Região

Como a China mantém tradição de 3 mil anos da cerâmica preta tibetana de Nixi

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A vila rural de Tangdui, em Shangri-la, na província chinesa de Yunnan, é o único lugar de toda a região onde se produz a cerâmica preta de Nixi: uma tradição com mais de 3 mil anos que combina a identidade da etnia tibetana, renda familiar e turismo sustentável.

As políticas de revitalização rural e a transmissão geracional do ofício entre as famílias locais sustentam a continuidade de um patrimônio que teve a “técnica de queima da cerâmica preta tibetana” incluída no segundo lote do Inventário Nacional de Patrimônio Cultural Imaterial da China em junho de 2008.

O tom escuro característico das peças não vem da argila, mas da queima com lenha. O município de Nixi deu nome à tradição, mas a produção está concentrada exclusivamente em Tangdui, que, no passado, era um ponto de passagem da Rota do Chá e dos Cavalos, antiga via de comércio que ligava o sudoeste da China ao Tibete e ao sul da Ásia. A cerâmica preta da região se consolidou como mercadoria indispensável dessa rota durante a República da China, entre 1912 e 1949, segundo o portal do governo de Yunnan.

Transmissão geracional

Gerong Nongbu é um dos moradores de Tangdui que herdou o ofício da família. Ele descreve como o aprendizado se dava ao lado do pai, depois do expediente: “Na nossa família, foi sempre meu pai quem nos ensinou. Depois de terminar o trabalho do dia, sentávamos ao lado dele, bem na frente da loja, e eu voltava para casa com o que tinha aprendido só de observar, repetidas vezes, até pegar o jeito por conta própria”.

Gerong conta que, à época, sua família enfrentava condições de transporte precárias: “A geração do meu pai viveu numa época em que o transporte era muito difícil, não havia estradas de verdade. Tudo o que produziam tinha que ser carregado nas costas até Shangri-la para vender. Foi assim que ele sustentou os nossos oito irmãos”.

As condições mudaram. Gerong compara os preços de antes com os de hoje: “Antes, os itens eram vendidos por dois ou três yuans, talvez quatro ou cinco, no máximo 20 ou 50 yuans. Agora, as mesmas peças chegam a custar centenas, às vezes dezenas de vezes mais. E muito mais pessoas praticam esse ofício hoje”.

O ofício

A cerâmica preta de Nixi é moldada à mão, sem uso de equipamento mecânico. O processo inclui coleta da argila, secagem ao sol, socagem, peneiramento, modelagem, polimento, queima e defumação. Pela tradição local, um aprendiz dedica pelo menos três anos para dominar um único objeto: a chaleira tibetana usada no preparo do chá com manteiga.

“Em toda a cidade de Nixi há muitos vilarejos, mas a nossa, Tangdui, é a única que produz cerâmica preta, por isso ficou conhecida como o Vilarejo da Cerâmica Preta”, diz Sun Nuozhuoma, moradora de Tangdui.

A antiguidade da tradição foi confirmada por escavações arqueológicas na Tumba Shiguan, na aldeia de Xingfu. A datação por carbono-14 revelou que os artefatos encontrados têm entre 2,9 mil e 3 mil anos, época da chamada cultura dos sarcófagos de pedra, que se espalhou pelo sudoeste chinês.

Crescimento da produção

Os dados oficiais do governo de Yunnan mostram a expansão recente do ofício. Em 2023, o número de ateliês de cerâmica preta na cidade de Nixi havia subido para mais de 120, com mais de 150 artesãos envolvidos diretamente na produção. As famílias dedicadas ao ofício passaram de cerca de 40 para 93, e o número de trabalhadores, de 45 para 133. O catálogo de produtos também se diversificou: dos tradicionais potes, panelas e braseiros de barro, o repertório chegou a mais de 80 tipos de peças, incluindo vasos e taças. As vendas anuais do município somam hoje cerca de 4 milhões de yuans (mais de R$ 3 milhões).

Em Tangdui, as famílias que produzem cerâmica preta têm um acréscimo de renda anual estimado entre 30 mil e 50 mil yuans (entre R$ 23 mil e R$ 38 mil), segundo o mesmo levantamento.

Nova dinâmica de comercialização

Sun Nuozhuoma, moradora de Tangdui, explica que o crescimento da produção acarretou mudanças para a população local: “Hoje está tudo muito mais fácil. Os artesãos não precisam mais se deslocar para vender o trabalho; os compradores é que vêm até nós. Hotéis, restaurantes e colecionadores fazem encomendas personalizadas, e produzimos de acordo com as especificações deles”.

Ela afirma que a atenção crescente aos objetos tradicionais transformou o papel da cerâmica preta na economia local: “Com esse reconhecimento e apoio crescentes, as condições de vida no vilarejo melhoraram muito, e a tradição da cerâmica preta continua a se desenvolver, não só como um ofício, mas como uma tradição cultural viva”.

Revitalização rural e turismo

Nos últimos anos, Nixi foi incluída em programa de revitalização rural do governo chinês, que combina o ofício tradicional a um modelo de turismo de vivência: hospedagem em pousadas familiares, trilhas, oficinas de cerâmica preta e coleta sazonal de cogumelos matsutake.

Em 2022, a prefeitura de Diqing, à qual Shangri-la pertence, foi designada como Área de Demonstração Nacional de Civilização Ecológica, com o turismo como uma das estratégias centrais de desenvolvimento regional. As políticas viabilizaram a construção de uma pousada e um café na aldeia.

Sobre a mudança de abordagem adotada pelos governos municipal e distrital, Sun afirma: “Não dependemos mais só da produção de cerâmica preta. Estamos construindo uma economia rural diversificada, em que a cerâmica preta continua sendo o cartão de visita cultural do vilarejo, enquanto o turismo abre novas possibilidades de desenvolvimento sustentável e de oportunidades para as próximas gerações”.

“Desde tempos antigos, os moradores daqui compartilham uma crença profunda: a cerâmica preta é um ofício ancestral transmitido de geração em geração, um ofício que garante a sobrevivência. Como diz o ditado local: quem domina um ofício nunca passa fome, onde quer que vá”, conclui Sun.





Com Informações: Brasil de Fato

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