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Com nova loja em Florianópolis, Armazém do Campo do MST quer ‘disputar narrativas’ em Santa Catarina

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Uma nova loja do Armazém do Campo, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), instalada no centro de Florianópolis, busca aproximar consumidores urbanos da produção dos assentamentos da reforma agrária de Santa Catarina.

A iniciativa é resultado de um processo de articulação entre o MST, sindicatos e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A pré-inauguração ocorreu em dezembro de 2025 e, desde então, a loja funciona de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h30, na sede do Sindicato dos Bancários de Florianópolis (Visconde de Ouro Preto, 308), no centro da capital. O evento de inauguração definitiva ainda não tem data marcada.

Militante do MST desde 1986 e uma das responsáveis pela construção do projeto, Ana Vanderlita Magnabosco resume o significado da iniciativa. “Nós estamos construindo a casa do Movimento Sem Terra na capital”, afirma.

Natural da região do Contestado, no Oeste do estado, Ana integrou as direções estadual e nacional do MST entre 1989 e 1994. Depois de atuar por décadas em outras frentes políticas, foi chamada pelo movimento, em 2023, para ajudar a consolidar o Armazém do Campo em Florianópolis

Segundo ela, a proposta vai além da comercialização de produtos oriundos dos assentamentos. “O Armazém do Campo deve ser uma janela pela qual a cidade vai enxergar a importância da reforma agrária popular”, defende.

A construção da unidade catarinense ocorreu após anos de debate dentro do MST. De acordo com Ana, a ideia de criar um Armazém do Campo em Florianópolis circulava há pelo menos oito anos, mas enfrentava obstáculos logísticos e financeiros.

O principal deles continua sendo a distância entre a capital e os assentamentos do estado. Concentradas principalmente no Oeste, Extremo Oeste, Planalto e Norte catarinense, as áreas de reforma agrária estão a centenas de quilômetros de Florianópolis.

“Hoje também é um desafio muito grande para nós manter essa logística. Muitas vezes os nossos produtos chegam com mais facilidade do Rio Grande do Sul e do Paraná do que propriamente do extremo oeste de Santa Catarina”, relata.

Disputa de narrativas

Para os organizadores, o Armazém do Campo também cumpre uma função política em um estado frequentemente associado a posições conservadoras e ao avanço da extrema direita.

Coordenador do projeto Estudos Estratégicos para as Cadeias de Valor da Reforma Agrária, desenvolvido pela UFSC em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), o professor Estevan Felipe Pizarro Muñoz avalia que a experiência ajuda a apresentar outra face da sociedade catarinense.

“A iniciativa ajuda a mostrar que o cenário catarinense é mais diverso do que costuma aparecer”, afirma.

Segundo ele, a proposta é disputar a forma como o MST e a própria reforma agrária são percebidos pela população urbana. “A gente quer disputar as narrativas e mostrar que existem outras formas de organizar a economia e a produção agrícola para além da lógica dominante”, diz.

Para o pesquisador, o Armazém do Campo reúne pessoas e organizações que nem sempre encontram espaço no debate público catarinense. “O Armazém do Campo quer reunir essas pessoas, quer ser um espaço para a gente criar novas alternativas”, afirma.

A avaliação dialoga com a experiência relatada por Ana Vanderlita. Segundo ela, a localização da loja no centro da cidade tem permitido contato com moradores que muitas vezes entram no espaço pela primeira vez motivados pela curiosidade. “Florianópolis sempre torceu o nariz para o Movimento Sem Terra”, observa.

Alimentação e luta

A unidade da capital catarinense integra a Rede Armazém do Campo, criada pelo MST em 2016 como desdobramento da Feira Nacional da Reforma Agrária. A rede reúne mais de 20 físicas e quatro unidades com entregas programadas e vendas online, segundo o movimento.

Além da comercialização de alimentos, a rede se consolidou nacionalmente como espaço de formação política, atividades culturais e promoção da reforma agrária popular. Em Florianópolis, essa proposta também orienta o funcionamento da unidade.

Coordenadora do Laboratório de Educação do Campo e Estudos da Reforma Agrária (Lecera/UFSC), a professora Marília Gaia avalia que a capital catarinense já possui diferentes iniciativas voltadas à comercialização de alimentos orgânicos e agroecológicos. Para ela, o diferencial do Armazém está em outro aspecto.

“O grande diferencial do Armazém aqui em Floripa é acessar o alimento vinculado à luta pela terra, à luta de classes e ao debate da reforma agrária”, afirma.

A proposta é que o espaço funcione também como local para rodas de conversa, apresentações culturais, lançamentos de livros e encontros entre organizações populares.

Além de produtos das cooperativas da reforma agrária, a unidade vem incorporando alimentos e mercadorias de pequenos produtores, artesãos, indígenas e quilombolas parceiros da iniciativa.

Para os organizadores, o objetivo é consolidar um espaço permanente de encontro entre campo e cidade, utilizando a alimentação como porta de entrada para debates sobre soberania alimentar, agroecologia e reforma agrária.

“Mais do que um mercado para venda de produtos para a classe média, o Armazém do Campo deve ser planejado para ser um ponto de encontro entre as lutas da classe trabalhadora do campo e da cidade”, resume Ana Vanderlita.

Além de Vanderlita, Muñoz e Gaia, participam do grupo gestor do Armazém do Campo Floripa Lucídio Ravanello, da direção estadual do MST, Daniele Rabaioli, articuladora do MST em Florianópolis, Marcelos Alves, do setor de produção do MST em Santa Catarina e Sebastião Vilanova, presidente da Cooperativa Central da Reforma Agrária de Santa Catarina (CCA-SC).





Com Informações: Brasil de Fato

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