Estudo com dados públicos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que a perda de Lula foi nacional, que mobilizar só é seguro onde ele já é muito forte e que a virada depende de disputar, voto a voto, quem se afastou dele.
Lula terminou o 1º turno 2,24 milhões de votos atrás de Flávio Bolsonaro: 45,16% contra 47,04% dos válidos. Na mesma noite, começaram as contas de sempre. Uns somam os votos da terceira via, outros apostam na abstenção, outros pintam no mapa os estados que faltam virar.
Passei a última semana tentando responder com dados à pergunta que toda a militância está fazendo: onde estão os votos da virada? Cruzei o resultado de 2026 com as eleições de 2018 e 2022 e com o perfil social dos 5.570 municípios, usando apenas dados públicos do TSE e do IBGE.
A primeira versão do estudo foi publicada pela Estel Tecnologia em 5 de outubro. Desde então, refiz a parte mais delicada do modelo, e a conclusão ficou mais dura e mais clara. O 2º turno não se ganha no mapa. Ganha-se na política.
A perda foi nacional, e a base está de pé
O voto em Lula em cada município em 2026 é quase uma cópia do de 2022. A correlação entre os dois mapas é de 0,987, numa escala em que 1 seria uma cópia perfeita. Lula perdeu cerca de seis pontos em quase todo lugar, na mesma medida.
Não existe, portanto, uma região “perdida” a reconquistar. Existe um desgaste nacional, e desgaste nacional se enfrenta com política nacional: programa, comparação entre projetos de país e presença nas ruas.
A base social também resistiu. Quanto mais pobre o município, mais forte é Lula, e esse efeito se mantém mesmo comparando cidades com a mesma história eleitoral: dobrar a renda média custa a ele cerca de 2,6 pontos. Os dados descrevem municípios, não pessoas, mas apontam na direção que as pesquisas individuais já conhecem: o voto em Lula continua tendo classe.
Levar gente às urnas não é tática para todo lugar
A primeira versão do estudo indicava que mobilizar rendia votos a Lula em boa parte do mapa. Refiz essa estimativa com um método mais robusto, a inferência ecológica bayesiana, que reconstrói município a município para onde foram os votos entre os turnos de 2022. Depois, rodei 2 mil simulações para medir a margem de erro de cada número. A metodologia completa está aberta para consulta.
O resultado corrigiu a versão anterior. Onde Lula passou de 65% no 1º turno de 2022, três em cada quatro eleitores que voltaram às urnas votaram nele. Onde ele teve menos de 35%, só um em cada cinco. No meio do mapa, o comparecimento extra se dividiu quase ao meio.
Isso tem consequência prática. Entre os 200 municípios com mais votos a recuperar, mobilizar é seguro em 25, quase todos cidades médias do interior do Nordeste, como Crato, Barbalha, Araripina, Ipirá e Barreirinhas. Em 97, levar mais gente às urnas favorece o adversário. Nos outros 78, os dados não decidem, e uma campanha de comparecimento é aposta, não tática.
O mapa abaixo mostra, município a município, onde Lula tem mais votos a recuperar e se a mobilização ali ajuda ou atrapalha.
Onde estão os votos
Somados, os 200 municípios prioritários guardam cerca de 459 mil votos, com margem de 407 mil a 514 mil. É um quinto da diferença do 1º turno, e quase tudo vem de quem votou em Lula em 2022 e se afastou. É voto de conversa, não de convocação.
Duas frentes concentram esse potencial. A região metropolitana de São Paulo tem cerca de 110 mil votos a buscar e é a única frente em que o próprio resultado local está em disputa. Goiás e o entorno de Brasília, onde Lula teve a maior queda do país, de 10,3 pontos, somam outros 106 mil.
O Nordeste urbano vem em seguida, com 89 mil votos, e é a frente mais incerta, porque é a única em que a mobilização pesa de verdade. O Sul soma 66 mil, e Minas Gerais, 52 mil, espalhados por muitos municípios, o que exige trabalho de base capilar, e não concentrado.
A terceira via não vai entregar a eleição
Em 2022, mesmo com o apoio declarado de Simone Tebet e Ciro Gomes, Lula ficou com 35% a 59% dos votos da terceira via que escolheram um dos dois candidatos, conforme o município. Em 2026, a terceira via de Cury, Renan Santos, Caiado e Zema está mais à direita.
Se o movimento entre os turnos de 2022 se repetisse, a diferença passaria de 2,24 milhões para algo entre 6,5 e 7 milhões de votos. É uma estimativa de modelo, não previsão, mas ela mostra o tamanho do problema: os 459 mil votos do mapa não compensam uma transferência desfavorável.
A boa notícia está na própria história. Em 2018, a margem do PT melhorou 7,2 milhões de votos entre os turnos. Em 2022, piorou 4 milhões. Uma variação de mais de 11 milhões de votos entre uma eleição e outra mostra que o 2º turno não está escrito nos dados. Ele depende do que a campanha, os movimentos e a militância fizerem nas próximas semanas.
O que fazer com isso
A primeira lição é não esperar acordo de cúpula. O eleitor da terceira via precisa ser disputado diretamente, na conversa, no local de trabalho, no bairro e na família, com a comparação concreta entre o que o país viveu sob Bolsonaro e o que vive agora.
A segunda é concentrar a mobilização onde ela é segura, nas cidades em que Lula já é muito forte, e trocar a convocação pela persuasão no resto do mapa. Em São Paulo e em Goiás, o trabalho é reconquistar quem saiu.
A terceira é tratar os números com honestidade. Uma análise que só diz o que gostaríamos de ouvir não serve para decidir nada. Estes dados não dão chance de vitória e não substituem as pesquisas de intenção de voto. Eles mostram onde cada esforço rende mais e onde pode atrapalhar.
O mapa aponta onde a margem é mais barata. A vitória depende de política, organização e gente na rua. É isso que está em jogo até o dia 25.
O estudo completo, com todos os dados, algoritmos e modelos estatísticos utilizados, pode ser encontrado aqui.
*Rafael da Guia é militante do Movimento Brasil Popular, coordenador da Estel Tecnologia e pós-graduando em Computação Quântica pela PUC Minas.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.













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