Região

BR-290: eixo extrativista e zona de sacrifício da região metropolitana de Porto Alegre

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Paulo Roberto Rodrigues Soares;�Emilce Heredia�Chaz; Guilherme Ribeiro de Freitas; Felipe�Akauan da Silva; Gabriel Corrêa*

Pesquisas atuais têm chamado atenção para as interseções entre o (neo)extrativismo, a dependência, a reprimarização da economia, o rentismo e as periferias, as zonas de sacrifício, a (in)justiça ambiental e o racismo ambiental. São análises que compreendem as contradições e as consequências socioeconômicas e socioambientais do atual contexto urbano, produto da globalização financeirizada digital neoliberal.   �

Na Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA), metrópole periférica do capitalismo global e brasileiro, estas se associam às tendências da economia gaúcha, cada vez mais vinculada à reprimarização extrativista e subordinada ao agronegócio e à produção imobiliária.

A economia gaúcha (assim como a brasileira), no século 21, passa por um processo de reprimarização, com o recuo relativo do PIB industrial em detrimento dos serviços e das atividades agropecuárias. Soja, silvicultura, arroz, produção de proteína animal, são os “carros-chefes” da economia do estado. A indústria, a despeito de setores importantes (metal-mecânico, automobilístico, calçadista), está cada vez mais vinculada ao agro, formando um complexo agroindustrial exportador dependente das atividades primárias. Some-se a elas as atividades logísticas, que também evidenciam um modelo econômico dependente, no caso, do consumo excessivo de bens produzidos em outras regiões do país e, principalmente, no exterior.�

A RMPA e seu entorno possuem, “espaços luminosos” e “zonas opacas”, os espaços de mando e os espaços subordinados (parafraseando a Milton Santos). Mesmo na maior concentração urbano-industrial do estado, as atividades extrativistas e rentistas se fazem presentes. A economia metropolitana está mais dependente do grande comércio (plataformas de comércio digital e redes de atacarejos), do setor logístico e da indústria imobiliária. Estas atividades convivem com outros setores compondo a complexidade do território usado metropolitano.

Este artigo traz o relato de um trabalho de campo de observação das atividades extrativistas no eixo oeste da BR-290, na RMPA, de Eldorado do Sul à Minas do Leão. O trabalho de campo foi realizado em junho de 2026, com retorno pela BR-116 até a cidade de Guaíba.�

Neste trajeto, observamos os impactos do extrativismo rural e urbano no território e a presença das “paisagens operacionais”. Este conceito (Brenner, 2018) denomina as extensas áreas industriais, agrícolas, portuárias, de armazenamento e de infraestruturas redesenhadas para apoiar a urbanização capitalista mundial e a extração de commodities. São infraestruturas operativas de otimização dos fluxos de energia e de mercadorias para a economia global, que caracterizam estas áreas como zonas de sacrifício ambiental, com fortes impactos sobre os moradores, as populações tradicionais (povos originários), assentados da reforma agrária e pequenos agricultores familiares.

A “Região Carbonífera” (o nome permanece no imaginário e no cotidiano regional) de longa data se caracteriza como zona de sacrifício e injustiças socioambientais. Antes pela mineração do carvão e seus resíduos, com marcas e cicatrizes no solo e na paisagem regional. Agora, com outras atividades “indesejadas”: o depósito de resíduos sólidos de grande parte da RMPA, o maior complexo carcerário do estado em Charqueadas e as grandes extensões de monocultivos de eucalipto.

Sobre o roteiro do Trabalho de Campo

Logo na saída, a primeira parada em Eldorado do Sul, o município mais sacrificado na catástrofe climática de 2024. Aqui estivemos no terreno destinado à “cidade dos data centers” (tema já abordado nesta coluna). Sabemos que um data center constitui uma infraestrutura altamente devoradora de recursos naturais (água, energia), além de causar impactos no seu entorno (ruídos, saúde mental dos vizinhos). Também sabemos que estas infraestruturas tendem a se localizar nas zonas periféricas metropolitanas, muitas vezes próximas a populações mais pobres e/ou vulneráveis. No caso, o “nosso” data center estará localizado muito próximo de aldeias indígenas e assentados da reforma agrária, os quais não foram consultados sobre sua possível instalação . �

A seguir encontramos o bairro Parque Eldorado, ocupação típica da urbanização dispersa, que mescla áreas populares com setores de segunda residência para a classe média metropolitana, incluindo um clube de campo. Esta população (os setores populares) está suscetível aos riscos e perigos de uma BR-290 ainda não duplicada, com intenso fluxo de caminhões “cegonhas”, de madeira e lixo (transportados para o depósito de resíduos de Minas do Leão).

