Um tribunal de Damasco condenou o ex-presidente da Síria, Bashar al-Assad, à morte no último 11 de agosto. Julgado à revelia, ou seja, sem comparecer para fazer sua defesa, Assad foi condenado por crimes contra a humanidade e de guerra durante os quase 14 anos de guerra civil no país. É a primeira sentença contra o ex-presidente desde o fim do seu governo, em 2024. O ex-presidente está atualmente em Moscou, na Rússia, onde ganhou asilo político de Vladimir Putin após sua deposição em dezembro de 2024.
A condenação do ex-presidente sírio acontece em meio ao recente acordo sobre o futuro das bases militares russas na Síria, colocando em perspectiva o redesenho das relações entre Moscou e Damasco sob o novo governo do país árabe.
O regime da dinastia Assad chegou ao fim após forças antigovernamentais tomarem Damasco durante uma ofensiva em dezembro de 2024 e anunciarem a derrubada do regime. Desde então, Assad vive com sua família sob asilo político na Rússia.
Em outubro de 2025, a mídia noticiou que o novo líder da Síria, Ahmed al-Sharaa, exigia que Moscou extraditasse Assad. O Kremlin, no entanto, informou posteriormente que a extradição de Assad não foi discutida durante a última reunião entre o presidente russo Vladimir Putin e o novo líder sírio Ahmed al-Sharaa, em Moscou, em janeiro deste ano. O novo governo sírio também não fez mais pedidos desta natureza à Rússia.
Em entrevista ao Brasil de Fato, o cientista político e especialista em Oriente Médio, Yuri Mavashev, observou que a condenação de Assad é um gesto simbólico e não deve repercutir nas relações entre os dois países de maneira significativa.
“Acho que é mais uma manobra simbólica, simplesmente para pressionar a Rússia, para mostrar que Damasco está tentando deixar claro que, na nova Síria, tudo deve ser nos seus termos”, afirmou.
Para o analista, a condenação de Assad revela mais uma reprodução de alguns métodos políticos que não foram alterados com a mudança de governo.
“A condenação de Assad que eles anunciaram não terá impacto algum. Se tivesse algum impacto, garanto, a Rússia jamais teria chegado a um acordo com a Síria, com as chamadas autoridades revolucionárias. Mas o fato é que, em primeiro lugar, como apontam muitos colegas especialistas em Síria, as atuais autoridades sírias estão usando, digamos, as mesmas táticas que eram usadas antes por Assad”, argumenta.
A decisão sobre a sentença de Bashar al-Assad surge no contexto de um recente entendimento entre Moscou e Damasco sobre o futuro das bases militares russas no país árabe. No último dia 9 de agosto, a Rússia e a Síria assinaram um memorando de entendimento dedicado à reorganização e legitimação da presença militar russa no país.
A Rússia mantém duas importantes instalações militares na Síria: a base naval de Tartus, estabelecida durante a Guerra Fria, e a base aérea de Hmeimim, criada em 2015 para apoiar Bashar al-Assad durante a guerra civil. A presença militar consolidou a influência de Moscou no Oriente Médio e garantiu um ponto estratégico de acesso ao Mediterrâneo.
A deposição de Bashar al-Assad deixou incerto o futuro das bases russas e a sua influência geopolítica na região. Com o novo memorando de entendimento, as bases se tornarão centros de treinamento conjunto. De acordo com o cientista político Yuri Mavashev, “esse processo foi precedido por aproximadamente um ano e meio de intensas negociações”. O destino das duas bases russas, Khmeimim e Tartus, estava em jogo. E, finalmente, foi resolvido com a assinatura de um memorando de entendimento, que define os contornos da próxima etapa das relações”, destaca.
Ao comentar a assinatura do documento, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia afirmou que o memorando com a Síria sobre a operação de bases russas em Khmeimim e Tartus é um “passo importante no desenvolvimento da cooperação militar entre os dois países”.
“Consideramos a assinatura do memorando em 9 de agosto um passo importante para aprimorar ainda mais a cooperação militar bilateral e fortalecer o arcabouço legal para esse tipo de cooperação no novo contexto”, observou o ministério.
O Ministério das Relações Exteriores enfatizou que a celebração de acordos com as novas autoridades sírias pode impulsionar ainda mais o desenvolvimento de toda a gama de relações bilaterais.
De acordo com o analista Yuri Mavashev, esse tom pragmático é relevante porque evidencia que Moscou reconhece a abertura de uma nova etapa nas relações com Damasco, sem tentar preservar artificialmente os termos da parceria anterior.
“E isso, de fato, é muito importante, porque aqui, como se diz, não tem nada sendo maquiado ou enfeitado. De fato, estamos em uma fase de uma nova cooperação, uma nova interação com as autoridades sírias”, afirma.
Com a derrubada de Bashar al-Assad, a Rússia perdeu um aliado importante e o protagonismo na influência sobre a Síria. Apesar disso, a histórica relação entre os dois países guarda certos trunfos estratégicos para Moscou. Ano passado, a Rússia anunciou um acordo entre Moscou e Damasco para realizar um levantamento de acordos e contratos bilaterais, enfatizando a defesa da suspensão de diversas sanções ocidentais contra a Síria.













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