Após mais de 15 anos da promulgação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), a taxa de coleta seletiva no município de São Paulo não chega a 3% do total de lixo recolhido na cidade, valor muito menor que a meta de 10%, estipulada na época, para o atual período.
Uma pesquisa inédita da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) registra que houve avanços “tímidos” na coleta de material reciclável na capital paulista, saindo de 0,6% do total, em 2006, para 2,85%, em 2024.
O estudo aponta que o sistema paulistano continua o mesmo desde 2017, com três centros de recolhimento para todo o município: a Central de Tratamento Leste, a Central de Disposição de Resíduos Pedreira e a Central de Tratamento de Resíduos Caieiras, operando em articulação com as três estações de transbordo regulamentadas (Vergueiro, Santo Amaro e Ponte Pequena).
Da mesma forma, o subsistema de triagem automatizada permaneceu inalterado no período, operando por meio das Unidades de Recuperação de Materiais Ponte Pequena e Carolina Maria de Jesus, ambas com capacidade de 250 toneladas/dia.
Nesse sentido, o estudo da FSP-USP observou um cenário de estagnação na capacidade física de processamento do município entre os anos de 2017 e 2025, estabelecendo um teto difícil de ser superado sem novos aportes de capital, tecnologia e governança.
A pesquisa indica ainda desigualdades em duas pontas do sistema: na origem dos materiais coletados, com maior volume vindo dos bairros mais ricos, e na coleta em si, com as cooperativas de catadores sem apoio ou remuneração.
“Quinze anos após, a avaliação retrospectiva da gestão de Resíduos Sólidos Urbanos (RSU) e da logística operacional da coleta seletiva formal na cidade de São Paulo revela um avanço incremental, porém marcadamente tímido, no crescimento absoluto da massa desviada dos aterros sanitários. O sistema municipal opera sob severas limitações estruturais”, define o artigo assinado pelas professoras da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP) Helena Ribeiro e Wanda Maria Risso Gunther, e pela pesquisadora Adriana Fonseca Braga.
O artigo, que está em fase de pré-edição para publicação na revista suíça especializada Waste, faz um levantamento inédito da rede de coleta paulistana entre 2006 e 2024. A média identificada foi de 274,36 toneladas por dia — correspondendo a menos de 10% da meta originalmente estipulada, de 3 mil toneladas por dia, em 2017.
A professora Ribeiro destaca que, apesar dos números, São Paulo tem resultados maiores que a média nacional, entre outras razões, pela proximidade com indústrias que aproveitam ou reciclam materiais. Segundo o Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico do Ministério das Cidades, apenas 1,82% dos resíduos recicláveis secos e orgânicos foram recuperados no Brasil em 2023.
Para os materiais recicláveis secos, a quantidade registrada foi de 1,17 milhão de toneladas por ano, enquanto os materiais orgânicos correspondem a 0,16 milhão de toneladas.
“Ela [a PNRS] é uma lei bem avançada, uma lei que foi extremamente debatida. As empresas, os empresários participaram de reuniões, o poder público participou, eu participei de algumas e lamento muito que ela não tenha sido aplicada. Ela não tem tido uma aplicabilidade. Ela não tem uma assunção por parte da sociedade”, critica o sociólogo Pedro Ponta, que trabalha com coleta seletiva há cerca de 20 anos.
Em nota, a prefeitura de São Paulo informou que “a atual gestão foi responsável por levar a coleta seletiva para 100% das vias da cidade em 2024”.
Ainda segundo a prefeitura, nos últimos anos, “foram realizados investimentos para ampliar os Pontos de Entrega Voluntária (PEVs), renovar a frota e implantar tecnologias de monitoramento e rastreabilidade” e informou também que “os contratos de concessão preveem a construção de novos transbordos, o retrofit das unidades existentes e a implantação dos Ecoparques”.
Nesta quarta-feira (22), a partir das 18h, no Centro Cultural São Paulo (CCSP), a prefeitura de São Paulo e a ONU-Habitat realizam uma audiência pública para apresentar o diagnóstico, os estudos técnicos, as metas e as ações previstas para a gestão de resíduos sólidos da cidade nos próximos 20 anos.
Catadores sem apoio
Uma das questões apontadas pela pesquisa é a falta de apoio para os catadores que contribuem definitivamente para a coleta e cujos benefícios e incentivos estão previstos na PNRS.
“Enquanto as empresas concessionárias — embora oneradas contratualmente por investimentos em infraestrutura de expansão — recebem contraprestação regular pelos serviços prestados, as cooperativas de coletores carecem de remuneração direta pela prestação do serviço público de coleta e triagem”, indica a pesquisa.
“É terrível que não tenhamos tido avanço nenhum em 16 anos, no sentido de as municipalidades assumirem a remuneração. Porque, se eles assumissem a remuneração, a gente teria um número maior de cooperativas, uma maior organização social e uma abertura de postos de trabalho e de geração de trabalho e renda”, destaca Ponta, que reclama também da falta de apoio à infraestrutura para o trabalho e contesta ainda a existência de carroceiros em um município como São Paulo.
“É um absurdo ainda termos tração humana para esse trabalho. Ao puxar uma carroça de 400, 500, 600 quilos, os catadores acumulam doenças nas plantas dos pés, nas mãos, em todas as articulações, problemas de hérnia, um sem número de doenças, além do envelhecimento precoce. Pessoas com 30 anos que parecem ter 60”, complementa.
Ponta, inclusive, critica a gestão de Ricardo Nunes (MDB), que, como em outras áreas da municipalidade, tem priorizado a iniciativa privada. “A política de São Paulo, de (o ex-prefeito) João Doria para cá, é a privatização de tudo da cidade e, por consequência, dos seus serviços”, disse o sociólogo, que lembra que as empresas poderiam assumir também contratação de serviços dessa população.
