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Como a Coreia do Sul resiste à presença militar e à subordinação econômica aos Estados Unidos

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Coreanos resistem à ingerência militar e econômica dos Estados Unidos na República da Coreia desde a chegada das tropas estadunidenses, em 1945, menos de um mês após o fim do colonialismo japonês na Península Coreana, diz Hwang Jeong-eun, coordenadora do Centro Internacional de Estratégia, com sede em Seul, em entrevista ao Brasil de Fato.

O debate sobre essa ingerência voltou a adquirir força este ano, quando o governo de Lee Jae-myung considerou enviar tropas ao Estreito de Ormuz, e organizações de esquerda e progressistas formaram uma coalizão de ação emergencial contra essa possibilidade.

Hwang participou recentemente do Fórum Acadêmico do Sul Global, em Xangai, na China, onde descreveu o processo de ingerência estadunidense em cinco etapas: dominação militar pós-1945, aliança de segurança da Guerra Fria a partir de 1953, dependência militar e econômica nos anos 1960-1980, crise financeira e liberalização de mercado nos anos 1990-2010 e integração à estratégia Indo-Pacífico dos EUA, em curso. A cada etapa de subordinação, ela explica que há uma fase de resistência popular, da luta pela reunificação coreana ao levante de Gwangju, em 1980, até a oposição atual ao envio de tropas.

O filme sul-coreano “Parasita”, lançado em 2019, mostrou ao mundo as contradições das lutas de classes na Coreia do Sul. Para Jeong-eun, as raízes do que o filme mostra estão na subordinação econômica construída pelos EUA ao longo de décadas: a Coreia enviou soldados ao Vietnã em troca de auxílio estadunidense, atravessou uma crise financeira nos anos 1990 que aprofundou sua integração à economia de Washington, e hoje suas maiores empresas, como Samsung e SK Hynix, negociam condições de investimento sob pressão do governo dos EUA.

Confira a entrevista na íntegra:

Brasil de Fato: Para começar, você pode nos apresentar o Centro Internacional de Estratégia e o trabalho de vocês?

Hwang Jeong-eun: O Centro Internacional de Estratégia existe há 14 anos e foi criado para trazer ideias e lutas de fora da Coreia e apresentar alternativas e teorias ao povo sul-coreano. Traduzimos materiais, vídeos e livros para o coreano e também traduzimos o que acontece na Coreia do Sul para fora, do coreano para o inglês. Também organizamos eventos educativos para que as pessoas aprendam o que está acontecendo ao redor do mundo.

Em sua apresentação aqui no fórum, você descreveu cinco fases da subordinação da Coreia do Sul aos Estados Unidos e cinco fases correspondentes de resistência. Você poderia resumir esse processo?

Logo depois que a Coreia foi libertada do colonialismo japonês, menos de um mês depois, a administração militar dos Estados Unidos chegou e ocupou o sul da Península Coreana. Desde então e até hoje há uma forte presença militar estadunidense na Coreia e uma relação de subordinação aos EUA. Isso começou a partir do anticomunismo e das ditaduras autoritárias, de 1948 até 1987, com três presidentes ditadores. Durante esse período, a presença estadunidense foi se fortalecendo e a economia coreana foi sendo incorporada à economia estadunidense e à sua estratégia militar no Leste Asiático e ao redor do mundo. No início dos anos 2000, houve negociações sobre uma aliança “flexível” entre a Coreia e os EUA, que ainda está em vigor. Isso significa que os militares estadunidenses na Coreia do Sul podem ser utilizados na estratégia dos EUA no Leste Asiático e ao redor do mundo.

