Segundo o estudo da TV Brics “Desenvolvimento das indústrias criativas: países do Brics”, as indústrias criativas (IC) impulsionam a inovação, aumentam a competitividade das cidades, contribuem para o desenvolvimento sustentável e fortalecem a promoção das exportações. Ao mesmo tempo, investidores ainda consideram esse setor com menor frequência como uma área independente de investimento em comparação com segmentos tradicionais, como comércio e construção.
A economia global avança gradualmente para um modelo no qual conhecimento, propriedade intelectual, tecnologias e capital criativo assumem um papel cada vez mais relevante. A ONU considera a economia criativa (EC) um dos fatores do desenvolvimento sustentável. O mercado global das indústrias criativas foi estimado em US$ 2,9 trilhões (R$ 15 trilhões) em 2024 e pode superar US$ 4,3 trilhões (R$ 22 trilhões) até 2033, com crescimento médio anual de 4,3%. As IC representam cerca de 3,1% do PIB mundial, 3% do comércio global e mais de 6% dos empregos. Alguns segmentos do setor registram crescimento de até 8% ao ano, em determinados casos, o dobro do ritmo de expansão de setores tradicionais.
As indústrias criativas abrangem áreas como design, arquitetura, educação, publicidade, novas mídias, artes visuais, cinema, joalheria, música, museus e outras atividades baseadas na criação e comercialização de produtos intelectuais e culturais.
A atividade criativa é baseada no conhecimento e no trabalho intelectual. Nesse contexto, a economia da experiência ganha cada vez mais importância: nela, o valor de um produto é determinado não apenas por suas características funcionais, mas também pelas emoções, pelo contexto cultural, pela marca e pela experiência proporcionada ao consumidor. Na prática, a criatividade tornou-se um fator econômico estratégico, capaz de gerar empregos, atrair receitas de exportação e movimentar renda significativa. Sua contribuição para o PIB mundial pode alcançar 10% até 2030.
A análise das estratégias nacionais e dos indicadores econômicos permite identificar três modelos consolidados de desenvolvimento do setor criativo dentro do grupo. O primeiro é o modelo de inovação tecnológica, predominante na China e nos Emirados Árabes Unidos, países que contam com ampla infraestrutura tecnológica e disponibilidade de capital. O segundo é o modelo híbrido, representado pela Rússia e pelo Brasil, que combinam grande potencial de recursos humanos e amplos mercados consumidores. O terceiro é o modelo tradicional-cultural, presente na África do Sul, Índia, Egito, Irã e Etiópia, onde parte significativa do potencial está associada ao patrimônio cultural e à identidade nacional.
O principal potencial de investimento do Brics+ não está apenas em mercados nacionais isolados, mas na combinação das vantagens competitivas de cada país.
Especialista em economia e negócios e doutor em Ciências Econômicas, Gueorgui Grits destaca que as vantagens competitivas do Brics+ na economia criativa ainda são pouco exploradas pelo mercado global.
“As indústrias criativas do Brics+ representam um mercado com enorme potencial, que reúne o capital do Oriente, a demografia da África, as tecnologias modernas da China e da Eurásia, além da liderança nos mercados de matérias-primas e energia, incluindo elementos de terras raras. A geração da demanda do consumidor e a definição de preferências permanecem, em grande medida, sob controle ocidental. É justamente em estruturas como o Brics e a Organização para Cooperação de Xangai [OCX] que surge um modelo de ordem mundial multipolar. Para muitos países participantes do Brics+, uma prioridade no desenvolvimento de suas próprias indústrias criativas é ampliar a exportação de bens e serviços”, diz Gueorgui Grits, especialista em economia e negócios, doutor em Ciências Econômicas.
O especialista acrescenta que um dos elementos importantes da cooperação pode ser o fortalecimento do próprio mercado de indústrias criativas.
