O filme “Nosso Segredo”, estreia na direção de cinema da atriz e diretora teatral Grace Passô, levou três prêmios no Festival de Gramado e estreia nesta quinta-feira (27) em todos os cinemas do Brasil. O longa ficou com os Kikitos de Ouro de melhor filme, melhor fotografia e melhor direção de arte.
Fruto de um processo coletivo de criação iniciado em 2020, a obra mergulha de forma poética e sensível no cotidiano de uma família que enfrenta um luto recente, lidando com a dor do “não dito” e com segredos que atravessam gerações. No enredo, a perspectiva de uma criança atua como um sopro de renovação para reverter a sensação de fim das coisas e guiar o grupo familiar rumo a um recomeço.
“A gente sabe que o luto tem etapas, e essa família está vivendo aquela etapa em que não consegue falar sobre isso, não consegue falar sobre essa perda recente. A dor ainda lateja muito, então é uma família que tem uma espécie de contenção ali dentro, ela não sabe expressar a sua dor. É um filme sobre o não dito”, explica.
De acordo com Grace Passô, o título do filme funciona como uma representação direta do que herdamos de nossos antepassados. “Eu acho que esse título é um pouco uma metáfora para falar que as memórias de uma família são o segredo dessa família. Essas memórias familiares que nos constituem, que constituem a nossa vida, que às vezes a gente herda desde muito cedo, isso dita como a gente se relaciona, como a gente é ao longo do tempo”, explica a diretora.
A escolha por centralizar a narrativa no ponto de vista infantil busca conferir lirismo à trama, pois, segundo ela, “o olhar da criança é um olhar muito poético, normalmente. É um olhar que está menos engessado, menos automatizado pela vida”.
Além da abordagem sobre o luto, “Nosso Segredo” se destaca por apresentar um elenco majoritariamente negro, construindo uma poética baseada nas vivências e na organização dessas famílias. “Eu quis fazer uma família negra porque queria trabalhar uma poética que partisse de signos, situações que, intencionalmente, têm a ver com o fato de sermos negros. É muito comum, enfim, muitas pensadoras já falaram sobre isso também. Isso já foi muito dito, escrito, estudado, como, ao longo da história, por exemplo, as famílias negras se organizam, se reorganizam com a ausência, com alguma ausência paterna, com a ausência de um ente”, pontua.
Passô aponta que o modo de vivenciar a perda é atravessado por questões sociais práticas, como a necessidade de “pensar em si mesmo dentro de uma família de trabalhadores, que no outro dia vai ter que acordar de manhã e a vida é vida que segue”.
Atualmente, mais do que focar em expectativas sobre a indicação brasileira ao Oscar, a cineasta direciona sua energia para o contato com o público nas salas de exibição. “Estou muito ansiosa mesmo em relação a levar as pessoas para os cinemas. Hoje é uma grande força-tarefa levar as pessoas ao cinema para viver essa experiência”, conclui a diretora, defendendo a ocupação física das salas de cinema contra a lógica puramente capitalista da indústria do entretenimento.
Confira a entrevista completa
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