Últimas notícias

É possível reverter a correlação de forças rumo ao segundo turno?

0


No dia 4 de outubro de 2026, o Brasil foi às urnas para o primeiro turno de uma eleição presidencial que coloca frente a frente dois projetos de país diametralmente opostos. Nenhum dos dois chegou à maioria absoluta necessária para decidir o pleito já nesta etapa.

O campo popular, reunido em torno da candidatura à reeleição do presidente Lula, termina o primeiro turno atrás do senador Flávio Bolsonaro, que obteve 47,03% (56,1 milhões) dos votos válidos contra 45,16% (53,8 milhões) de Lula, e vai a um segundo turno em condição mais difícil do que a planejada, com um gosto amargo na boca. Não apenas pelo segundo turno em desvantagem, mas pela nova composição do Senado e da Câmara, fundamentais para a governabilidade do Executivo nacional, como mostra o balanço do Congresso mais adiante.

O diagnóstico, que se consolida de análise em análise, é o de que vivemos uma crise institucional de maior gravidade e um clima de despolitização generalizada da população, e que esse quadro se espelhou nas urnas. Isso inclui a abstenção de 21,08% dos eleitores, quase 33,5 milhões de pessoas, a segunda maior taxa desde a redemocratização, atrás apenas do recorde de 1998.

Nem o escândalo do Banco Master, que envolve diretamente o próprio Flávio Bolsonaro, nem mesmo as declarações contra a redução de jornada de trabalho ou a relação descarada com o governo dos EUA, que pretende entregar de bandeja as riquezas nacionais, chegaram a afetar seu desempenho eleitoral.

O caso Master liga o candidato ao financiamento do filme Dark Horse, sobre seu pai, por meio de um contrato de cerca de US$ 24 milhões firmado com o banqueiro Daniel Vorcaro, do qual ao menos US$ 12 milhões já teriam sido efetivamente pagos. Vorcaro, dono do Banco Master, foi preso em novembro de 2025, e Flávio Bolsonaro está sob investigação pelo caso, ainda sem denúncia formal.

No geral, há um descolamento entre o que está colocado na realidade e a percepção pública, alimentado por desinformação e por anos de despolitização e de construção do antipetismo e do antilulismo. A falsa narrativa de combate à corrupção funcionou, ao longo da última década, e foi colada ao PT e a Lula, como responsáveis por um sistema de poder que, no Brasil, remonta à própria história de formação do país. É herança concreta do período colonial e escravista a formação de uma burguesia nacional que luta para manter seu status quo e que, para fortalecer sua própria base, direciona ódio contra os setores menos favorecidos da população e medo contra a sociedade como um todo.

Grande parte do eleitorado de Flávio Bolsonaro é movido por esses sentimentos de descrédito e repulsa. Vale ressaltar que essa narrativa foi atualizada com muito recurso de empresas privadas, com suporte dos EUA, em conluio com a mídia comercial brasileira e as big techs, que não são reguladas no país. Com algoritmos e recursos a seu favor, essa mesma burguesia encontrou uma forma ainda mais eficiente de direcionar ódio e medo em escala.

O descolamento da realidade não explica tudo, mas ajuda a aprofundar uma percepção que se deu ao longo do governo e da campanha de que a vida não havia melhorado e que apenas levantar o legado seria insuficiente para dialogar com essa parcela da população.

Os indicadores agregados da economia melhoraram, com desemprego em 5,3%, o menor patamar para o trimestre desde 2012, e também com a queda significativa do preço dos alimentos, em comparação ao governo de Jair Bolsonaro. Ainda assim, a percepção da população seguiu negativa. Pesquisas indicavam, às vésperas do pleito, que 48% dos entrevistados achavam que a situação econômica havia piorado nos últimos doze meses, e a aprovação do governo Lula oscilava perto de 46%, contra 49% de desaprovação.

A Selic, taxa básica de juros que o Banco Central mantém entre as mais elevadas do mundo sob o pretexto de conter a inflação, está em 13,75% ao ano. Na prática, isso significa crédito mais caro para financiar um carro, parcelar uma compra ou renegociar uma dívida atrasada. Flávio Bolsonaro explorou esse descontentamento, atribuindo ao governo Lula a responsabilidade pelo custo de vida e pelo endividamento das famílias. Apostou também numa postura de linha dura em segurança pública, outro tema em que a avaliação do governo é negativa, e no qual a esquerda historicamente patina.