Segundo o estudo da TV Brics “Desenvolvimento das indústrias criativas: países do Brics”, a participação da economia criativa no PIB da Indonésia é de 7,3%. Na China, o indicador chegou a 4,6% em 2024. A Rússia apresenta resultados semelhantes: a participação das indústrias criativas no PIB alcançou 4,1% no mesmo período. O Brasil e os Emirados Árabes Unidos registram níveis próximos, com 3,6% e 3,5%, respectivamente. No Egito, estimativas iniciais indicavam uma participação inferior a 1%, enquanto dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) de 2024 permitem estimar o indicador em cerca de 3%. Na África do Sul, a economia criativa representou aproximadamente 3% do PIB em 2023. No entanto, comparações entre países devem ser analisadas com cautela devido às diferenças nos métodos nacionais de classificação e contabilização das indústrias criativas.
Em volume econômico, a China lidera o setor, com US$ 879 bilhões (R$ 4,5 trilhões). Em seguida aparecem a Indonésia, com US$ 105 bilhões (R$ 546 bilhões); a Rússia, com US$ 87 bilhões (R$ 452 bilhões); e o Brasil, com US$ 78 bilhões (R$ 405 bilhões). No mercado de trabalho, destacam-se a Indonésia, onde 18,7% da força de trabalho está empregada em setores criativos, o Egito, com 15%, e a Índia, com 8,3%. Em números absolutos, a Índia concentra cerca de 50 milhões de trabalhadores nas áreas criativas, enquanto a China possui aproximadamente 30 milhões e a Indonésia, 27,4 milhões de pessoas empregadas nesses setores.
No comércio exterior, permanece uma alta concentração. A China e os Emirados Árabes Unidos respondem por mais de 60% das exportações de produtos criativos do Brics+, enquanto Rússia, Brasil e Indonésia, juntos, representam menos de 15%.
De acordo com o estudo da TV Brics, entre os principais desafios estão a distribuição desigual do apoio estatal, a falta de financiamento, o desequilíbrio entre produção e exportação, a desigualdade digital e a ausência de estatísticas comparáveis entre os países.
As diferenças entre os países também se refletem nos mecanismos de incentivo ao setor. A China e os EAU contam com programas centralizados de desenvolvimento vinculados a estratégias nacionais e instrumentos de apoio direcionado. Na Rússia, Índia e Brasil, uma parcela significativa das iniciativas de incentivo é estruturada nos níveis regional e privado. Já no Egito e na Etiópia, a base legislativa e institucional da economia criativa ainda está em processo de formação.
Outro desafio está relacionado às diferentes formas de definir e contabilizar as indústrias criativas. A ausência de uma metodologia comum para avaliar indicadores como PIB, emprego, exportações e valor agregado dificulta tanto as comparações internacionais quanto a formulação de políticas conjuntas.
O acesso ao financiamento continua sendo uma limitação importante. Muitas empresas criativas enfrentam dificuldades para obter produtos bancários especializados, investimentos de capital de risco e linhas de crédito com condições favoráveis, já que o sistema financeiro tradicional costuma priorizar ativos materiais. Uma das formas de reduzir essa lacuna são os mecanismos de apoio público-privado, que vêm sendo ampliados principalmente na China e nos Emirados Árabes Unidos.
A desigualdade digital também limita a expansão dos negócios criativos. O nível de acesso à internet varia significativamente entre os países do Brics+, passando de 99% nos Emirados Árabes Unidos para 38% na Etiópia. Outro fator restritivo é a cautela dos investidores de capital de risco. Nos últimos anos, o número de operações de venture capital no mundo vem diminuindo, enquanto os investimentos se concentram cada vez mais em áreas tecnológicas tradicionais desse mercado, especialmente relacionadas às tecnologias da informação e comunicação. Esse cenário reduz o acesso ao financiamento para uma gama mais ampla de setores criativos e mercados emergentes, além de elevar as exigências para projetos que buscam atrair capital privado.
China e Emirados Árabes Unidos: modelo de inovação e tecnologia
O Índice Global de Inovação (GII) é publicado anualmente desde 2007 pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) e seus parceiros. O GII 2025 abrangeu 139 países, e o sistema de avaliação incluiu 79 indicadores. Isso permite analisar a eficiência dos sistemas nacionais de inovação.
