Um relatório inédito aponta que o crime organizado movimentou quase R$ 1 trilhão de reais ilegalmente por meio de criptomoedas em todo o mundo em 2025. O número representa um aumento de 161% em relação ao ano anterior.
No estudo da Chainalysis, líder global em inteligência e investigação em blockchain, divulgado nesta quinta-feira (18), a empresa afirma que os dados representam um amadurecimento do cenário de ameaças por meio da lavagem de dinheiro.�
“A atividade criminosa on-chain se profissionalizou marcadamente desde 2020, com organizações ilícitas agora construindo infraestrutura compartilhada dedicada, e atores estatais entrando nesse ecossistema em escala sem precedentes“, diz um trecho da análise.
O valor total recebido por endereços de criptomoedas ilícitas atingiu US$ 154 bilhões (cerca de R$ 800 bilhões) em 2025, acima dos US$ 59 bilhões (Cerca de R$ 300 bilhões) em 2024 e apenas US$ 11 bilhões (cerca de R$ 57 bilhões) em 2020.
O relatório mostra que os atores por trás das transações ilegais se tornaram significativamente mais sofisticados. Como já mostrou a CNN Brasil, facções criminosas como PCC (Primeiro Comando da Capital) e Tren de Aragua já utilizam o mercado de criptoativos para lavar seus recursos ilícitos.�
Segundo a Chainalysis, quando se fala especificamente de lavagem de dinheiro, as três categorias que dominam o panorama global aparecem no Brasil:
- Redes de Lavagem de Dinheiro Operadas em Língua Chinesa (CMLNs): organizações profissionalizadas que oferecem lavagem de dinheiro como serviço — principalmente para o tráfico de drogas, operações de fraude e, cada vez mais, atores estatais. Representam cerca de 20% do ecossistema total de lavagem ilícita on-chain, uma participação que cresceu consistentemente desde 2021;
- Crescimento de evasão de sanções: evasão de sanções conduzida por estados atingiu aproximadamente US$ 104 bilhões em 2025, um aumento de 694% em relação ao ano anterior, à medida que estados-nação e indivíduos designados recorrem cada vez mais às criptomoedas para contornar restrições financeiras internacionais;
- Tráfico de drogas: por meio de mercados da darknet e atividade de vendedores de drogas, permanece como uma característica persistente e estável do cenário de criptomoedas ilícitas ano após ano — e uma com ressonância regional particular na América Latina.
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O que isso significa para o Brasil?
O Brasil é o maior mercado de criptomoedas da América Latina e um dos mais dinâmicos do mundo. Segundo a pesquisa, entre julho de 2024 e junho de 2025, o país recebeu um valor estimado de US$ 318 bilhões (R$ 1,64 trilhão) em valor on-chain, cerca de um terço de todo o valor em criptomoedas recebido em toda a América Latina.
O relatório ressalta a preocupação com a convergência das três principais ameaças globais no setor no país. “Em 2023, os fluxos ilícitos eram dominados por uma ampla atividade ilícita. Em 2024 e 2025, esse quadro mudou de forma material”, afirma o relatório, destacando quatro pontos principais.
- O Brasil como corredor de trânsito de drogas quanto como mercado de destino é uma rota-chave do tráfico de cocaína na América do Sul. A companhia reitera o uso comprovado de criptomoedas nas operações financeiras de facções brasileiras;
- A partir das CMLNs,exchanges brasileiras (corretoras de cripto) estão conectadas à mesma infraestrutura global de lavagem de dinheiro operada por grupos criminosos em todo o mundo;
- Fluxos relacionados à Rússia, incluindo entidades sujeitas a sanções internacionais, tornaram-se um componente mais visível da composição, particularmente em 2024 e 2025;
- Serviços de garantia associados a fraudes e ao crime organizado também apareceram nos dados para o Brasil em 2025, sugerindo que o mercado local está sendo integrado a ecossistemas de serviços criminais mais amplos.
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Segundo o estudo, as informações refletem a natureza global do crime com criptomoedas. “Redes que operam através de fronteiras direcionam fundos por quaisquer rampas de entrada e saída que ofereçam acesso, e o mercado grande e crescente do Brasil o torna um alvo atraente”.�
A convergência em território brasileiro preocupa em um momento crucial, de acordo com a Chainalysis. Um novo regime de autorização para empresas de criptomoedas entrou em vigor em 2 de fevereiro de 2026, com obrigações de reporte regulatório em vigor desde 4 de maio e um prazo de licenciamento em 29 de outubro.
Para a empresa, os padrões de fluxos ilícitos descritos pelo relatório serão o primeiro teste real desse regime para o Banco Central, como supervisor, e para as exchanges, custodiantes e intermediários, que agora devem detectar e interromper exatamente esse tipo de atividade.













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