Uma nova edição, com capítulo inédito, do livro “O Crime do Cais do Valongo”, de Eliana Alves Cruz, foi lançada pela editora Record. A obra combina ficção histórica e suspense e convida o leitor a investigar as cicatrizes deixadas pela escravidão no Brasil. A história se desdobra entre Moçambique e o Rio de Janeiro, acompanhando duas trajetórias que se entrelaçam: a do livreiro mestiço Nuno Alcântara Moutinho e a de Muana Lomué, uma mulher moçambicana escravizada.
Para Cruz, relançar a obra, dez anos depois, em um ano em que a Organização das Nações Unidas (ONU) reconheceu a escravidão como o maior e mais extenso crime contra a humanidade, é uma forma de também “lembrar para não esquecer”.
“Nada é uma coisa só o tempo todo. A gente tem fluxos e refluxos. De lá para cá, muita coisa aconteceu. A sociedade caminhou muito. Tem uma tentativa de retrocesso em curso e sempre haverá. Não existe direito e conquista para sempre. A gente vai sempre querer quem queira suprimi-la. Olha aí o Congresso querendoa descriminalização do racismo”, afirma a escritora.
Além disso, ela menciona o certo desconhecimento que boa parte do Brasil tem com relação à África, ficando quase sempre restrito a esse cenário terrível da escravidão. Mas há mais e além. E histórias, sejam ficcionais ou reais, servem também para a construção dessa memória. “O Rio de Janeiro, por exemplo, é massivamente moçambicano e angolano. Trazer essa personagem de volta é uma vontade de volta, de resgate de um laço que a gente propositalmente cortou”, afirma.
Eliana Alves Cruz conta como surgiu a ideia de usar o cais do Valongo como inspiração. Na época, ela trabalhava com esportes e estava acompanhando a transformação daquela região do Rio de Janeiro para receber os Jogos Olímpicos. “Eu acompanhei um pouco as obras e aqueles objetos [encontrados nesse processo] me encantaram e me levaram a pensar: quem foram as pessoas que usaram esses anéis, esses pingentes, essas contas que foram enterradas, que ficaram 200 anos dormindo debaixo da Terra?”, reflete.
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