A China é um dos exemplos mais expressivos de integração entre economia e desenvolvimento tecnológico. No GII 2025, o país ocupou o 10º lugar e concentrou 24 dos 100 principais clusters de inovação do mundo. A China também liderou globalmente em atividade de patentes e manteve posições de destaque nos resultados de pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico. Ao mesmo tempo, o país ocupa o segundo lugar no mundo em investimentos de capital de risco em estágios avançados, o que reflete o papel crescente do capital privado no desenvolvimento de empresas inovadoras.
Entre os maiores centros de inovação do país estão Shenzhen, Guangzhou, Pequim e Xangai. As exportações de alta tecnologia e a posição da China nas cadeias globais de criação de valor continuam se fortalecendo, especialmente em setores estratégicos, incluindo semicondutores e tecnologias verdes. A infraestrutura tecnológica e financeira cria uma base para a expansão de negócios inovadores e criativos.
A China desenvolve de forma consistente o comércio cultural, bases nacionais de exportação, incentivos fiscais, subsídios, financiamento de projetos e centros de formação profissional. Um elemento importante dessa política são as medidas destinadas a promover o desenvolvimento de alta qualidade do comércio cultural exterior. Diferentes órgãos governamentais apoiam o comércio cultural digital, a exportação de publicações e direitos autorais, programas de rádio, televisão e cinema, produtos de artes visuais e decorativas, além de serviços culturais e de design. Ao mesmo tempo, o país estimula a exportação da culinária chinesa e da medicina tradicional chinesa.
Como resultado, a política estatal vem deslocando gradualmente o foco do conceito “Feito na China” para o modelo “Manufatura inteligente na China”, no qual a produção de produtos intelectuais dentro do país ganha cada vez mais importância.
Os Emirados Árabes Unidos desenvolvem seu próprio modelo por meio da concentração de infraestrutura financeira, urbana e cultural. O país pretende aumentar a participação do setor criativo na estrutura do PIB para 5% até 2031, enquanto sua posição no GII 2025 alcançou o melhor resultado histórico, chegando ao 30º lugar. Dubai é um centro financeiro e criativo internacional, atraindo eventos culturais, empresas e investimentos internacionais.
Modelo híbrido
O modelo híbrido é desenvolvido por Rússia, Brasil e Indonésia. Esses países combinam mecanismos de mercado com instrumentos culturais, apoiando-se na demanda interna e no desenvolvimento regional.
A Rússia está formando sua própria abordagem institucional para o desenvolvimento da economia criativa. A legislação destaca quatro áreas principais: patrimônio histórico e cultural, literatura e artes, tecnologias da informação e comunicação e criatividade aplicada.
O Governo da Rússia aprovou a Estratégia de Desenvolvimento da Economia Criativa até 2036. O documento define a EC como um sistema no qual o valor agregado é criado por meio da atividade intelectual e do trabalho criativo, enquanto o ecossistema inclui condições institucionais, interação entre participantes, produção e promoção de produtos, educação, logística, comércio e tecnologias.
A Rússia fortalece gradualmente seu papel como plataforma de interação entre os mercados criativos dos países parceiros, ao mesmo tempo em que desenvolve sua própria infraestrutura de produção e comercialização de produtos intelectuais.
O valor agregado bruto da economia criativa da Rússia em 2025 alcançou 8,26 trilhões de rublos (cerca de R$ 501 bilhões). A participação do setor criativo no PIB do país chegou a 4,2%, contra 6 trilhões de rublos (aproximadamente R$ 364 bilhões) e 3,8% do PIB em 2023. O volume da EC é estimado em cerca de 7,5 trilhões de rublos (aproximadamente R$ 455 bilhões).
Na Rússia, o valor agregado bruto da EC cresceu 65% em cinco anos, considerando a inflação, enquanto o PIB do país aumentou 15,9%. Dessa forma, a economia criativa cresceu aproximadamente quatro vezes mais rápido que o PIB.
O setor emprega 4,5 milhões de pessoas, o equivalente a 6,2% de todos os trabalhadores do país. Ao mesmo tempo, observa-se uma grande diferença no nível de desenvolvimento entre os segmentos. Cinco das maiores áreas, como software, publicidade e relações públicas, gastronomia, arte de performance e arquitetura, respondem por 75% do valor agregado bruto das indústrias criativas. Já os cinco setores de menor volume, como design, moda, música, artesanato popular e videogames, representam apenas 1,4%, o que indica um potencial significativo de crescimento futuro.