Intervenções de Washington

Esse enfrentamento eleitoral, vale lembrar, não se restringe às fronteiras do país. Às vésperas do primeiro turno, o Brasil chegou às urnas sob denúncias crescentes de interferência direta dos Estados Unidos. A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) elevou a nível crítico o risco de influência externa sobre o pleito, e a Polícia Federal abriu investigação sobre possível interferência estrangeira depois de uma representação da Advocacia-Geral da União (AGU) que cita a atuação do governo Trump.

Os serviços consulares dos Estados Unidos no país chegaram a ser suspensos na reta final da campanha, medida descrita por analistas geopolíticos como tentativa de criar clima de pânico e interferir no resultado das urnas. O embaixador Rubens Barbosa resumiu o quadro ao afirmar que os Estados Unidos tomaram medidas que, indiretamente, interferem no processo eleitoral brasileiro. Washington nega.

O governo de Donald Trump incluiu, à parte, as eleições de 2026 entre as condições apresentadas ao Brasil na negociação do tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros, cobrando um pleito livre e justo e a garantia de que os chamados dissidentes políticos não fossem presos ou impedidos de disputar, referência direta à condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.

Na segunda-feira seguinte ao primeiro turno, o próprio Trump classificou o resultado de Flávio Bolsonaro como uma grande vitória, bem apertada, mas uma grande, grande vitória, e previu uma disputa muito acirrada no segundo turno. O mesmo governo sinaliza que só deve apresentar nova proposta sobre o tarifaço depois do segundo turno, mantendo a política comercial como instrumento de pressão sobre o resultado final da eleição brasileira.

Formação do Congresso

De volta ao tabuleiro doméstico, o novo Congresso Nacional, que toma posse em fevereiro de 2027, confirma o mesmo movimento das urnas presidenciais e deixa clara a disparidade de forças. Das 81 cadeiras do Senado, 49 ficam com a direita, 5 com o centro e 27 com a esquerda. Na Câmara dos Deputados, de 513 vagas, a direita fica com 276, o centro com 113 e a esquerda com 124, cerca de 24% da Casa. Sozinho, o PL de Flávio Bolsonaro se torna a maior bancada das duas Casas, com 121 deputados, 24 a mais que em 2022, e 28 senadores, a maior bancada de um único partido no Senado desde a Constituição de 1988.�

Entre os governadores, o PL venceu em cinco estados já no primeiro turno. O PT resistiu em três, com a reeleição de Jerônimo na Bahia e de Elmano de Freitas no Ceará, além da vitória de Rafael Fonteles no Piauí, com 70,86% dos votos, o maior percentual entre todos os governadores eleitos no país nesta etapa.

Nem tudo, porém, foi recuo. Dentro dos 124 deputados federais de esquerda, a federação Psol/Rede manteve suas 15 cadeiras na Câmara, o mesmo patamar de 2022. O PT também cresceu, mas numa escala bem menor, de 65 para 70 deputados federais. Mais do que o número agregado, chama atenção um recorde de que a esquerda elegeu 47 deputadas federais, o maior número já registrado num Congresso tradicionalmente branco e masculino, sendo 20 mulheres negras e duas indígenas.

Dentro desse grupo, além de novos nomes na política nacional, surgem votações recordes. Érika Hilton (Psol-SP) foi reeleita com 1,5 milhão de votos e se tornou a mulher mais votada da história da Câmara dos Deputados, superando a marca até então detida por Joice Hasselmann. Sâmia Bomfim (Psol-SP) somou 575.949 votos, a segunda mulher mais votada do país.

Em Minas Gerais, Ana Elisa (PT), de 21 anos e com quase 2 milhões de seguidores nas redes sociais, chegou a 524.216 votos e se tornou a deputada federal mais jovem já eleita. Em Pernambuco, Rosa Amorim (PT), primeira mulher sem-terra eleita para a Câmara, levou 144.101 votos. No mesmo estado, o jovem historiador Jones Manoel também foi eleito com 249.077 votos.

Em São Paulo, também assegurou cadeira Guilherme Cortez (Psol), 28 anos, já deputado estadual desde 2023 e uma das apostas de renovação da esquerda no Congresso Nacional. Vale dizer também que, no Paraná, Miss Preta (PT) se torna a primeira mulher negra deputada estadual da história do estado.

É uma bancada jovem, de combate, que chega em 2027 como minoria num Congresso dominado pela direita, com a tarefa, mais do que avançar pauta própria, de impedir retrocessos.�

E agora?

Pronto. As peças estão posicionadas, e a principal pergunta que se impõe agora é simples de formular e difícil de responder. Como inverter essa correlação de forças a tempo de vencer, em 25 de outubro de 2026, quando o segundo turno decide a eleição?

