como um “primitivismo político” incompatível com a sofisticação do presidente.

No entanto, a investigação militar, conhecida como a República do Galeão, devassou os arquivos pessoais de Fortunato, revelando que ele possuía um patrimônio de R$ 32 milhões em valores atualizados, incompatível com seu salário de R$ 7.500, e que havia intermediado transações imobiliárias suspeitas com os próprios filhos de Vargas. “Havia corrupção acontecendo nas costas dele [de Vargas]. E o que a oposição queria? Destruir Vargas. A ideia era a humilhação”, reforça.

Segundo o historiador, esse foi o golpe de misericórdia na estabilidade do governo. O objetivo era que o presidente fosse interrogado no inquérito. “Imagina uma pessoa com uma trajetória dessa, sentada num banquinho, respondendo perguntas de capitão, de tenente. E depois prendê-lo. Quer dizer, com isso, você desmoraliza o mito. E, ao desmoralizar o mito, você também desmoraliza o projeto político, que é o trabalhismo. Esse era o projeto. E Vargas sacou isso”, resume.

Um gesto de resistência

Diante das pressões militares que exigiam sua renúncia ou licenciamento, Vargas recolheu-se ao seu quarto na madrugada de 24 de agosto de 1954 e desfechou seu último ato político. Sua emblemática carta-testamento, que denunciava as forças reacionárias locais e a pressão de grupos econômicos internacionais, transformou-se em um poderoso instrumento de contra-ataque. “Vargas fez uma aposta política. Vargas pegou o seu cadáver e amarrou na UDN. E eles tiveram que carregar essa culpa ao longo do tempo”, avalia.

A reação popular ao suicídio foi imediata, com grandes manifestações e revoltas nas ruas que desarticularam os planos golpistas da oposição e emparedaram os adversários do regime.

Ao traçar possíveis paralelos com a política atual, Ferreira considera “temerário alguns tipos de comparação”, ainda mais porque existe um hiato de tempo. Mesmo assim, afirma que é possível encontrar similitudes entres Vargas e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). “O Vargas viveu na época da Guerra Fria, o Lula vive num outro contexto. Mas é possível também fazer comparações. Muitas vezes são indevidas, mas muitas vezes são devidas. Eu considero que a grande personalidade política do Brasil no século 20 foi Getúlio Vargas”, defende.

Para ele, ambos são líderes carismáticos que se colocam acima de seus próprios partidos, guiam-se por um forte pragmatismo político e defendem um projeto de desenvolvimento econômico nacional indissociável da inclusão social. Por essa razão, Ferreira conclui que ambos atraem a mesma oposição liberal que rejeita a intervenção do Estado na economia e a ascensão das massas trabalhadoras, enfrentando, cada um ao seu tempo, as engrenagens implacáveis do ódio político. “Acho que ambos, em contextos diferentes, temporalidades diferentes, defendem projetos próximos, que é o desenvolvimentismo, o estatismo. Ambos defendem o patrimônio nacional e não apenas material”, resume.

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.





Com Informações: Brasil de Fato

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