Na economia criativa russa em 2025, o software respondeu por 39,29% do valor agregado bruto, publicidade e relações públicas por 15,08%, arte de performance por 11,31%, arquitetura e planejamento urbano por 6,97%, gastronomia por 6,22%, lazer e entretenimento por 4,72%, mídia e imprensa por 4,4% e cinema e séries por 3,56%.
O Brasil também possui um potencial significativo: a economia criativa representa cerca de 2,91% do PIB e movimenta mais de US$ 43 bilhões por ano (aproximadamente R$ 224 bilhões). São Paulo está entre os três principais centros criativos da América Latina. A política pública brasileira inclui medidas de combate à pirataria, apoio a fundos culturais, desenvolvimento da educação e incentivo a pequenos negócios, inclusive em cidades menores.
A Indonésia apresenta uma das maiores participações da economia criativa no PIB entre os países analisados, com 7,3%. O país desenvolve ativamente a exportação de produtos alimentícios, especiarias e ervas locais, além de atrair investimentos para esse setor.
Modelo tradicional-cultural
A Índia, a África do Sul, o Egito, o Irã e a Etiópia possuem um importante potencial cultural que ainda não foi totalmente convertido em valor econômico. Esse modelo se apoia em setores como artesanato, patrimônio histórico, cinema, turismo e identidade nacional. Ao mesmo tempo, a digitalização amplia gradualmente as possibilidades de comercialização do capital cultural.
A Índia é um dos exemplos mais representativos da combinação entre capital humano, economia digital e indústrias criativas. Segundo o estudo da TV Brics “Desenvolvimento das indústrias criativas: países do Brics”, o país reúne esses três elementos como base para o desenvolvimento do setor. No GII 2025, a Índia manteve o status de economia que apresenta resultados acima do esperado considerando seu nível de desenvolvimento econômico. O país integra esse grupo há 15 anos consecutivos, desde 2011, apesar de ser classificado como uma economia de renda média.
Nos setores criativos do país trabalham cerca de 50 milhões de pessoas, o equivalente a 8,3% da força de trabalho. Mumbai continua sendo um dos maiores centros da indústria cinematográfica mundial. A participação da Índia no mercado global de animação e efeitos visuais pode crescer de 10% para 25% até 2030, o que pode gerar entre 75 mil e 125 mil novos empregos. Cada posto de trabalho criado na indústria cinematográfica gera, em média, 3,7 empregos adicionais em setores relacionados, como turismo e transporte. Uma vantagem estratégica da Índia está na combinação entre um amplo mercado de trabalho, uma infraestrutura digital desenvolvida e posições consolidadas no setor de serviços de tecnologia da informação. Isso cria condições para conectar indústrias criativas tradicionais a soluções tecnológicas e desenvolver novos modelos de exportação.
O Irã combina um importante capital cultural com um potencial significativo de desenvolvimento inovador. No GII 2025, o país ocupou a 70ª posição e entrou no grupo das economias de renda média que mais avançaram no ranking desde 2013. O setor criativo iraniano inclui produção cinematográfica, animação, jogos, design, artesanato e turismo. O país conta com um parque especializado em indústrias culturais e criativas, que reúne empresas, startups e projetos em áreas como cinema, música, animação, jogos, joalheria, artesanato, turismo e tecnologia da informação. Um dos principais focos é a comercialização de desenvolvimentos, o avanço tecnológico e a criação de empregos. O cinema ocupa uma posição de destaque, funcionando simultaneamente como setor econômico e instrumento de presença cultural internacional do Irã.
O Egito e a África do Sul possuem grande potencial para ampliar o desenvolvimento do setor, mas ainda necessitam de investimentos e infraestrutura. No Egito, estimativas iniciais indicavam uma participação inferior a 1% do PIB, enquanto dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) de 2024 permitem estimar esse indicador em cerca de 3%.
A África do Sul dedica atenção especial ao desenvolvimento de mídias audiovisuais, especialmente à produção de conteúdo e à exportação de serviços de mídia, por meio da atração de investimentos públicos.
