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Celebração em Aparecida tem clima de diálogo muito melhor que 2022, apontam participantes

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No feriado dedicado à padroeira do Brasil, celebrado nesta segunda-feira (12), milhares de fiéis que percorreram centenas de quilômetros a pé até o Santuário Nacional de Aparecida transformaram a devoção religiosa em manifestação de solidariedade, acolhimento e cobrança por justiça social.

Em meio ao acirramento da campanha do segundo turno das eleições presidenciais, peregrinos e lideranças religiosas destacaram a urgência de governantes compromissados com a dignidade dos mais vulneráveis e repudiaram a instrumentalização da fé para fins de divisão e violência.

“Nossa Senhora surge para pescadores. Pescadores normalmente são pessoas pobres, humildes, que têm uma relação com a natureza de tirar dali da água aquilo que é necessário para sua sobrevivência. Nossa Senhora não escolhe aparecer no palácio ou próximo aos poderes”, pontua Carlos Lima, coordenador nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Uma caminhada de cerca de 170 quilômetros ao longo da Rodovia Presidente Dutra, entre a capital paulista e o Vale do Paraíba, sintetiza os sacrifícios e os propósitos da romaria. O ativista social Rodrigo Gonzalez, fundador da Casa de Cultura Dona Albertina Vila Moraes, localizada na zona sul de São Paulo, realizou a peregrinação a pé pela segunda vez.

Após se atrasar para o ponto de encontro de seu grupo no Centro da capital, Gonzalez iniciou a caminhada no quilômetro 231 da Dutra, no acesso metropolitano da rodovia, na terça-feira (6).

Acompanhado por um parceiro de comunidade, ele caminhou por cerca de 140 quilômetros até o município de Pindamonhangaba, onde precisou de atendimento médico na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da cidade devido a bolhas e ferimentos nos pés. Após ser medicado, o ativista percorreu os cerca de 30 quilômetros finais até a Basílica Nacional. “Foi um desafio enorme, até agora nem sei de onde tiramos forças”, relatou.

Para Gonzalez, a experiência nas estradas e nos pontos de apoio voluntários revela uma mensagem de empatia que contrasta com o ambiente de hostilidade política. “O que vivemos pelo caminho até Aparecida prova que ainda existe muito amor ao próximo. Em cada ponto de apoio, as pessoas nos acolhiam com carinho, sem importar quem a gente era ou qual era nosso posicionamento político. Elas só queriam fazer o bem, e é exatamente essa união e empatia que precisamos aprender com Nossa Senhora”, afirmou.

Para ele, o significado prático do mandamento católico de defesa dos empobrecidos é “acolher sem julgar, amar sem preconceito e colocar o amor acima de qualquer divisão em tudo o que fazemos”.

Origem popular e missão profética

A ligação histórica entre a fé cristã e a libertação dos oprimidos é o eixo central destacado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT). O coordenador Carlos Lima lembrou que a imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida foi resgatada das águas do rio Paraíba do Sul, em 1717, por três pescadores artesanais, consolidando-se como símbolo dos explorados.

“Ela dá um recado de mãe para proteger principalmente aqueles que são mais fragilizados. Os camponeses, as camponesas, os ribeirinhos, essas pessoas são sempre os preferidos de Nossa Senhora. No Magnificat, ela diz exatamente isso: que os poderosos serão derrubados dos tronos e os humildes serão elevados”, destacou Lima.

Lima ressaltou que a tradição do evangelho não comporta o isolamento individualista nem a conivência com a miséria. Citando a passagem bíblica do Evangelho de João, o dirigente defendeu que a vivência religiosa exige a transformação das estruturas sociais.

“O evangelho, em primeiro lugar, é garantir justiça a quem mais precisa. Qualquer governo que minimamente se coloque frente ao evangelho vai garantir espaço para os mais pobres. Vida em plenitude significa que não é para ninguém passar fome, não é para ninguém ter seus direitos negados, mas para que todos vivam a dignidade de filhos e filhas de Deus. Essa é a plataforma de quem quer governar a partir do evangelho”, disse.

