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‘Naza’: como Israel usa inteligência artificial para matar civis nos três anos de genocídio em Gaza

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O filme “Naza”, dos diretores israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, chega aos cinemas brasileiros na próxima quinta-feira (8), na semana em que se completam três anos desde que o governo de Israel iniciou a resposta a um ataque do Hamas com uma série de bombardeios e práticas genocidas contra o povo palestino.

Gravado ao longo de mais de dois anos, o filme possibilita assistir aos bastidores do que jornalistas e até a Organização das Nações Unidas (ONU) já denunciavam: o exército de Israel utilizou e segue executando táticas que miram a morte de alvos civis, inclusive crianças. As ações buscam ainda destruir infraestrutura civil e impossibilitar que as famílias voltem a se alojar em sua terra.

O filme bateu recorde de tempo de palmas em sua estreia no Festival de Veneza e recebeu uma rápida reação do governo israelense. O primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, inclusive, está ameaçando tirar a cidadania dos diretores, judeus nascidos em Israel.

Yuval Abraham e Rachel Szor, diretores dos documentário “Naza” e do vencedor do Oscar “Sem Chão” | Crédito: Divulgação

IA para matar

“Naza” reúne entrevistas com 24 integrantes militares e da inteligência de Israel, que falaram sob condição de anonimato. Mostra, entre outras tecnologias, uma inteligência artificial chamada “Lavender”, usada para detectar alvos suspeitos de ligações com o Hamas. O sistema usa ligações e geolocalização dos celulares — os entrevistados afirmam que todos os telefones em Gaza são grampeados — para determinar possíveis membros do grupo armado.

Apesar de contar com uma chance de erro de pelo menos 10%, o comando da operação decidiu que era uma quantidade de inocentes que valeria a pena exterminar em nome de atingir o máximo de membros possíveis do grupo de resistência armada. Um entrevistado exemplifica um erro possível: caso alguém possuísse uma padaria próxima a um centro de treinamento do Hamas, poderia ser marcado como provável membro devido ao contato frequente com seus integrantes reais.

Outro entrevistado relatou que houve uma decisão de atingir os alvos identificados em suas casas, onde eles estariam mais despreparados. As bombas acabariam matando também suas famílias inteiras. Os mortos civis eram contabilizados como “danos colaterais”, ou, no idioma hebraico, “Nezek Agavi”. O termo era abreviado na sigla “Naza”, que dá título ao filme.

As bombas não eram atiradas automaticamente. Havia um comando humano responsável por finalizar o ataque. Outro dos entrevistados relata ter recebido permissão para matar 500 alvos civis, mirando apenas um suposto integrante do Hamas.

Onde está papai?

Outra tecnologia descrita recebeu o mórbido nome de “Onde está papai?” (“Where’s Daddy?”). Para saber quando o alvo estava em casa, os militares escutavam telefones e mensagens na casa. O sistema recebeu esse nome porque, frequentemente, o alerta era disparado quando uma das crianças celebrava que o pai havia chegado.

O cruel “Onde está papai?” também cometia erros. Em uma passagem, um dos soldados conta ter explodido uma casa com 13 membros de uma mesma família. Posteriormente, ao analisar o local, perceberam que caíram em um alarme falso e que o suposto membro do Hamas sequer estava lá.

A quantidade de alvos era impressionante. Cerca de 37 mil pessoas eram consideradas membros do Hamas. Em entrevista à NPR, o diretor Yuval Abraham relata uma conversa que teve com um dos soldados:

“Há um momento no filme em que converso com um dos oficiais, e ele explica como eles conseguiriam matar até 20 civis por alvo, e há dezenas de milhares de alvos. Eu digo a ele: ‘Mas, você sabe, se você pode matar até 20, e há dezenas de milhares deles, o resultado é…’ — e ele diz: ‘Oh, é toda a Gaza’.”

Memórias apagadas e assassinatos à queima-roupa

Conforme o genocídio avançou, as táticas mudaram. Em determinado momento, Israel ordenou que os palestinos abandonassem suas casas e se dirigissem para o sul, através do Corredor Rashid.

As entrevistas seguem durante este período. Os operadores das bombas explicam que o objetivo era, de fato, destruir a infraestrutura civil, para que os palestinos não tivessem para onde voltar. Questionado por Abraham sobre o risco de matar pessoas que não se deslocaram, por dificuldades de mobilidade ou por medo de caírem em uma emboscada, um dos entrevistados disse que estas pessoas teriam que “dar um jeito”. Fica implícito que seriam mortas.

Outro dos entrevistados integrava uma equipe terrestre responsável por incendiar os restos das casas. Ele explica que, com o tempo, desenvolveu habilidade para incinerar um imóvel completamente em oito minutos. Relata ainda que via fotos de casamento, cadernos escolares e outros objetos de provável valor sentimental. O trabalho era não deixar nada para trás.

Imagens recentemente atualizadas da plataforma Google Earth dão a dimensão do estrago. Gaza foi reduzida a ruínas. Dados da ONU apontam que há, na região, 61 milhões de toneladas de escombros e ao menos 10 mil corpos soterrados. A remoção completa pode levar entre sete e dez anos.

Comparação da cidade de Jabalia em 2023 e 2026 | Crédito: Reprodução/Google Earth

As famílias que obedeciam à regra de ir para o Sul tampouco estavam seguras. Um atirador conta que elas deveriam seguir pelo Corredor Rashid, e que sua função era balear à queima-roupa qualquer pessoa, inclusive crianças, que desviasse deste caminho.

A consciência do genocídio

Yuval Abraham relatou, em entrevistas, que os entrevistados do filme toparam falar por diferentes motivos. Parte deles arrepende-se de integrar a máquina genocida; outros envaidecem-se com isso. Mais de um dos soldados, ao justificar suas ações, diz que apenas cumpria ordens, que desempenhava um trabalho puramente operacional, que apenas seria substituído caso se recusasse.

Perto do final, um dos combatentes demonstra remorso. Ele recorda que, nascido e criado em Israel, foi com sua escola à Polônia e aprendeu sobre o nazismo. Afirma que imaginava os nazistas como pessoas sanguinárias, e hoje compreende como alguém pode matar e depois ir para casa ficar com a família. “Eu ainda acho que os nazistas são maus, mas não sei bem o que dizer sobre mim”, reflete.

Em contraposição, outro soldado defende suas ações. Ele recorda que políticos israelenses estão constantemente falando em discursos sobre “esmagar Gaza”. “O que é esmagar Gaza? É exatamente isso, machucá-los de um jeito que eles jamais consigam se recuperar”, ele diz.

Como encerramento, o próprio Benjamin Netanyahu aparece, mais jovem, em uma antiga entrevista em inglês. Ele divulgava seu livro “Combatendo o Terrorismo: Como as Democracias Podem Derrotar o Terrorismo Doméstico e Internacional”. O entrevistado pergunta, e ele dá sua própria definição de terrorismo: matar e ameaçar alvos civis com a finalidade de alcançar objetivos políticos.





Com Informações: Brasil de Fato

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