A Etiópia apresenta atualmente alguns dos menores indicadores de participação da economia criativa no PIB (0,9%), mas possui um patrimônio cultural único e potencial para ampliar o desenvolvimento das indústrias criativas. Para o país, o principal desafio é criar condições para que os recursos culturais possam se transformar em produtos comercialmente sustentáveis, novos empregos e oportunidades de exportação.
Cidades do Brics+ como clusters de investimento
As cidades se tornam os principais pontos de concentração do capital criativo. Elas formam um sistema distribuído de especialização, reunindo talentos, tecnologias, educação, infraestrutura e investimentos.
Segundo dados do ranking de atratividade inovadora das cidades globais (HSE GCII) de 2024, as cidades do Brics+ apresentam crescimento expressivo em áreas como indústria de jogos, design e arte digital. Os líderes do ranking entre as cidades do Brics+ foram Xangai (7º lugar) e Pequim (9º lugar), que se consolidaram como grandes centros de desenvolvimento tecnológico e de animação.
Guangzhou e Hangzhou fortaleceram significativamente suas posições graças ao desenvolvimento dos esportes eletrônicos, de grandes empresas de tecnologia da informação e de modernos estúdios de animação. Moscou ocupou a 15ª posição, demonstrando forte potencial nos setores de design industrial e tecnologia da informação. São Paulo (22º lugar) continua sendo um importante centro das indústrias musical e arquitetônica da América Latina. Mumbai (36º lugar) mantém sua liderança na produção cinematográfica e no setor de animação. Dubai avançou 38 posições, chegando ao 38º lugar, confirmando que a indústria de luxo e a arquitetura podem atuar como motores do setor criativo. Teerã, ao subir da 108ª para a 71ª posição, demonstrou avanços nas áreas de arquitetura e design de joias.
Essa abordagem permite considerar as cidades não como plataformas concorrentes com a mesma especialização, mas como elementos de um sistema produtivo distribuído, no qual cada metrópole desempenha uma função própria dentro de uma cadeia de produção integrada.
Infraestrutura de inovação e base tecnológica
A digitalização é um dos fundamentos para a expansão da economia criativa. Tecnologias em nuvem, inteligência artificial, redes de alta velocidade, capacidade computacional e plataformas digitais permitem distribuir produtos praticamente sem limitações territoriais.
Em 2024, o crescimento do capital de risco esteve amplamente relacionado a grandes investimentos no setor de inteligência artificial. A China ocupa o segundo lugar no mundo em investimentos de capital de risco em estágios avançados, número de pedidos de patentes e eficiência de supercomputadores. Os Emirados Árabes Unidos ocupam a 30ª posição no GII 2025 e continuam desenvolvendo um ambiente favorável para negócios tecnológicos e criativos. A Índia ocupa posições de destaque na exportação de serviços de tecnologia da informação. O Brasil está na 52ª posição, a Indonésia na 55ª e a Rússia na 60ª.
A computação em nuvem, as redes 5G e as modernas capacidades de processamento reduzem os custos de produção e distribuição de conteúdo digital, além de ampliar as possibilidades de expansão em escala. A inteligência artificial permite aproximar criadores de indústrias criativas e público, reduz os custos de produção de determinados tipos de conteúdo digital e cria novos modelos de monetização. Como resultado, a infraestrutura tecnológica deixa de ser apenas um elemento de apoio e passa a ser um dos principais ativos da economia criativa.
No âmbito do Brics+, plataformas digitais compatíveis, soluções de pagamento, instrumentos de licenciamento e sistemas de gestão de direitos digitais podem formar uma estrutura tecnológica para o desenvolvimento de uma economia criativa transfronteiriça. Ao mesmo tempo, a infraestrutura tecnológica, por si só, não gera valor econômico final: o principal resultado de sua utilização é o produto intelectual, que pode ser protegido, licenciado e transformado em um ativo independente.
Razões para o déficit de financiamento das indústrias criativas
O principal desafio do financiamento das indústrias criativas está na incompatibilidade entre a natureza dos ativos criativos e as exigências tradicionais do setor financeiro. Uma startup criativa pode não possuir um grande volume de imóveis ou equipamentos, mas contar com um catálogo musical, uma franquia de jogos, uma patente, um roteiro ou um personagem reconhecido capaz de gerar fluxos de receita futuros.
