Uma tonelada de comida foi preparada e distribuída pelo coletivo Banquetaço em ação realizada nesta sexta-feira (23) no Setor Comercial Sul, em Brasília. A mobilização reuniu movimentos populares, cozinhas comunitárias e agricultores familiares em uma atividade que combinou a preparação e a partilha de refeições com a defesa do direito à alimentação adequada e a cobrança por políticas públicas de combate à fome.
A atividade contou com uma feira de alimentos, com participação de agricultores familiares. Verduras, hortaliças e frutas fizeram parte da iniciativa, que também buscou dar visibilidade à produção de alimentos e à importância da agricultura familiar para a soberania alimentar. Na contramão do país, o DF registrou aumento da insegurança alimentar.
“Nosso lema de 2026 é fome nunca mais. Nenhum prato sem comida de verdade”, afirma Cleide Morais, organizadora do coletivo Banquetaço. Para ela, reunir coletivos e organizações em torno da pauta é também uma forma de defender a democracia e a soberania alimentar, entendida como o direito de decidir sobre a produção, a distribuição e o consumo dos alimentos.
A ação denunciou os indicadores da fome no DF e defendeu políticas públicas permanentes de segurança alimentar e nutricional. Além de compartilhar alimentos, a iniciativa buscou dar visibilidade às pessoas que enfrentam dificuldades para garantir refeições diárias e às redes comunitárias que atuam para responder a essa realidade.
Cozinhas populares no combate à fome
A dimensão da insegurança alimentar aparece no cotidiano de iniciativas que distribuem refeições em regiões do Distrito Federal. No Sol Nascente, o Movimento das Trabalhadoras e dos Trabalhadores por Direitos (MTD) mantém uma cozinha popular que atende mais de 100 famílias. A distribuição ocorre duas vezes por semana, com cerca de 400 marmitas preparadas em cada dia de funcionamento.
Para Eguimar Rodrigues, da coordenação do MTD, o trabalho das cozinhas é uma resposta imediata à falta de acesso regular à comida, mas também evidencia a insuficiência das políticas públicas para garantir esse direito.
“O MTD se soma nessa ação do Consea e das cozinhas populares aqui do DF para a gente denunciar que as pessoas no DF passam até três dias, às vezes, sem se alimentar. Se não fossem as cozinhas populares, a situação seria ainda pior. A gente alimenta lá mais de 100 famílias. A gente serve comida duas vezes por semana, cerca de 400 marmitas a cada dia”, relata.
Eguimar critica a condução das políticas sociais pelo governo do Distrito Federal e defende mudanças na forma como o poder público enfrenta a fome. “O governo Celina e Ibaneis, na área da saúde, da alimentação, na educação, fracassou totalmente. A gente precisa mudar a situação do Distrito Federal”, afirma.
A atuação das cozinhas também se conecta à produção de alimentos por agricultores familiares e assentamentos da reforma agrária. Rafaela Patrício, agrônoma da Associação Plantas Alimentícias Não Convencionais (Aspan), explica que os alimentos utilizados na mobilização foram doados por agricultores familiares e comunidades da reforma agrária. A articulação entre esses grupos é parte central da proposta.
A presença de diferentes movimentos populares do campo e da cidade aproximou o debate sobre o acesso à comida de outras questões, como a valorização da agricultura familiar, o fortalecimento de circuitos locais de produção e distribuição e a defesa de alimentos adequados e saudáveis.
“Esse é um movimento coletivo que reúne diversos movimentos, organizações, associações, cozinhas solidárias, agricultores familiares, assentamentos do Distrito Federal. Todo mundo se uniu para que isso aqui pudesse acontecer hoje, pra gente poder estar realizando o Banquetaço”, diz Rafaela.
Desigualdade e desmonte de políticas públicas
Entre 2023 e 2024, a proporção de domicílios com algum grau de insegurança alimentar passou de 23,5% para 27% no DF, enquanto, no Brasil, caiu de 27,6% para 24,2%, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O avanço do problema ocorre apesar de o DF apresentar a maior renda domiciliar per capita do país. Em 2024, o rendimento médio mensal por pessoa na capital foi de R$ 3.444, cerca de 66% acima da média nacional, de R$ 2.069. Os indicadores evidenciam que a renda média elevada não se traduz, necessariamente, em acesso à alimentação adequada para toda a população.
A desigualdade no acesso à comida reforça a importância de políticas públicas permanentes de segurança alimentar e de iniciativas comunitárias, como cozinhas populares e solidárias, que atuam no atendimento a pessoas em situação de vulnerabilidade.
Cristina Trarbach, coordenadora do setor de Segurança Alimentar e Nutricional do PT-DF, chama atenção para a piora dos indicadores no Distrito Federal. Ela reforça que o cenário exige que o poder público volte a tratar a alimentação como um direito que depende de políticas permanentes, e não apenas de ações emergenciais.
“Nós precisamos reeleger Lula e nós precisamos de Leandro [Grass] para mudar esse quadro, que é uma região que tem a maior concentração de renda e a pior distribuição de renda do país”, avalia.
A nutricionista Nayara Rocha, integrante do Coletivo Multiplicação da Universidade de Brasília (UnB) e da organização do Banquetaço, destaca os impactos do desmonte das políticas de segurança alimentar e dos espaços de participação social no enfrentamento à fome nos governos anteriores. Como exemplo, ela aponta a extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), em 2019, durante o governo Jair Bolsonaro, medida que enfraqueceu os mecanismos de participação social na formulação de políticas públicas para o setor.
“Banquetaço é uma manifestação que a gente faz para dar visibilidade a esse tema que é fundamental: o direito humano à alimentação, que muitas vezes passa batido. A gente não pensa muito sobre isso”, afirma.
Mobilização para além da distribuição de refeições
A história do Banquetaço ajuda a entender por que a mobilização combina a oferta de alimentos com a cobrança por mudanças estruturais. Segundo Marília Leão, militante da soberania e da segurança alimentar e nutricional, a iniciativa surgiu em São Paulo como reação a uma proposta de distribuição de um composto alimentar conhecido como farinata, apresentado à época como alternativa para enfrentar a fome.
“Ele começou de uma reação, uma resistência em São Paulo a um projeto de lei que queria fazer ração humana para distribuir às pessoas. E a resposta da sociedade civil organizada naquela época foi fazer um grande Banquetaço”, conta Marília.
Desde então, a mobilização passou a ser convocada em diferentes cidades brasileiras diante da reivindicação por uma alimentação de qualidade. Marília também relaciona a mobilização à experiência de agravamento da fome no país durante a pandemia e à necessidade de impedir retrocessos nas políticas públicas de proteção social.
“A gente assistiu às pessoas no Brasil indo para a fila do osso. A fome no Brasil, durante o governo Bolsonaro, chegou a 33 milhões de pessoas. A gente não quer isso mais. A gente não quer fome nunca mais”, afirma.
Para a ativista, o Banquetaço é também um espaço de articulação da sociedade civil em defesa da soberania alimentar e das políticas públicas que garantam o acesso à comida.
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