O município seguinte, Arroio dos Ratos, ainda sofre com a mineração de carvão muito próxima ao centro urbano, o que vem impactando nas inundações da área urbana. Na beira BR-290, na entrada de uma das minas ativas uma placa indica: “horário de detonação: de segunda à sábado das 12:00 às 13:00 e das 17:00 às 18:30”. Detonações na escala 6×1! �

Seguindo adiante, rumo à Butiá, os plantios do monocultivo eucalipto e a derrubada das árvores tomam conta da paisagem. Aqui já encontramos estruturas de embarque e transporte das toras de madeira para o seu destino final. O município está passando por uma reestruturação econômica a partir das atividades de silvicultura e logística da madeira. A avaliação dos efeitos socioeconômicos destas atividades está sendo realizada por uma pesquisa de mestrado em Geografia na UFRGS.

Embarque de toras de madeira. Butiá. Imagem: Paulo Soares, junho de 2026.

O destino da primeira etapa do trabalho de campo foi a cidade de Minas do Leão. Município caracterizado pela extração de carvão e pela deposição de resíduos sólidos comuns de descarte domiciliar e limpeza urbana provenientes da RMPA e de mais de cem municípios do RS. Hoje, o passivo ambiental deixado pela mineração é aproveitado por atividades igualmente impactantes no território: a deposição de resíduos e a geração de energia. Aqui todas as paisagens operacionais se reúnem formando um mosaico que ocupa grande parte do território do município, com populações residindo muito próximas a elas.�

Retornamos pela BR-290 até a BR-116, passamos por Guaíba, onde encontramos um novo grande centro logístico e já no centro urbano a grande planta da indústria de celulose, o “desaguadouro” de toda a produção extrativista exportadora de eucalipto da metade sul do estado. A onipresença da planta e da empresa na paisagem urbana da cidade evidencia o poder e as estratégias de legitimação do grande capital junto à população.

Fabricação de celulose. Guaíba/RS. Imagem: Paulo Soares, junho de 2026.

O que pensar a partir destas observações? Que o estado carece de um projeto de novo modelo de desenvolvimento, que contemple as nossas diferenças e desigualdades regionais. Que as regiões e populações historicamente sacrificadas não podem ficar reféns de “qualquer” alternativa, como se não houvesse possibilidade de construir algo diferente. Que o modelo extrativista-exportador amplia as desigualdades sociais e regionais, beneficia os atores sociais já hegemônicos nas regiões (os grandes proprietários fundiários e o capital externo, especialmente) e prejudica a população mais pobre e que já padece na precariedade social, ambiental e urbana. Além disso, causa impactos socioambientais preocupantes em tempos de emergência climática.�

Serão estas populações, suas organizações e sindicatos capazes de pensar e construir uma alternativa ao modelo extrativista-exportador? Esperamos, como pesquisadores, que sim, e estamos à disposição para esta discussão.

*Paulo Roberto Rodrigues Soares é professor do Departamento de Geografia da UFRGS e pesquisador do Observatório das Metrópoles, Núcleo Porto Alegre.

*Emilce Heredia Chaz é professora da Universidad Nacional del Sur, Bahía Blanca, Argentina.�

*Guilherme Ribeiro de Freitas é mestrando do Programa de Pós-graduação em Geografia da UFRGS.

*Felipe Akauan da Silva é doutorando do Programa de Pós-graduação em Geografia da UFRGS.

*Gabriel Corrêa é graduando em Geografia e bolsista de iniciação científica na UFRGS.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.





Com Informações: Brasil de Fato

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