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Inspiradas pela ‘Mãe da Pátria’, mulheres negras na Argentina reivindicam pautas históricas

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Na Argentina, a Mãe da Pátria é negra. María Remédio del Valle, nascida em Buenos Aires na segunda metade do século XVIII, foi um dos principais nomes da independência do país e ficou conhecida pela bravura e pela solidariedade aos colegas de luta. Em 2024, em um gesto de reconhecimento, o país estampou a imagem do rosto de Remedios del Valle nas notas de 10 mil pesos. Antes, ela se tornou a primeira mulher representada em um quadro na Câmara dos Deputados.

Com tamanho simbolismo, seria de se pensar que o tema do racismo, especialmente contra mulheres negras, estivesse no centro da pauta política do país vizinho. Essa não é a realidade, muito embora a agenda tenha avançado nos últimos anos.�

“O racismo é um tema delicado e difícil. Em nossa sociedade, ele praticamente não era debatido até muito recentemente. Mesmo agora, a discussão costuma acontecer de forma dicotômica, sem levar a uma reflexão mais profunda. ‘A Argentina é um país racista’ ou ‘A Argentina não é racista’. Mas a imagem que muitas pessoas têm de um país racista não corresponde à realidade vivida pelos afrodescendentes na Argentina”, explica, em conversa com o Brasil de Fato, a professora Miriam Gomes Lima, afroargentina de origem caboverdeana, intelectual, ativista e criadora da Cátedra África na América Latina, da Universidad Nacional de las Artes (UNA).

Para ela, o racismo é estrutural na Argentina. “Ele se manifesta nas instituições, na quase inexistente presença negra nos meios de comunicação, no sistema educacional e nos três Poderes do Estado. Além disso, enfrentamos diariamente diversas formas de microrracismo”, salienta.�

Nada muito diferente do Brasil, apesar de que as proporções devem ser guardadas, por conta dos diferentes processos históricos, lá e cá. Segundo o mais recente Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) no último dia 23 de julho, o Brasil experimentou um aumento de 13% nos casos de racismo e de 9,2% nos de injúria racial, entre 2024 e 2025. Essa é uma amostra mínima, mas exemplificadora, de uma prática que atravessa a sociedade brasileira desde a sua própria constituição.

O quadro dos movimentos de mulheres negras na Argentina

No país vizinho, o mito da “Argentina Branca” contribuiu e contribui para a disseminação de uma certa ideia de país em que suas elites são, a grosso modo, o espelho das elites europeias, só que residentes no lado ocidental do Rio da Prata. Com certa frequência – como na Copa do Mundo em 2026 –, o debate sobre o racismo na Argentina ganha contornos mais amplos.�

No caso das mulheres negras argentinas, o exemplo de Maria Remedios está longe de ter se perdido no tempo. “Historicamente, foram as mulheres que criaram e dirigiram a maior parte das organizações negras em nosso país. Desde séculos atrás, com as confrarias, as nações ou casas de nação, as sociedades de ajuda mútua e, mais recentemente, as ONGs, essas iniciativas foram, em sua maioria, criadas e lideradas por mulheres negras”, diz Miriam Gomes.

Algumas conquistas importantes demoraram, mas chegaram. Em 2010, o país passou a incluir no censo perguntas sobre afrodescendência para uma amostragem. A questão só passou a ser aplicada de modo universal em 2022. Já em 2023, o Legislativo argentino aprovou a Lei 26.852, que instituiu o dia 8 de novembro (dia do falecimento de Maria Remedios del Valle) como o Dia Nacional dos Afro-Argentinos e da Cultura Afro.

Em relação à violência de gênero, a Argentina é uma das pioneiras na criminalização da violência de gênero, com uma lei que remonta a 2012. Pouco tempo depois, em 2015, surgiu no país o movimento “Ni Una Menos“, surgido na onda de protestos daquele mesmo ano, quando meio milhão de pessoas foram às ruas em protesto contra o feminicídio de Chiara Páez, adolescente grávida assassinada pelo namorado.�

Além disso, em 2025, o país registrou 200 casos diretos de feminicídio, segundo dados do Registro Nacional de Feminicídios do Sistema Judiciário Argentino (RNFJA), elaborado pela Secretaria da Mulher da Suprema Corte do país. Esse dado, que corresponde a um feminicídio a cada 44 horas, é o mais baixo de toda a série histórica. Enquanto isso, no Brasil, foram 1.517 vítimas do mesmo crime no ano passado, segundo o Anuário. O número é 4% superior ao do ano passado, e os casos de feminicídio seguem batendo recordes, ano após ano.

