O acordo que coloca fim ao conflito entre Estados Unidos e Irã e deve ser ratificado na próxima sexta-feira (19) tem fragilidades e não parece que será selado, já que os países têm, publicamente até o momento, manifestado demandas incompatíveis para encerrar a guerra.
Essa é a avaliação de Ricardo Leães, professor e pesquisador de Relações Internacionais, em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato. “O Irã busca um acordo de paz que efetivamente faça jus ao seu desempenho na guerra em que ele se enxerga como vencedor. Ele quer reparações de guerra, o levantamento das sanções. Por outro lado, Israel permanece absolutamente insatisfeito, porque gostaria da destruição das capacidades nucleares e militares do Irã, o que não estamos nem perto de verificar. Os Estados Unidos, que apresentam interesses mais ou menos semelhantes ao Estado de Israel, têm um desejo de que a guerra termine, porque Donald Trump já se deu conta de que o Irã consegue fechar o Estreito de Ormuz e pressionar o preço do petróleo e inclusive ele próprio. À luz desse cenário todo, um acordo de paz me parece improvável porque o Irã ao mesmo tempo, exige que a situação no Líbano seja contemplada. Diante disso tudo, não me parece que houve avanço nas negociações”, afirma.
Leães destaca, mais uma vez, a imprevisibilidade das declarações de Trump e comenta sobre a especulação da saúde mental do presidente dos Estados Unidos. “O próprio Joe Biden, não nos esqueçamos de que a situação não foi tão diferente assim. Ele começou a dar os primeiros sinais de que estava com a sua estabilidade mental comprometida. Houve uma grande negação por parte do seu entorno político. Ele passou literalmente alguns anos nessa situação e cada vez era mais evidente que essa situação era a realidade. E depois houve uma prova de que nós estávamos sendo corretos na avaliação de que o Joe Biden apresentava problemas de sanidade mental”, analisa.
Para o analista internacional, a questão de Israel e a sanha de Benjamin Netanyahu de dominar territorialmente o Líbano continuam sendo um grande obstáculo para qualquer realização de acordo no Oriente Médio e, por consequência, na direção do término do conflito com o Irã. “Inclusive, Israel tem um hábito de realizar os seus avanços territoriais de uma forma um tanto quanto metódica. Israel faz alguma anexação territorial argumentando que a necessidade é criar uma zona de segurança contra os seus inimigos. Vamos lembrar que Israel conquistou os territórios na Guerra dos Seis Dias, em 1967, também com essa argumentação. A conquista da Cisjordânia também era para proteger o Estado de Israel, bem como a Faixa de Gaza e a Península do Sinai. Só que, logo na sequência, Israel começa a construir assentamentos. E, como constrói esses assentamentos, justifica a anexação do território. E, em seguida, tem que, na visão israelense, é claro, anexar mais territórios para que esses novos territórios sejam uma zona de segurança”, explica, mas adverte. “Só que o Hezbollah está dando um trabalho gigantesco para Israel.”
Lula no G7
Ricardo Leães também analisou a fala do presidente Lula (PT) na reunião da cúpula do G7, na França. O mandatário brasileiro não chegou a mencionar diretamente os EUA, mas defendeu a soberania do Brasil e criticou medidas unilaterais em uma clara indireta ao tarifaço anunciado por Trump. O analista não considera que haja qualquer rompimento nas relações diplomáticas, apesar do cenário considerado delicado. “No caso de Brasil e Estados Unidos, temos relações mais consolidadas em níveis institucionais, políticos e econômicos. Eu sempre bato nessa tecla de que o Itamaraty, embora não seja o condutor da política externa brasileira, é o responsável por implementá-la. Trata-se de uma instituição que apresenta uma preferência ocidental, uma organização atlantista que não pretende promover uma grande transformação da ordem mundial. A política externa do terceiro mandato do governo Lula tem sido a mais condizente com aquilo que o Itamaraty defende ao longo de sua história”, afirma.
“No passado, tínhamos o triunvirato formado por Marco Aurélio Garcia, assessor especial da Presidência; Samuel Pinheiro Guimarães, diplomata histórico do Itamaraty e defensor de uma nova visão de mundo; e, naturalmente, Celso Amorim, então chanceler. Hoje, Marco Aurélio Garcia e Samuel Pinheiro Guimarães já não estão mais entre nós. Resta apenas Celso Amorim, que, ocasionalmente, defende uma postura um pouco mais assertiva, sugerindo que o Brasil poderia buscar laços mais estreitos com a China, inclusive na área militar. Mas, em linhas gerais, é basicamente isso”, avalia.
Para ouvir e assistir
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