Para o setor bancário, isso exige uma mudança na avaliação baseada principalmente em garantias materiais para uma análise que considere os fluxos financeiros futuros, a qualidade da propriedade intelectual e a sustentabilidade do modelo de negócios. Em outras palavras, a questão central não é apenas quais recursos o projeto possui atualmente, mas também qual fluxo econômico seu ativo intelectual poderá gerar no futuro.
O especialista Gueorgui Grits destaca barreiras sistêmicas que dificultam a expansão dos negócios criativos no Brics+. Entre elas estão a competição entre países por áreas de influência nos mercados regionais, a ausência de uma estratégia clara de desenvolvimento da economia criativa dentro do grupo, a falta de critérios formalizados para análises comparativas e de uma terminologia comum, além do excesso de burocracia na proteção dos direitos autorais e da fragilidade dos mecanismos de aplicação da legislação em nível internacional.
Grits também destaca as dificuldades de acesso ao capital de risco e aos investimentos de longo prazo. “Para garantir recursos suficientes às indústrias criativas, seria conveniente criar instrumentos regionais de financiamento para o empreendedorismo criativo baseado na cooperação entre países, como um Fundo de Apoio ao Empreendedorismo Cultural dos países do Brics+ ou programas especiais de bolsas e prêmios internacionais abrangendo todo o conjunto das indústrias criativas.”
Como observa Abed Amiri, especialista em cooperação econômica e tecnológica no âmbito do Brics, transformação digital e uso da inteligência artificial nos negócios, o principal desafio do Brics+ está na diferença entre o valor real dos ativos intelectuais e a capacidade do sistema financeiro de reconhecer esse valor e transformá-lo em capital.
“Uma marca, um software, uma patente ou um conteúdo cultural podem possuir alto valor econômico, mas, para um banco, tornam-se garantias aceitáveis apenas quando podem ser avaliados de forma transparente, formalizados juridicamente, transferidos quando necessário e comercializados. Em muitos países do Brics+, essa cadeia ainda não está totalmente estruturada”, diz o especialista em cooperação econômica e tecnológica do Brics, Abed Amiri.
Como Brics+ pode criar mercado comum de indústrias criativas
Para criar uma economia criativa transfronteiriça no Brics+, é necessária uma cadeia de valor integrada, que pode ser descrita da seguinte forma: criar => proteger a propriedade intelectual => financiar => produzir => distribuir => monetizar.
É justamente essa sequência que permite transformar projetos culturais isolados em uma integração econômica mais ampla. Uma das frentes possíveis é a coprodução de conteúdos, que abrange desde filmes e séries até jogos, animações e arte digital.
Nesse modelo, a educação passa a ser um recurso estratégico de investimento. A cadeia formada por educação, formação de profissionais, startups, propriedade intelectual e exportação pode criar uma base sólida para o desenvolvimento do empreendedorismo criativo. Alianças universitárias e programas conjuntos de mestrado nas áreas de economia criativa e cooperação global podem contribuir para a formação de especialistas e ampliar a mobilidade acadêmica. Esses profissionais, por sua vez, formam equipes e startups, desenvolvem propriedade intelectual e levam produtos criativos aos mercados interno e externo. Nesse contexto, programas conjuntos de mobilidade acadêmica tornam-se elementos de um mercado comum de competências do Brics+.
A digitalização deve ampliar a participação de pequenas e médias empresas no comércio transfronteiriço por meio de soluções de pagamento, marketing digital, plataformas e ferramentas de distribuição. Outra condição importante para a integração é a aproximação gradual dos padrões de contabilização, da classificação das indústrias criativas e da regulação das operações transfronteiriças. Isso permitirá aumentar a comparabilidade dos dados estatísticos e simplificar a interação entre empresas e investidores.
No âmbito do Brics+, são necessárias abordagens compatíveis para a proteção da propriedade intelectual, o licenciamento, os direitos digitais, as transações transfronteiriças e a coprodução. Isso não significa necessariamente criar uma legislação única. O mais importante é garantir a compatibilidade das regras e a previsibilidade das condições para empresas, investidores e detentores de direitos.