Como então articular na Argentina as pautas dos movimentos de mulheres negras com as demandas dos movimentos feministas não negros? A pergunta é especialmente sensível, dadas as diferenças de condições entre feministas argentinas brancas de classe média e as migrantes negras, na hora de participar de greves e movimentos.

Miriam Gomes destaca aquilo que é comum. “Essa articulação ocorre, sobretudo, por meio do Encontro Nacional de Mulheres, realizado há mais de 30 anos na Argentina. Em 2017, em Rosário, foi criado, pela primeira vez na história desse encontro, um espaço específico para mulheres afrodescendentes”, diz.�

Os movimentos de mulheres negras na Argentina comungam pautas, embora sejam diversos nas suas atividades. Estão, muitas vezes, inseridos no arco de ações de movimentos negros mais amplos. São os casos da África Vive (fundado pela histórica líder ‘Pocha’ Lamadrid), da Afro Mujeres y Disidencias Rosario, da Associación Misibamba, da Agrupación Xangô e da Sociedad Caboverdiana, que teve Miriam Gomes como primeira presidenta.�

Interlocução

“Aqui, sempre me perguntam: ‘O que vocês fizeram no Brasil para conseguir isso [a institucionalização brasileira do combate ao racismo]?”, conta ao Brasil de Fato a historiadora brasileira Danielle Santana, ativista afrofeminista e residente em Buenos Aires há quase uma década.

Segundo Santanna, há uma articulação importante entre ativistas brasileiras e argentinas. Ela cita as mobilizações do 25 de julho (Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha) e do 8 de novembro. No último caso, mulheres negras brasileiras participaram do processo de criação da lei que estabeleceu o marco simbólico da data.�

“Existe abertura para sermos convidadas a participar de espaços institucionais, como a Assembleia Nacional”, diz Santana, que apresenta uma diferença: em geral, as mulheres negras argentinas costumam ser mais regionalistas que as do Brasil, em matéria de ativismo.�

“Elas conseguem buscar referências em Lélia Gonzalez, em Marielle Franco e nas políticas públicas brasileiras. Procuram entender o que deu certo no Brasil e que ainda não aconteceu aqui”, explica. Marielle Franco, aliás, é um caso emblemático. Em 2021, uma placa em homenagem à vereadora carioca, assassinada em 2018, foi inaugurada na estação “Rio de Janeiro” do metrô portenho, no bairro de Caballito.�

Em termos de comparação, uma dificuldade a mais para as mulheres negras argentinas tem a ver com a ausência de dados censitários consolidados, quando se compara com o Brasil. “Ao longo da história argentina, houve um apagamento da população afrodescendente. As organizações daqui estimam que existam cerca de dois milhões de pessoas afrodescendentes, justamente por causa da questão do colorismo”, avalia Santanna.�

O governo Javier Milei ajudou a piorar o quadro. Foi do ultradireitista a ideia de desmontar o Instituto Nacional contra a Discriminação, a Xenofobia e o Racismo (Inadi), criado em 1996 pela Lei de Atos Discriminatórios. O presidente argentino argumentou que o órgão seria um “cabide de empregos” e que carecia de utilidade.

“Quando deixa de existir um órgão em que as pessoas podem denunciar discriminações, elas ficam sem referência institucional. Se o próprio presidente afirma que essa pauta não importa, a sensação é justamente essa: não há para onde levar essas denúncias”, explica Danielle Santana, pontuando que nota um aumento da xenofobia desde o início do governo Milei.�

Apesar de Milei ter extinto o órgão (algo que nem governos anteriores de direita, como o de Mauricio Macri, conseguiram), o presidente argentino não revogou a lei que deu origem ao Inadi.�

O que restou, então, às mulheres negras argentinas? “Começamos a articular com organismos supranacionais, como as Nações Unidas e a ONU Mulheres. São organismos com os quais temos um diálogo interessante, mas que não podem interferir nas políticas internas do país. Ainda assim, tentamos algumas ações em conjunto”, explica Miriam Gomes. Mais um capítulo da resistência dos movimentos de mulheres negras no país vizinho.





Com Informações: Brasil de Fato

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