O coordenador da CPT também criticou forças políticas que utilizam a linguagem religiosa para justificar o armamento civil e a perseguição a comunidades tradicionais. “Quem, a partir da fé, instrumentaliza, fala em Cristo e, ao mesmo tempo, semeia a violência, leva armamento para a sociedade e persegue os pequenos, como os povos originários, os quilombolas, os sem-terra, os posseiros e os ribeirinhos, na verdade atua como os fariseus. São sepulcros caiados. Esquecem ensinamentos fundamentais de Jesus, como o amor ao próximo, para dar espaço a ideologias que têm no ódio o centro de suas afirmações”, avaliou o líder religioso.

Durante a celebração, o arcebispo de Aparecida (SP), dom Mário Antônio da Silva, criticou a disseminação de armamentos e as guerras. Na homilia, o religioso também defendeu o acolhimento dos mais pobres e condenou a indiferença diante da fome, da violência e da destruição da natureza.

“Sabemos que Jesus manda construir a paz. E aqui, escutando o Leão 14, uma paz desarmada e desarmante. Mas muitas vezes alimentamos divisões, com armamentos, com guerras e tantos confrontos entre nós”, afirmou o arcebispo do Santuário Nacional de Aparecida, no interior de São Paulo.

Tensão pontual e rotina de acolhimento

O ambiente na cidade de Aparecida neste 12 de outubro também refletiu a temperatura do segundo turno nacional. O Vale do Paraíba possui histórico eleitoral majoritariamente conservador, com índices de votação para candidatos do PL que alcançam até 70% na região.

O coordenador estadual do MST em São Paulo Gilmar Mauro esteve em Aparecida neste 12 de outubro e relatou que o clima era de muita aceitação ao diálogo da militância pró-Lula que estava na região. 150 militantes do movimento fizeram também uma marcha na região durante a manhã.

“A distribuição se deu junto às barracas dos feirantes, cuja grande maioria está muito preocupada e defende o Lula, porque teme, claro, perder a possibilidade inclusive de trabalho que eles desenvolvem lá”, relatou. Mauro também acompanhou a missa de celebração de Nossa Senhora Aparecida.

O coordenador estadual do MST exaltou “as mobilizações extraordinárias” deste domingo, creditando também a elas o bom sentimento de aceitação da população ao diálogo.

Segundo um agente de pastoral com longa atuação na comunidade católica local, que pediu para não ter a identidade divulgada em razão de suas funções eclesiais, a celebração deste ano foi consideravelmente mais pacífica do que os episódios registrados em 2022, quando militantes extremistas hostilizaram profissionais de imprensa e interromperam cerimônias religiosas.

Ainda assim, registros de atrito ocorreram na manhã desta segunda-feira, quando o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB), e o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, chegaram ao santuário para a missa solene e para inspecionar uma carreta de atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS).

Na entrada do templo, manifestantes pró-Lula entoavam palavras de ordem com bandeiras e adesivos da campanha, enquanto apoiadores do senador Flávio Bolsonaro (PL) reagiram com vaias e protestos.

Apesar do bate-boca pontual no acesso à basílica, o clima geral entre as centenas de milhares de visitantes permaneceu pacífico. O agente de pastoral destacou que peregrinos vindos de várias regiões do país circularam livremente, expressando preferências eleitorais, sem que a polarização comprometesse a acolhida que marca a tradição da cidade.

Essa mensagem de concórdia e rejeição à violência foi reforçada no altar pelo arcebispo de Aparecida, dom Mário Antônio da Silva. Durante a pregação da missa solene, o arcebispo defendeu a construção de uma “paz desarmada e desarmante” e repudiou discursos que incentivam a aquisição de armas e a intolerância política.

“O evangelho, queridos irmãos e irmãs, não nos autoriza a odiar quem pensa diferente e nem a matar os inimigos”, declarou o arcebispo, conclamando os fiéis a combaterem a indiferença diante da fome e da devastação da natureza.





Com Informações: Brasil de Fato

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