Direções promissoras de integração nos países do Brics
Uma direção promissora é a criação de clusters criativos internacionais, com projetos conjuntos de cinema e vídeo entre Índia, Rússia e Egito; cooperação entre China, Emirados Árabes Unidos e Brasil nas áreas de design e arquitetura; e desenvolvimento da arte digital e da indústria de jogos com participação de Rússia, Indonésia e Irã.
Outra frente promissora pode ser a criação de rotas culturais e turísticas transfronteiriças, reunindo o patrimônio cultural e os produtos criativos dos países do Brics+. Esse formato pode ampliar a demanda turística, aumentar a duração das viagens e criar oportunidades adicionais para pequenas e médias empresas, desde os setores de hospitalidade e gastronomia até produtores locais de bens culturais e criativos.
A diplomacia cultural também pode cumprir uma função econômica, por meio de festivais, residências artísticas, exposições conjuntas, programas educacionais e outros formatos que criem condições para o desenvolvimento de vínculos profissionais entre representantes das indústrias criativas.
No futuro, um dos elementos da infraestrutura comum pode ser uma plataforma digital para a distribuição de conteúdo dos países do Brics+, incluindo obras audiovisuais, música, projetos educacionais e iniciativas culturais. Um mecanismo desse tipo pode ampliar o acesso do conteúdo nacional ao público de outros países e criar novas possibilidades para sua monetização transfronteiriça.
O especialista Gueorgui Grits apresenta um exemplo concreto de instrumento prático de integração.
“Como exemplo prático, pode-se citar a plataforma internacional de interação para representantes das indústrias criativas dos países do Brics e dos Estados parceiros, a Brics Creative Industry”, afirmou.
Entre suas funções estão a formação de uma rede de contatos profissionais, o apoio a projetos conjuntos, o fortalecimento do potencial de exportação do produto criativo, o desenvolvimento de programas de qualificação e a criação de padrões comuns de interação.
Oportunidades de investimento
Para o investidor, as áreas mais promissoras não são necessariamente formas isoladas de arte, mas sim a infraestrutura construída ao redor delas. As oportunidades de investimento na economia criativa do Brics+ podem ser classificadas em cinco tipos de ativos:
- Ativos de conteúdo, que incluem cinema, música, jogos e animação;
- Ativos de infraestrutura, representados por plataformas, sistemas de pagamento, serviços em nuvem e ferramentas de distribuição;
- Ativos intelectuais, como propriedade intelectual, licenças, marcas e catálogos;
- Ativos de capital humano e infraestrutura de desenvolvimento, como educação, aceleradoras, laboratórios e outros mecanismos de formação e apoio a projetos;
- Infraestrutura financeira, que inclui avaliação de propriedade intelectual, crédito com base em fluxos futuros de receita e seguros para projetos criativos.
Na avaliação do especialista Abed Amiri, para o investidor privado, os segmentos mais interessantes são aqueles capazes de transformar criatividade em renda estável e escalável. Entre eles estão conteúdo digital, jogos, plataformas de mídia, tecnologias baseadas em inteligência artificial, além de design e marcas locais com potencial de exportação.
“Esses negócios, em geral, exigem um capital inicial relativamente menor do que as indústrias pesadas, chegam mais rapidamente ao mercado e podem alcançar públicos muito além das fronteiras nacionais por meio de canais on-line. Além disso, projetos que conectam cultura local e tecnologia podem criar vantagem competitiva tanto no mercado interno quanto no comércio entre os países do Brics+”, afirmou o especialista.
O investidor, assim, obtém um mapa das principais oportunidades. Trata-se de investir em uma cadeia produtiva capaz de monetizar o código cultural único do grupo.
Os investidores devem prestar atenção aos clusters regionais onde já existe infraestrutura consolidada e alta concentração de talentos: Xangai e Pequim em tecnologia, Dubai em design premium, Moscou em tecnologia da informação e design industrial, e Mumbai no cinema.













Deixe um comentário