A resistência do povo contra as bases militares estadunidenses e a intervenção dos EUA na política sul-coreana começou como uma resistência contra a ditadura, porque o povo sabia, desde o início, que os EUA foram à Península Coreana não como guardiões ou salvadores, mas como forças de ocupação. Usavam a Coreia do Sul como posto avançado para impedir que o comunismo se espalhasse ao Japão também. O povo sabia disso e começou a lutar. Ficou ainda mais evidente em 1980, quando o governo ditatorial oprimia o povo, e as pessoas em geral esperavam que os Estados Unidos viessem deter aquele governo. Mas, na verdade, apoiaram o governo. E foi aí que as pessoas abriram os olhos para ver a verdadeira natureza da presença estadunidense. Depois disso, houve muita luta feroz contra as bases militares estadunidenses e a presença dos EUA na Coreia. À medida que as forças do movimento social foram enfraquecendo, aquele movimento também foi enfraquecendo. Mas ainda assim as organizações políticas de esquerda e progressistas continuam lutando contra as bases militares estadunidenses, os exercícios conjuntos EUA-Coreia e agora contra as tentativas de envio de tropas ao Estreito de Ormuz.

O filme “Parasita” talvez tenha mostrado ao mundo, pela primeira vez, uma Coreia do Sul que muitos não conheciam: desigualdade, famílias pobres. Você descreve como os EUA controlaram decisões econômicas importantes. Como isso impacta na realidade do povo coreano?

Logo depois da Guerra da Coreia, o governo coreano pôde desenvolver a economia com a ajuda dos EUA, e a Coreia enviou tropas ao Vietnã para receber esse auxílio. Foi assim que se construiu a dependência econômica em relação aos EUA. No final dos anos 1990, houve uma crise financeira na Coreia do Sul e aí houve mais integração à estratégia econômica liderada pelos EUA. Depois disso, em 2011, a Coreia assinou o acordo de livre comércio com os Estados Unidos. Foi um acordo muito injusto, mas aconteceu. Depois disso, há muita negociação entre o governo sul-coreano e os EUA sobre mais integração econômica e sobre as cadeias de fornecimento globais. É assim que grandes empresas coreanas, como Samsung ou SK Hynix, também têm muita negociação com os EUA, depois que a administração Trump exigiu mais investimento nos Estados Unidos. Desde o começo até hoje, há muita dependência da economia estadunidense e das demandas dos EUA sobre o que as empresas coreanas ou o governo coreano devem fazer em benefício dos EUA e das grandes corporações.

Qual é a relevância da campanha “Tirem as Mãos da Ásia“ para a Coreia do Sul?

A campanha “Tirem as Mãos da Ásia” é muito importante na Coreia do Sul e nestes tempos, porque a presença militar dos EUA na Coreia do Sul e na Ásia como um todo funciona como uma barreira para que as pessoas possam falar livremente sobre suas ideias. As pessoas acham que não é seguro falar livremente. E também impede muitos países, incluindo a Coreia do Sul, de desenvolverem sua economia do jeito que o povo quer. A presença dos EUA destrói muitas possibilidades de que as pessoas possam escolher sua visão no seu país: como querem desenvolver sua economia, como querem criar a sociedade que querem, do jeito que querem. A campanha “Tirem as Mãos da Ásia” é muito importante para construir uma ação coordenada em conjunto. Porque, mesmo que o povo sul-coreano consiga fazer os EUA retirarem as bases, isso não resolve nenhum problema na Ásia como um todo, porque há muito mais bases militares estadunidenses e influência dos EUA em outros países. Por isso tem que ser uma campanha de solidariedade na Ásia.

Uma avaliação rápida sobre este espaço do Fórum Acadêmico do Sul Global, por favor.

O Fórum Acadêmico do Sul Global tem uma linha muito clara: é anti-imperialista, anticapitalista e também antiestadunidense. Acho que é muito estratégico porque possibilita que uma ampla gama de pessoas participe. Se a linha for muito estreita, vai diminuir o espectro de solidariedade também. Por isso acho que é um bom espaço para pessoas ao redor do mundo que querem lutar contra o imperialismo estadunidense e contra a guerra que os EUA impõem ao redor do mundo. É um espaço muito bom e uma oportunidade para as pessoas virem apresentar seus próprios pensamentos e atividades, trocarem ideias e também discutirem os próximos passos para fazer mudanças ao redor do mundo.





Com Informações: Brasil de Fato

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