As populações indígenas são as primeiras a sofrer os impactos das mudanças climáticas, segundo estudo divulgado na revista científica britânica Humanities and Social Sciences Communications.
Em sua coluna no Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o geógrafo Wagner Ribeiro, professor de pós-graduação em Ciência Ambiental da Universidade de São Paulo (USP), explica que as mudanças de temperatura e padrões de chuva, por exemplo, afetam diretamente a oferta de alimentos de determinada comunidade.
“A temperatura mais elevada, por exemplo, vai alterar o ciclo biológico de algumas espécies que são consumidas. A fauna também muda. O pescado também muda, migra para outras áreas, às vezes águas mais quentes, às vezes águas mais frias, a depender da espécie. Então, não há dúvida de que as comunidades originárias acabam sofrendo mais duramente justamente pela sua relação com a natureza”, destaca.
O estudo aponta ainda que a manutenção de modos de vida e culturas dessas populações por todo o mundo gera benefícios na conservação de biodiversidade. Nesse sentido, ressalta o professor, as políticas públicas de preservação desses territórios deveriam ser fortalecidas.
“Existem trabalhos acadêmicos que mostram claramente que, nas terras indígenas, a conservação de todo o ambiente é muito maior até do que você ter uma unidade de conservação, por exemplo, fiscalizada por um governo estadual, municipal, federal. Isso tudo representa justamente a manutenção dos ciclos biogeoquímicos, que ocorre nessa área e que, muitas vezes, também tem repercussão para outras áreas. Nós estamos falando, por exemplo, da floresta amazônica. Se você tem ali povos originários vivendo em condição de menor agressão à natureza, eles conseguem manter a floresta em pé, mantêm a possibilidade de reposição de chuvas, mantêm a capacidade de sugar água do subsolo e, por meio da respiração, também oferecer essa água para outras áreas, os rios voadores”, destaca Wagner Ribeiro.�
Apesar de todas as evidências científicas, continua o geógrafo, infelizmente os povos originários não têm o merecido reconhecimento e acabam sofrendo diversas violências. “A gente assiste à usurpação de terras, à agressão, às vezes física, quando não verbal. A gente tem acompanhado alguns episódios lamentáveis recentemente, inclusive envolvendo autoridades de estados de destaque do Brasil, por exemplo, e quando, na verdade, [os povos indígenas] deveriam ser reconhecidos pela importância dos serviços ambientais e de manutenção dos ecossistemas”, defende Ribeiro.
Para ouvir e assistir
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