Uma aposta alta terá de ser feita para reverter a vantagem do projeto que sai na frente neste segundo turno. Não existem saídas medianas. Nomear as coisas como são e assumir a radicalidade do próprio projeto é o que esse momento exige da campanha.

Lula precisa, mais do que nunca, ser ele mesmo, reconectar-se às demandas diretas da classe trabalhadora e apresentar uma agenda de futuro que preencha de esperança o povo brasileiro, com a ousadia de ir além do que hoje parece possível. Afinal, o que está em jogo é derrotar nas urnas e nas ruas um projeto de barbárie e fascismo.

A classe trabalhadora tem muito a perder nesse cenário. Essa classe não se resume às camadas mais pobres da população. Alcança também quem ocupa faixas de renda mais altas, mas que segue vivendo da venda da própria força de trabalho, e que às vezes não se reconhece como parte dela, convencido de que seu lugar é ao lado de quem explora.

Essa eleição definirá não somente os próximos quatro anos, mas muitos outros. Este é o último pleito de Lula, e os próximos quatro anos serão decisivos para projetar um nome capaz de herdar esse capital político.�

E onde estão os votos de uma possível virada? Sejamos realistas. Os quase 7,8% de votos que foram para Augusto Cury, Renan Santos e Ronaldo Caiado são um caminho muito estreito. Nenhum dos três declarou apoio a Lula, e análises indicam que esse eleitorado tende a pender mais para Flávio Bolsonaro do que para Lula. A aposta mais realista talvez esteja nos 21,08% que se abstiveram.

É preciso compreender os motivos dessas ausências nas urnas, olhar com atenção para jovens e idosos, e capitalizar politicamente pautas que o governo ainda não soube explorar o suficiente, caso do fim das apostas esportivas online, as bets, medida popular que o Planalto não converteu no crédito político correspondente.

Essa tarefa já está em curso, para além da campanha oficial. Os movimentos populares e coletivos organizados fazem sua parte. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) lançou uma Brigada de Mobilização Popular, com militantes organizados para debater, porta a porta, em igrejas, fábricas, comércio e pontos de ônibus, o que está em jogo na eleição. As Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo reúnem, em plenárias estaduais, lideranças partidárias e sindicais para organizar essa mobilização de rua. É trabalho de base, lento e difícil de medir em pesquisa, mas é, hoje, a principal frente aberta para inverter o resultado em menos de 20 dias.

Para além das urnas

Essa radicalidade tática, porém, não resolve sozinha o que está por trás da derrota. A visão de mundo que se consolida nesta eleição, e que vem se construindo há tempos, é uma visão autocentrada, que rejeita políticas públicas redistributivas, teme qualquer alteração na estratificação social e vê como ameaça toda mudança significativa na vida da parcela mais pobre da população. O nome disso é fascismo, com roupagem contemporânea. E que já tem precedente recente, e conhecido.

O Brasil já viveu quatro anos de governo Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, e sabe o preço de deixar esse projeto voltar ao poder pela via do filho. Foram quatro anos de desmonte de políticas públicas e de estruturas de Estado, de ataques às estatais, de uma pandemia gerida com negacionismo que a CPI da Covid no Senado associou a mais de 700 mil mortes, e de um alinhamento automático a Washington que custou ao país o protagonismo que hoje tenta reconstruir no Sul Global.

Universidades sucateadas, cultura asfixiada, Amazônia e natureza sob ataque, violência de gênero recrudescida. São retrocessos que o país já viveu, na pele, e que agora voltam a rondar o resultado das urnas.

O caminho é bradar alto. Nomear as coisas como são. Ir para o embate. Há um retrocesso incalculável em jogo, para o Brasil e para o continente. Não há espaço para otimismo ingênuo, nem para o derrotismo. Resta esperançar, como ensinou Paulo Freire, e não esperar de braços cruzados, mas lutar por aquilo em que se acredita. Serão longos dias.

*Nina Fideles é jornalista e diretora-executiva do Brasil de Fato.
**Este texto foi publicado em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo.





Com Informações: Brasil de Fato

Deixe um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados

Osteoartrite no joelho: o que realmente funciona no tratamento da doença?

A osteoartrite, conhecida como artrose, é uma doença degenerativa que atinge a...

Feriado tem alerta para tempestades em quase todo o país

Tempestades podem ocorrer em praticamente todo o país nesta segunda-feira (12), quando...

Previsão do tempo: Aparecida (SP) terá céu nublado e chance de chuva

A cidade de Aparecida, no interior de São Paulo, terá um dia...