Ameaças, intimidações e exposição de dados pessoais passaram a fazer parte da rotina de servidores e servidoras da Justiça Eleitoral após o primeiro turno das eleições de 2026. Os ataques nas redes sociais também atingiram familiares dos trabalhadores, levando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a acionar a Polícia Federal (PF) e o Ministério Público para investigar os casos e buscar a responsabilização dos envolvidos.
Até o dia 8 de outubro, o TSE havia identificado aproximadamente 30 mil manifestações nas redes sociais com desinformação, discurso de ódio, ameaças veladas e exposição indevida de informações pessoais. Os conteúdos circulavam principalmente nas plataformas X e Meta, responsável pelo Whatsapp, Instagram e Facebook.
Em nota, o tribunal informou que comunicou as plataformas sobre a circulação das publicações irregulares. Também anunciou medidas de segurança para servidores ameaçados e seus familiares, além de apoio psicológico às pessoas atingidas.
Para Fernanda Lauria, da Coordenação de Inovações Tecnológicas em Processos de Trabalho da Federação Nacional dos Trabalhadores e das Trabalhadoras do Judiciário Federal e Ministério Público da União (Fenajufe), os episódios não são isolados. Segundo ela, a federação já havia manifestado preocupação com a segurança da categoria em eleições anteriores e voltou a tratar do tema com o TSE antes mesmo do início das campanhas de 2026.
“Esses episódios estão relacionados ao ambiente de radicalização política e à atuação de setores da extrema direita ligados ao bolsonarismo, que passaram a atacar e questionar sistematicamente a credibilidade da Justiça Eleitoral”, afirma Lauria.
Ataque ao processo democrático
Na avaliação expressa pela Fenajufe, divergências políticas não justificam ameaças contra trabalhadores que desempenham funções públicas. A federação destaca que são esses profissionais que atuam na organização das eleições em todo o país, assegurando as condições para que milhões de brasileiros exerçam o direito ao voto.
Para a coordenadora da federação, a intimidação dos servidores está relacionada às tentativas de deslegitimar a instituição e pode criar condições para contestar os resultados eleitorais. Ela aponta semelhanças entre o cenário vivido em 2022.
“Atacar servidores por exercerem suas atribuições na Justiça Eleitoral é uma forma de atacar o próprio processo democrático. As eleições são um trabalho gigantesco, que mobiliza milhões de pessoas, entre mesários, servidores, representantes de outros órgãos públicos e diversas instituições”, afirma.
A organização também manifestou solidariedade aos servidores e servidoras atingidos e defendeu que o exercício de suas atribuições não pode servir de motivo para perseguições.
“A Fenajufe exige a investigação dos casos, a responsabilização dos envolvidos e a proteção das pessoas ameaçadas. A Federação também manifesta solidariedade às servidoras e aos servidores da Justiça Eleitoral e seus familiares, que não podem ser alvo de perseguição ou intimidação pelo exercício de suas atividades”, afirma a nota.
TSE alerta para ataques à Justiça Eleitoral
A preocupação com a segurança dos trabalhadores e com a circulação de conteúdos contra a Justiça Eleitoral também esteve presente em uma reunião realizada em 13 de outubro entre o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, e representantes jurídicos das campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), candidatos à Presidência da República no segundo turno.
Segundo Lauria, os trabalhadores desempenham essas funções com orgulho, por contribuírem para a realização das eleições e para o exercício do direito ao voto. A ocorrência de ameaças, porém, altera essa experiência.
“Historicamente, os servidores da Justiça Eleitoral sempre tiveram orgulho de estar à frente desse trabalho e de colocar em prática a razão de existir da instituição. Quando passam a ser alvo de ameaças e ataques, porém, esse sentimento dá lugar ao medo e à insegurança”, afirma.
Para a coordenadora, é necessário que o tribunal ofereça acolhimento e garantias concretas de segurança aos profissionais. Ela defende medidas de inteligência e proteção que permitam aos servidores desempenhar suas atribuições sem receio de represálias.
Sobre as medidas anunciadas pelo TSE, Lauria ressalta que a federação ainda não dispõe de informações suficientes para avaliar se as providências adotadas são adequadas. Segundo ela, seria necessário conhecer melhor o andamento das investigações e o alcance das ações implementadas.
“Sem essas informações a análise dos riscos, a fim de identificar eventuais necessidades de medidas adicionais, fica comprometida”, afirma.
A coordenadora diz que a Fenajufe reconhece as providências já adotadas pelo tribunal, mas continuará cobrando informações sobre as medidas em andamento e outras ações eventualmente implementadas que ainda não tenham sido divulgadas publicamente.
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