“Mas eles estão contratando o serviço de startups, que são empresas novas, que vão prestando serviço com uma visão mercantilista, uma visão capitalista da coisa, sendo que o serviço de resíduos está objetivamente mais conectado à questão da saúde pública”, ressalta.
Nesse cenário, a Cooperativa de Catadores Autônomos de Papel, Aparas e Materiais Reaproveitáveis (Coopamare), a mais antiga cooperativa de materiais recicláveis do país, junto com moradores do bairro de Pinheiros e organizações da sociedade civil, fez uma manifestação no dia 4 de julho, por causa da ameaça de ser despejada pela prefeitura de São Paulo.
A Subprefeitura Pinheiros informou que ofereceu “quatro áreas à Coopemare para a continuidade das atividades de reciclagem, mas nenhuma delas foi aceita pelo grupo até o momento” e que “a permissão de uso do espaço atual está cancelada desde 2023 por conta dos riscos de incêndio que o acúmulo de materiais potencialmente inflamáveis causa”. A defesa apresentada pela cooperativa está em análise.
Além dos catadores, as cooperativas contam também com outros trabalhadores na triagem. O município conta com 29 cooperativas cadastradas. Em 2025, essas organizações foram responsáveis pela coleta e triagem de 28.200 toneladas de resíduos secos para triagem e processamento, o que equivale a cerca de 28% do total da cidade.
Porém, apenas quatro cooperativas absorveram 43% desse material. O perfil de trabalhadores na reciclagem revela ser um setor com maioria feminina, com cerca de 60% de cooperadas mulheres. Do total dos cooperados, 53% recebem de um a três salários mínimos.
Do outro lado, em 2024, Nunes renovou os contratos de coleta de lixo na capital, sem licitação, alegando que a licitação feita há 20 anos pela então prefeita Marta Suplicy permite a prorrogação por mais 20 anos. O consórcio Limpeza Urbana S/A, atual Loga (Logística Ambiental de São Paulo), e a empresa Ecourbis Ambiental S/A foram recontratados pela prefeitura por R$ 9,836 bilhões. O caso foi parar na Justiça e a prefeitura venceu as ações que contestavam a renovação.
Na época, o Tribunal de Contas do Município (TCM) deu aval para os contratos, mas estabeleceu recomendações, entre elas, a implementação de três ecoparques com unidades de recuperação energética, modernização de unidades de triagem e a apresentação de um cronograma detalhado de metas de reciclagem de materiais secos e orgânicos.
Sobre as concessões, a SP Regula, agência responsável pela fiscalização e gestão da coleta seletiva, alegou que “não houve renovação dos contratos sem licitação, mas sim a prorrogação dos contratos vigentes, mecanismo previsto na legislação e nos próprios contratos para garantir a continuidade dos serviços”. Quanto às recomendações do TCM, a agência disse adotar “as providências cabíveis para atender às determinações”.�
Centro x periferia
A pesquisa mostrou também uma concentração da coleta nas áreas nobres de São Paulo. A campeã em reciclagem é a Vila Mariana, com 12,37% do total de resíduos coletados, seguida pela Sé (9,90%) e Pinheiros (6,59%). Enquanto isso, a periferia das zonas Leste e Norte está na lanterna da coleta, com Itaim Paulista respondendo por 0,52%, São Miguel Paulista por 0,53%, Cidade Tiradentes por 0,66% e Perus por 0,58% do total.
“Essa assimetria indica que a alocação prévia de serviços urbanos consolidados e o padrão de consumo de bens de alto valor agregado atuam sinergicamente como facilitadores dos fluxos de massa de reciclagem”, escrevem as pesquisadoras, evidenciando “o fenômeno da injustiça ambiental no que diz respeito à eficácia dos serviços de gestão de resíduos sólidos.”
Educação, diversificação e sustentabilidade fiscal
Para Ribeiro, há diversas ações que podem garantir a ampliação da coleta seletiva e tratamento de resíduos. Um dos pontos que chama atenção da pesquisadora, inclusive por experiência pessoal, é a falta de informação e divulgação da coleta para a população.
“A prefeitura anuncia que os caminhões passam em todas as ruas da cidade e realmente eles têm passado. Só que a população não sabe disso. Ela não sabe o dia em que a coleta passa na sua casa. Você tem que entrar no site da prefeitura, colocar lá a coleta seletiva, pôr o nome da sua rua e aí saber a hora que o caminhão passa”, conta a professora, que sugere uma ação de comunicação eficaz.
A prefeitura disse que “mantém campanhas permanentes de conscientização ambiental, uma vez que a adesão da população é essencial para atingir a meta de 10% de recuperação de recicláveis prevista no PGIRS.
Nessa linha, o estudo traz também uma série de recomendações para o Poder Público, divididas em quatro eixos fundamentais.
Fortalecimento Institucional e Sustentabilidade Fiscal: com a aprovação e a execução orçamentária rigorosa de um novo planejamento integrado com metas viáveis, além de uma taxa ou tarifa específica de gestão de resíduos que garanta o financiamento.
Diversificação e inclusão: com projetos-piloto para a coleta seletiva em distritos centrais com maior densidade vertical e ampliação de apoio aos catadores.
Comunicação a partir das territorialidades e da educomunicação: criar estratégias de engajamento social e mobilização com campanha educativa personalizada, adequada ao perfil socioespacial de cada subprefeitura, com integração da comunicação digital e presencial para ampliar a adesão voluntária, historicamente baixa.
Transparência de dados e governança: auditoria e monitoramento contínuo da SP Regula exigem mecanismos rigorosos de auditoria e monitoramento contínuo, e entre secretarias.













Deixe um comentário